21/03/2026 01:31

Crédito rural cai 16% e expõe contradição: bancos exigem mais enquanto pequenos produtores precisam de apoio para sobreviver

Inadimplência, eventos climáticos e exigências ambientais mais rígidas reduzem financiamento em R$ 16 bilhões, mas aumento de 11,4% nos contratos revela que mais produtores buscam valores menores — sinalizando aperto que afeta especialmente agricultura familiar

O crédito rural e agroindustrial no Brasil caiu 16% no primeiro semestre de 2025, um recuo de R$ 16 bilhões que expõe uma contradição dolorosa: enquanto produtores precisam cada vez mais de apoio financeiro para enfrentar eventos climáticos extremos e cumprir exigências ambientais crescentes, as instituições financeiras fecham as torneiras do crédito justamente quando ele seria mais necessário.

O volume liberado somou R$ 83 bilhões no período, segundo o novo Boletim Agro da Serasa Experian. A queda acontece mesmo com demanda ativa e aumento expressivo no número de contratos — sinais de que o problema não é falta de interesse dos produtores, mas endurecimento das condições de acesso ao crédito.

O movimento indica um agro mais cauteloso, mas levanta a questão: cauteloso ou abandonado à própria sorte em um ano marcado por riscos climáticos crescentes, inadimplência que reflete crises anteriores e avaliação cada vez mais criteriosa — e muitas vezes excludente — das instituições financeiras?

O aperto que sufoca quem mais precisa

“O recuo de cerca de 16% na concessão no primeiro semestre de 2025 tem como um dos fatores o movimento de maior cautela no mercado. O setor convive com desafios como a elevação gradual da inadimplência, eventos climáticos e critérios mais rigorosos de conformidade socioambiental”, afirmou Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian.

A fala técnica esconde uma realidade dramática: pequenos e médios produtores, especialmente da agricultura familiar, estão sendo pressionados simultaneamente de todos os lados. Precisam cumprir exigências ambientais cada vez mais rigorosas (o que é correto e necessário), enfrentam eventos climáticos extremos que destroem safras inteiras (consequência das mudanças climáticas que não causaram), e veem o crédito — ferramenta essencial para investir em adaptação e tecnologia — ficar cada vez mais difícil de acessar.

Mais contratos, menos dinheiro: o sinal de alerta

Os números do segundo trimestre de 2025 revelam um padrão preocupante. O crédito rural e agroindustrial atingiu R$ 47 bilhões no período. Mas observe a contradição:

  • Ticket médio por CPF: caiu 22,1%, ficando em R$ 157,9 mil
  • Número de novos contratos: subiu 11,4%, chegando a 343,6 mil operações

Traduzindo: mais produtores buscaram crédito, mas com valores significativamente menores. Isso não é sinal de saúde do setor — é sinal de aperto, de ajuste forçado no “apetite de risco” dos financiadores que, na prática, significa deixar produtores com menos recursos para investir, modernizar, adaptar-se às mudanças climáticas ou cumprir as próprias exigências ambientais que os bancos dizem valorizar.

É um ciclo perverso: produtores recebem menos crédito, investem menos em tecnologia e adaptação, ficam mais vulneráveis a eventos climáticos, aumentam as chances de inadimplência, o que por sua vez justifica novos cortes no crédito.

Desigualdades regionais gritantes

Os dados também evidenciam uma distribuição profundamente desigual do crédito pelo país, refletindo e aprofundando disparidades históricas entre regiões e tipos de agricultura.

Centro-Oeste: o agronegócio de grande escala

O Centro-Oeste Agro apresentou operações de valor muito superior às demais regiões, com ticket médio impressionante de R$ 639 mil por CPF e R$ 468 mil por contrato. Somou R$ 12 bilhões no trimestre, com 27 mil novos contratos para 19 mil CPFs.

Esses números refletem a presença de grandes produtores, monoculturas de soja e milho em larga escala, mecanização intensiva. São operações robustas que concentram recursos significativos.

Sul: volume que sustenta a média nacional

O Sul puxou o volume financeiro, com R$ 15 bilhões emprestados no trimestre — o maior montante regional. Foram 103 mil novos contratos para 80 mil CPFs, com ticket médio de R$ 187 mil por CPF e R$ 145 mil por contrato.

A região concentra agricultura familiar forte, cooperativas consolidadas, produção diversificada. Os números maiores refletem tanto a presença de médios produtores quanto a força do cooperativismo que facilita acesso ao crédito.

Nordeste: muitos produtores, pouco dinheiro

O contraste mais gritante aparece no Nordeste Agro, que concentrou o maior número de produtores acessando crédito — 108 mil CPFs contratantes e 111 mil novos financiamentos —, mas com valores dramaticamente menores.

O ticket médio foi de apenas R$ 30 mil por CPF e R$ 30 mil por contrato, somando R$ 3,3 bilhões no trimestre. Ou seja: enquanto um produtor do Centro-Oeste acessa em média R$ 639 mil, um do Nordeste acessa apenas R$ 30 mil — mais de 20 vezes menos.

Esses números expõem a realidade da agricultura familiar nordestina: muitos pequenos produtores, com acesso extremamente limitado a crédito, enfrentando o semiárido, as secas recorrentes agravadas pelas mudanças climáticas, com recursos insuficientes para investir em tecnologias de adaptação como irrigação, cisternas, sementes adaptadas.

Outras regiões

MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), região de expansão recente do agronegócio, movimentou R$ 5,3 bilhões em 19 mil contratos, com ticket médio de R$ 317 mil por CPF — reflexo da presença de médios e grandes produtores em áreas de fronteira agrícola.

Sudeste somou R$ 8,9 bilhões em 56 mil contratos para 47 mil CPFs, com ticket médio de R$ 188 mil por CPF — números intermediários que refletem a diversidade produtiva da região.

Norte registrou R$ 1,4 bilhão em 8,4 mil contratos para 7,6 mil CPFs, com ticket médio de R$ 190 mil por CPF — valores relativamente altos considerando a região, mas volume total pequeno que reflete as dificuldades de expansão do crédito na Amazônia Legal.

Exigências ambientais: necessárias, mas sem apoio adequado

Um dos fatores citados para a redução do crédito são as “exigências ambientais mais rígidas”. É fundamental esclarecer: essas exigências são corretas e necessárias. A agricultura precisa, sim, ser sustentável, respeitar a legislação ambiental, preservar áreas de proteção permanente, evitar desmatamento ilegal.

O problema não está nas exigências em si, mas na ausência de políticas públicas que apoiem produtores — especialmente pequenos e médios — a cumprirem essas exigências.

Regularização ambiental custa dinheiro: requer levantamentos topográficos, georreferenciamento, cercamento de áreas de preservação, recuperação de áreas degradadas, assistência técnica especializada. Pequenos produtores familiares simplesmente não têm recursos para arcar com esses custos sozinhos.

Quando instituições financeiras usam “conformidade socioambiental” como critério excludente sem oferecer linhas de crédito específicas, com juros subsidiados e prazos adequados para investimento em regularização, estão na prática punindo justamente quem deveria ser apoiado.

O resultado perverso: grandes produtores, que têm recursos para contratar consultoria especializada e cumprir exigências, mantêm acesso ao crédito. Pequenos produtores, que não têm esses recursos, ficam excluídos — aprofundando desigualdades e concentração fundiária.

Inadimplência: consequência, não causa

O aumento da inadimplência, citado como justificativa para a redução do crédito, precisa ser compreendido em seu contexto real. Produtores não ficam inadimplentes por irresponsabilidade ou má gestão na maioria esmagadora dos casos.

A inadimplência no campo reflete:

  • Eventos climáticos extremos: secas prolongadas, geadas fora de época, chuvas excessivas, tempestades severas que destroem safras inteiras, fenômenos cada vez mais frequentes por causa das mudanças climáticas
  • Oscilações brutais de preços: commodities agrícolas sujeitas a volatilidade internacional que produtores não controlam
  • Custos de insumos disparados: fertilizantes, defensivos, combustíveis com preços crescentes que comprometem margens
  • Crédito insuficiente em momentos anteriores: quando produtores recebem menos do que precisam, não conseguem investir adequadamente, comprometendo produtividade futura

Usar a inadimplência como justificativa para reduzir ainda mais o crédito é tratar sintoma ignorando causas estruturais. É punir vítimas de um sistema que não oferece proteção adequada contra riscos que os próprios produtores não causaram nem controlam.

O que realmente seria necessário

Para enfrentar adequadamente os desafios do crédito rural no contexto de mudanças climáticas e exigências ambientais crescentes, seriam necessárias políticas como:

Linhas de crédito específicas com juros subsidiados e prazos longos para investimento em regularização ambiental, recuperação de áreas degradadas, tecnologias de adaptação climática.

Seguro rural robusto e acessível que proteja produtores de eventos climáticos extremos, evitando que percas de safra se transformem automaticamente em inadimplência.

Assistência técnica pública e gratuita para ajudar produtores familiares a cumprirem exigências ambientais e acessarem crédito.

Diferenciação clara entre grande agronegócio e agricultura familiar, com condições específicas que reconheçam realidades completamente diferentes.

Renegociação de dívidas em casos de comprovada perda por eventos climáticos, sem penalizar produtores por situações que não controlam.

Fortalecimento de cooperativas e associações que facilitam acesso coletivo ao crédito em melhores condições.

A encruzilhada do campo brasileiro

O Brasil está em uma encruzilhada. Podemos continuar com um modelo que concentra crédito em grandes produtores e regiões já consolidadas, enquanto abandona pequenos e médios agricultores à própria sorte diante de desafios climáticos crescentes. Ou podemos construir políticas que efetivamente democratizem o acesso ao crédito, apoiem a transição para agricultura sustentável e fortaleçam a agricultura familiar.

A queda de 16% no crédito rural não é apenas um número técnico — é um sinal de alerta vermelho de que estamos escolhendo o caminho errado, abandonando quem produz alimentos e sustenta comunidades inteiras justamente quando mais precisam de apoio para enfrentar o futuro incerto que se apresenta.