03/02/2026 01:20

A conta que não fecha | O país que estimula a dependência e esquece quem produz

“Nenhuma sociedade prospera quando o estímulo é depender, e não produzir”. O alerta é de Inês Santiago, presidente da FCDL-MS, que chama atenção para uma realidade preocupante: o assistencialismo, quando deixa de ser uma resposta emergencial e se transforma em política permanente, corrói silenciosamente o valor do trabalho.

Em Mato Grosso do Sul, quase 70% da população está inscrita no CadÚnico, porta de entrada para programas sociais do governo federal. São 1,9 milhão de pessoas e o número cresce mês a mês. Somente o Bolsa Família alcança hoje 180 mil lares no Estado. No Brasil, 94 milhões de cidadãos dependem de algum tipo de auxílio. Metade do país.

Do outro lado da balança, o peso recai sobre quem produz, paga impostos, emprega e sustenta a economia real. E esse lado está ficando sem fôlego.

Dependência não é desenvolvimento

A assistência social é essencial. Mas quando o auxílio se perpetua, deixa de amparar e passa a aprisionar. Quando a dependência avança mais rápido que o emprego, a conta simplesmente não fecha, nem para o Estado, nem para a sociedade.

O varejo sente isso na pele. Responsável por 65% do PIB de Mato Grosso do Sul e por 87% dos CNPJs ativos do Estado, o setor é o coração da economia local. Mas, enquanto o benefício chega com um clique, o empreendedor encara filas de impostos, burocracia e ausência de incentivo. E ainda escuta que “é o setor que mais cresce”. Cresce, sim, mas sozinho.

O país que estimula o consumo e esquece o trabalho

Distribuir renda é fácil. Difícil é criar oportunidades para gerá-la. O problema é que o assistencialismo se transformou em estratégia política, e o trabalho, em discurso decorativo.

Em vez de políticas que fortaleçam o empreendedor, simplifiquem o sistema tributário, ampliem o crédito e valorizem o emprego formal, o país multiplica o número de dependentes do Estado. E quem sustenta esse modelo é justamente o comércio local, o pequeno empresário que paga a folha, a energia, o aluguel e os impostos. Um ciclo que esgota o vigor de quem mantém o país de pé.

Produzir é o maior ato social que existe

Nenhuma sociedade se desenvolve premiando a dependência. O verdadeiro progresso nasce do trabalho, da liberdade de empreender e da confiança em quem produz.

“O problema não é ajudar quem precisa. É transformar a ajuda em dependência e esquecer quem produz. O assistencialismo desorganizado cria uma sociedade que espera, e quem sustenta essa espera é justamente o setor que mais trabalha e menos recebe: o varejo”, reforça Inês Santiago.

O assistencialismo pode ser um remédio emergencial, mas não um projeto de futuro. Se o país quer um Estado forte, precisa de uma base produtiva sólida. Porque é o trabalho que devolve dignidade, e é o empreendedor que segura o país quando o Estado vacila.

Angela Schafer, de Campo GrandeFoto: Divulgação