20/03/2026 22:55

Agronegócio cresce em produtividade e renda, mas mecanização elimina 560 mil empregos: quem ganha e quem perde com a modernização do campo

Setor dobra produção e aumenta salários em 12,6%, mas reduz postos de trabalho em meio milhão de vagas — avanço tecnológico beneficia quem permanece empregado, mas deixa centenas de milhares sem alternativas no campo

O agronegócio brasileiro apresenta números contraditórios que exigem análise cuidadosa: enquanto a produção agrícola dobrou na última década e os salários dos trabalhadores que permaneceram empregados aumentaram significativamente, mais de meio milhão de pessoas perderam seus emempregos no setor entre 2016 e 2023. Os dados revelam uma transformação profunda do campo brasileiro que beneficia alguns mas exclui muitos, levantando questões fundamentais sobre o tipo de desenvolvimento que estamos construindo.

O agronegócio segue inegavelmente como um dos principais motores da economia brasileira, sustentando o crescimento do país mesmo em períodos de baixo desempenho econômico geral. Entre 2014 e 2023, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) nacional cresceu em média apenas 0,4% ao ano — estagnação praticamente completa —, a produção agrícola brasileira dobrou de forma impressionante, saltando de 166 milhões de toneladas em 2012 para 322 milhões em 2022.

Segundo o engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa, Décio Luiz Gazzoni, o desempenho do setor é um dos pilares de estabilidade da economia. “Por qualquer ângulo que se examine, destaca-se a solidez econômica do agronegócio brasileiro, seja em volume e valor da produção ou no superávit das exportações. Mas existe um índice econômico de enorme impacto social, representado pelo mercado de trabalho do agronegócio”, afirma o pesquisador.

E é justamente nesse “índice de enorme impacto social” — o emprego — que aparecem as contradições mais profundas e preocupantes do modelo de desenvolvimento agrícola brasileiro.

Meio milhão de empregos eliminados

Apesar do avanço robusto da produção e das exportações recordes ano após ano, o número total de pessoas empregadas no agronegócio diminuiu de forma substancial nos últimos anos. Dados do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro) indicam que o total de trabalhadores no setor caiu de 14,34 milhões em 2016 para 13,78 milhões em 2023 — uma redução líquida de 560 mil postos de trabalho em apenas sete anos.

Quinhentos e sessenta mil empregos eliminados. Por trás desse número estão mais de meio milhão de famílias que perderam sua fonte de renda, pessoas que trabalharam no campo a vida inteira vendo oportunidades desaparecerem, comunidades rurais esvaziadas, êxodo para periferias urbanas sem infraestrutura adequada para receber essa população.

A redução ocorreu principalmente nas atividades “dentro da porteira” — termo técnico para agricultura e pecuária propriamente ditas, a produção no campo —, onde a mecanização intensiva e o uso crescente de tecnologia aumentaram drasticamente a produtividade por trabalhador, mas reduziram de forma brutal a necessidade de mão de obra humana.

A mecanização que produz mais com muito menos gente

A lógica é matematicamente simples mas socialmente complexa: tratores cada vez maiores e mais sofisticados, colheitadeiras robotizadas, drones para pulverização, sistemas de irrigação automatizados, ordenha mecanizada, confinamento de gado em larga escala — todas essas tecnologias permitem produzir volumes enormes com fração mínima da mão de obra que seria necessária décadas atrás.

Um único operador de colheitadeira moderna consegue colher em um dia o que dezenas de trabalhadores manuais levariam semanas para fazer. Sistemas automatizados de irrigação substituem equipes inteiras que antes faziam o trabalho manualmente. Confinamentos de gado com alimentação mecanizada eliminam vaqueiros tradicionais.

Do ponto de vista da produtividade e da competitividade internacional, esses avanços são inquestionáveis. O Brasil produz hoje volumes recordes de grãos, carnes, fibras, frutas, competindo globalmente com custos menores e margens maiores.

Do ponto de vista social e humano, porém, cada avanço tecnológico que elimina necessidade de trabalho humano significa famílias perdendo sustento, comunidades se esvaziando, saberes tradicionais sendo descartados, pessoas que trabalham duro a vida inteira descobrindo que não são mais “necessárias”.

Agroindústria cresce, mas não compensa perdas

Em contrapartida ao encolhimento do emprego “dentro da porteira”, a agroindústria de transformação — frigoríficos, usinas de açúcar e etanol, fábricas de sucos, laticínios, processamento de grãos — apresentou aumento no número de vagas, evidenciando uma mudança estrutural no perfil do emprego rural.

Porém, esse crescimento na agroindústria não foi suficiente para compensar as perdas massivas no campo. O saldo líquido continua negativo em 560 mil empregos.

Além disso, os empregos na agroindústria concentram-se geograficamente em polos específicos (onde estão as fábricas e frigoríficos), frequentemente distantes das pequenas comunidades rurais de onde vieram os trabalhadores dispensados pela mecanização. Um trabalhador rural de 50 anos que passou a vida cultivando ou criando gado em propriedade familiar não consegue facilmente se recolocar como operário de frigorífico a centenas de quilômetros de distância.

Os que ficaram ganham mais — mas são muito menos

O estudo da FGV mostra que a queda do emprego total foi parcialmente compensada — pelo menos para quem permaneceu empregado — por avanços qualitativos importantes. Houve crescimento do emprego formal tanto na agropecuária quanto na agroindústria, além de uma melhora significativa e real na remuneração média dos trabalhadores que continuam no setor.

Entre 2016 e 2023, a renda média no agronegócio aumentou impressionantes 12,6% em valores reais (já descontada a inflação), passando de R$ 1.793,69 para R$ 2.018,99. No mesmo período, a renda média no conjunto da economia brasileira cresceu apenas 4,3%, de R$ 2.719,44 para R$ 2.836,40.

“A remuneração média dos postos de trabalho no agronegócio aumentou acima da média nacional, refletindo ganhos de produtividade e a consolidação de um setor cada vez mais profissionalizado”, analisa Gazzoni.

Esses números são genuinamente positivos para quem permanece empregado no setor. Um trabalhador rural formal em 2023 ganha em média R$ 2.019 — valor ainda modesto, mas representando ganho real de poder de compra de 12,6% em sete anos, desempenho superior à média da economia.

Porém, é fundamental contextualizar: essa melhoria beneficia um grupo 560 mil pessoas menor que em 2016. Os que ficaram estão melhor. Os que saíram — meio milhão de pessoas — estão onde? Fazendo o quê? Ganhando quanto?

Quem são os excluídos da modernização?

Os 560 mil empregos eliminados não se distribuíram uniformemente. Alguns perfis foram desproporcionalmente afetados:

Trabalhadores menos qualificados que faziam tarefas manuais repetitivas — justamente as mais facilmente substituíveis por máquinas. Pessoas com baixa escolaridade, sem formação técnica específica, que dependiam da força física e da disposição para trabalhar duro.

Trabalhadores mais velhos que têm enorme dificuldade de se adaptar a novas funções que exigem operar equipamentos tecnológicos complexos, interpretar dados de computador, trabalhar com softwares de gestão.

Mulheres que tradicionalmente ocupavam funções na produção agrícola familiar ou em tarefas específicas (seleção de frutas, embalagem, etc.) que foram mecanizadas ou eliminadas.

Trabalhadores de pequenas propriedades que não têm escala para investir em mecanização própria e acabam sendo absorvidos por propriedades maiores ou simplesmente deixando a atividade.

Comunidades rurais inteiras em regiões onde predominava agricultura familiar ou pequena produção, que viram oportunidades de trabalho desaparecerem conforme grandes propriedades mecanizadas expandiram.

Para onde foram as 560 mil pessoas?

Essa é a pergunta que raramente aparece nas análises técnicas que celebram ganhos de produtividade: para onde foram os 560 mil trabalhadores que perderam emprego no agronegócio?

Algumas possibilidades prováveis, nenhuma particularmente animadora:

Migração para periferias urbanas — engrossando favelas e bairros pobres de cidades pequenas e médias, frequentemente sem qualificação para empregos urbanos, enfrentando subemprego, informalidade, condições precárias.

Informalidade no próprio campo — trabalhando em bicos, serviços temporários, atividades sem registro, sem direitos trabalhistas, ganhando menos que ganhavam antes.

Inatividade forçada — especialmente trabalhadores mais velhos que não conseguem recolocação e ficam dependentes de familiares, de benefícios assistenciais quando conseguem acessar, ou em situação de pobreza.

Subsistência em pequenas propriedades — famílias que tinham membros trabalhando fora para complementar renda voltando a depender exclusivamente de produção de subsistência, com padrão de vida reduzido.

Economia do crime — em casos mais extremos, especialmente jovens sem perspectivas, sendo recrutados por atividades ilícitas que oferecem renda quando oportunidades legais desapareceram.

A contradição do desenvolvimento excludente

A situação do agronegócio brasileiro expõe contradição fundamental do modelo de desenvolvimento predominante: é possível crescimento econômico robusto sem inclusão social correspondente. É possível produzir mais, exportar mais, lucrar mais, enquanto simultaneamente se exclui centenas de milhares de pessoas do mercado de trabalho.

O agronegócio moderno brasileiro é extremamente eficiente, competitivo, lucrativo. Mas é também cada vez mais concentrado, mecanizado, excludente. Beneficia proprietários de terras (que valorizam), acionistas de grandes empresas (que lucram com exportações), trabalhadores qualificados que operam tecnologias modernas (que ganham melhor).

Mas deixa para trás enorme contingente de pessoas que simplesmente não “cabem” mais nesse modelo — não por incompetência ou preguiça, mas porque o sistema não precisa mais delas, não tem lugar para elas, não se preocupa com elas.

O que deveria ser diferente

Para construir desenvolvimento agrícola que seja simultaneamente produtivo E inclusivo, seriam necessárias políticas como:

Fortalecimento massivo da agricultura familiar — com crédito acessível, assistência técnica pública gratuita, mercados institucionais garantidos (PAA, PNAE), apoio à agroindustrialização em pequena escala. Agricultura familiar gera muito mais empregos por hectare que grandes monoculturas mecanizadas.

Programas de requalificação profissional para trabalhadores rurais deslocados pela mecanização — oferecendo formação gratuita em novas habilidades, com bolsas de estudo que permitam sustentar família durante aprendizado.

Incentivos fiscais condicionados — empresas agrícolas que recebem benefícios públicos (crédito subsidiado, isenções fiscais, infraestrutura) deveriam ser obrigadas a manter níveis mínimos de emprego ou investir em fundos de requalificação de trabalhadores.

Reforma agrária efetiva — distribuindo terras para famílias que querem trabalhar no campo, criando milhares de pequenas propriedades produtivas em vez de concentrar tudo em latifúndios mecanizados.

Renda básica rural — garantindo piso de renda para famílias rurais, permitindo que permaneçam no campo com dignidade mesmo que agricultura de subsistência não gere renda monetária suficiente.

Valorização de conhecimentos tradicionais — reconhecendo que produtividade pura não é único critério válido, que preservação de saberes ancestrais, biodiversidade, culturas locais tem valor social mesmo que não maximize lucros.

Regulação da concentração fundiária — impedindo que grandes grupos continuem expandindo indefinidamente, comprando terras de pequenos, expulsando famílias, concentrando produção.

Desenvolvimento para quem?

A questão fundamental que os números do agronegócio brasileiro levantam é: desenvolvimento para quem?

Produzir 322 milhões de toneladas de grãos é desenvolvimento? Sim, em termos de volume físico e capacidade produtiva.

Mas se ao mesmo tempo eliminamos 560 mil empregos, esvaziamos comunidades rurais, expulsamos famílias para periferias urbanas, concentramos terras e riqueza, destruímos modos de vida tradicionais — isso é realmente desenvolvimento ou é apenas crescimento econômico excludente que beneficia poucos às custas de muitos?

Os trabalhadores que permaneceram empregados e tiveram aumento real de 12,6% na renda merecem celebração — genuinamente suas vidas melhoraram. Mas as 560 mil pessoas que perderam empregos também merecem atenção, políticas públicas, alternativas dignas.

Um país que produz recordes agrícolas mas deixa meio milhão de trabalhadores rurais sem emprego em sete anos está priorizando produtividade sobre pessoas, lucros sobre dignidade, exportações sobre inclusão social. Podemos e devemos fazer diferente — construindo um agronegócio que seja simultaneamente produtivo, competitivo E socialmente justo, que gere riqueza compartilhada em vez de concentrada, que inclua em vez de excluir.