02/02/2026 23:49

Pecuária tropical é aliada do clima, defende Embrapa em apresentação na COP30

Em um momento em que a agenda climática global aponta com urgência para a necessidade de transformar os sistemas agroalimentares, a Embrapa defendeu, no início desta semana, na AgriZone, em Belém, que a pecuária tropical brasileira não é parte do problema, mas uma peça chave da solução. A instituição apresentou o documento “Pecuária brasileira como parte da solução para as mudanças climáticas”, elaborado por pesquisadores de diferentes regiões do país e entregue oficialmente aos negociadores que integram a delegação brasileira na COP30. A publicação está disponível em português e inglês no portal da Embrapa.

A apresentação foi conduzida pela pesquisadora Mariana Pereira, da Embrapa Gado de Corte, que destacou o potencial do setor para elevar a eficiência produtiva sem crescimento do rebanho. Segundo ela, o aprimoramento do manejo permite que cada animal permaneça menos tempo no sistema, emitindo menos gases de efeito estufa. “Com o abate precoce, cada animal emite menos”, ressaltou. Hoje, a produtividade média nacional da pecuária de corte gira em torno de cinco arrobas por hectare ao ano, mas pode quadruplicar com práticas que já estão disponíveis ao produtor, como genética avançada, suplementação, uso de bioinsumos e consórcio de forrageiras.

Os avanços e resultados concretos dessas tecnologias foram detalhados pelos pesquisadores que participaram do painel. Daniel Lambertucci, da Embrapa Acre, apresentou o conceito de pastagens biodiversas, formadas por duas ou mais gramíneas associadas a leguminosas. Segundo ele, sistemas desse tipo elevam a resiliência, a longevidade e a estabilidade das pastagens. Um exemplo é o Sistema Guaxupé, adotado no Acre e já presente em 100 mil hectares. “É uma tecnologia validada em fazendas reais ao longo de mais de 20 anos”, explicou.

O pesquisador Roberto Giolo, da Embrapa Gado de Corte, destacou ainda os avanços da integração lavoura-pecuária, que alcançou 17,43 milhões de hectares até 2020/2021, superando com folga as metas do Plano ABC. Para ele, existe relação direta entre sistemas mais eficientes e menores emissões. “Aqueles que emitem muito perdem dinheiro. É um índice de eficiência”, pontuou. Pastagens bem manejadas, ressaltou, são capazes de captar mais carbono no solo do que áreas de vegetação nativa.

A intensificação sustentável também se estende aos campos naturais. Fernando Cardoso, da Embrapa Pecuária Sul, destacou que o uso de tecnologias como leguminosas aumenta o sequestro de carbono e eleva a produtividade mesmo em áreas de pastagem nativa, reforçando que a inovação pode transformar diferentes realidades produtivas.

Durante o debate, o público reconheceu a importância das evidências apresentadas para desconstruir a ideia de que a pecuária brasileira é inerentemente emissora e incompatível com metas climáticas. Os especialistas reforçaram que ciência, dados sólidos e investimento público e privado são essenciais para fortalecer o posicionamento do Brasil em fóruns internacionais. Também defenderam que o acesso às tecnologias sustentáveis precisa ser ampliado para diferentes perfis de produtores, garantindo que a evolução técnica se converta em impacto concreto, dentro e fora das porteiras.

Angela Schefer, de Campo GrandeFoto: Embrapa