02/02/2026 22:52

A Direita Progressista

A direita não está ameaçada de perder a disputa política apenas por ser alvo de ativismo judicial. Observadores enxergam outra razão: a troca de princípios por um pragmatismo sem convicções. 

Não se trata de culpar a vítima. É óbvia a perseguição da qual têm sido vítimas tanto lideranças da oposição quanto cidadãos anônimos. É justamente em momentos assim que princípios são importantes. Mas a atuação da oposição parece ter sido marcada pelo esquecimento de princípios políticos básicos.

A exceção a esse comentário tem sido a segurança pública. Nesse tema o trabalho de lideranças de oposição vem produzindo avanços importantes e consistentes. Entre eles estão o PL 6579, que acabou com as “saidinhas”; o PL Antifacção que, se aprovado, representará um grande golpe no crime organizado (os dois projetos foram relatados pelo deputado Guilherme Derrite); e a PEC da Segurança Pública, cujo alarmante texto original foi totalmente reformado pelo deputado Mendonça Filho. O deputado transformou a PEC da Segurança Pública em uma legislação digna desse nome, incorporando, pela primeira vez, conceitos como direitos das vítimas e aumento do custo do crime para o criminoso.

Em quase todos os outros temas o desempenho do “Congresso mais conservador da história” foi ruim. O Congresso aceitou a troca do teto de gastos por um arcabouço fiscal que permite ao governo gastar o quanto quiser. O Congresso também aprovou, na calada da noite, um monstrengo tributário criado para atender a interesses setoriais. Além de dar ao Brasil a maior alíquota de IVA do mundo, esse projeto rasga o pacto federativo ao criar um conselho de não eleitos que decidirá sobre a distribuição da receita de impostos. 

O Congresso também votou para aprovar outros projetos desastrosos. Para citar três: um pacote de “isenção” de imposto de renda que, na verdade, é apenas uma correção parcial da tabela e que impôs tributação de dividendos e um certo “imposto de renda mínimo” (cobrança de imposto de quem é isento); um projeto que regulamenta streaming, criando mecanismos de censura e um imposto (Condecine) para financiar produtoras amigas do governo; e a ampliação da licença paternidade, aprovada sem uma análise responsável de seu impacto. Nenhum desses projetos sobrevive a uma análise feita de acordo com os princípios da liberdade econômica e dos direitos fundamentais. Esses princípios deveriam ser a ferramenta básica dos parlamentares “de direita”. Mas todos esses projetos foram aprovados com votos desses parlamentares.

A chamada direita também votou para aprovar leis que criminalizam a livre expressão, sempre com o argumento de proteção de minorias. O Brasil é o país em que metade dos criminosos presos em flagrante pela polícia são soltos nas audiências de custódia. Em média, 92% dos homicídios nunca são esclarecidos. Graças à legislação aprovada com os votos da direita, o Brasil agora é também o país onde um bate-boca no supermercado ou em um estádio de futebol pode colocar um cidadão de bem atrás das grades, sem possibilidade de fiança.

O esquerdismo é uma religião secular. Esquerdistas estão, ao mesmo tempo, essencialmente errados e intensamente convencidos da infalibilidade de sua crença e, por isso, reivindicam o monopólio da verdade e da virtude, e enxergam seus adversários como inimigos a serem eliminados. É impossível enfrentar o pensamento de esquerda sem convicções igualmente fortes. Não se vence o projeto socialista provando que o socialismo não funciona; a realidade é irrelevante. Para vencer a mentalidade esquerdista são necessárias a determinação, a coragem e a persistência que só nascem de convicções. Mas, no Brasil, o que se vê é a cena descrita pelo poeta W. B. Yeats no seu poema A Segunda Vinda: “Os melhores carecem de convicção, enquanto os piores estão cheios de intensidade apaixonada”.

Carente do conhecimento necessário para sustentar convicções e incapaz de usar os princípios da guerra política, restou à direita a produção de narrativas e a busca de engajamento nas redes – como se um grande número de likes tivesse poder contra a disfunção institucional que tomou o país. 

Diante disso, é preciso repetir a pergunta de David Horowitz em seu livro Não Faça Prisioneiros: “Como se vence uma guerra quando o inimigo usa bazucas e o seu lado está lutando com palitinhos?”.