03/02/2026 11:14

Uso indiscriminado de inseticida mortal para abelhas preocupa apicultores de MS

Fipronil segue em uso no Brasil mesmo com proibição em diversos países; Ibama reavalia riscos ambientais e impactos sobre polinizadores

O uso indiscriminado do inseticida fipronil tem causado preocupação entre apicultores de Mato Grosso do Sul, que denunciam o impacto devastador do produto sobre colmeias inteiras e a biodiversidade de insetos polinizadores. Embora o fipronil seja proibido na União Europeia desde 2017 e em vários países da Ásia, ele ainda é amplamente utilizado no Brasil, especialmente para o tratamento de sementes e controle de pragas em 23 diferentes cultivos.

Risco para as abelhas e o meio ambiente

Segundo o Campo Grande News, apicultores de diferentes regiões do Estado vêm alertando para o impacto direto da substância sobre a saúde das abelhas, que são essenciais para o equilíbrio ambiental e a cadeia produtiva do mel. O coordenador da Coopeams (Cooperativa Regional de Apicultura e Meliponicultura de MS), Cláudio Ramires Koch, afirma que a substância representa um problema de escala mundial.

“O fipronil é um problema não só na apicultura do Brasil; é um problema no mundo todo. […] As abelhas estão sendo exterminadas e ninguém faz nada”, reforça Koch.

A situação se agrava diante da dificuldade de controle do uso da substância. No mês passado, uma empresa de Brasilândia firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para reparar infrações ambientais causadas pelo uso e transporte de agrotóxicos, incluindo o fipronil, sem o receituário agronômico obrigatório. A ocorrência acendeu o alerta sobre possíveis práticas clandestinas e falhas na fiscalização.

Reavaliação e suspensão parcial

Diante das inúmeras denúncias de mortalidade de abelhas, o Ibama iniciou, no final de 2022, o processo de reavaliação do uso do fipronil no Brasil. Em caráter preventivo, foi suspenso o uso via pulverização foliar em área total, modalidade considerada altamente prejudicial a insetos polinizadores.

O órgão afirma que o procedimento ainda está em andamento, mas, até sua conclusão, as restrições seguem em vigor. A pressão para o banimento definitivo do produto também chegou ao Congresso Nacional. Em novembro de 2023, apicultores cobraram na Câmara dos Deputados uma resposta urgente ao problema.

Impacto sobre o setor e ausência de respostas

Além dos danos ambientais, o fipronil ameaça diretamente a sustentabilidade da produção de mel e de outras atividades que dependem das abelhas. Para os apicultores, a falta de uma ação mais incisiva por parte das autoridades permite que o problema persista.

“Chamamos as autoridades, eles abrem protocolos, mas não resolvem nada. O produto segue matando abelhas e polinizadores, prejudicando o meio ambiente e toda a cadeia do mel”, reforça o coordenador da Coopeams.

O que diz a legislação

Atualmente, os produtos à base de fipronil são autorizados no Brasil para uso em lavouras de soja, milho, trigo, algodão, batata, feijão, cana-de-açúcar, eucalipto, entre outras culturas. A Agrofit, sistema do Ministério da Agricultura, regula o uso do agrotóxico no país, em parceria com a Anvisa e o Ibama.

Por outro lado, o recente TAC firmado em Brasilândia demonstra que ainda há falhas no cumprimento das regras, como o transporte e uso sem prescrição técnica, o que contribui para o uso indiscriminado.

A Famasul (Federação de Agricultura e Pecuária de MS) foi procurada pela reportagem do Campo Grande News, mas não se pronunciou sobre o tema até o fechamento da matéria.