20/03/2026 21:56

Novas regras tributárias e ambientais em 2026 expõem pequenos produtores ao risco enquanto grandes grupos se adaptam facilmente

Mudanças em Funrural, contratos rurais e exigências ambientais para crédito criam barreira de entrada que pode excluir agricultura familiar do sistema financeiro formal — enquanto discurso da "conformidade" ignora desigualdade de acesso a assessoria jurídica e tecnologia

A partir de janeiro de 2026, o setor agropecuário brasileiro passa a operar sob um novo conjunto de regras tributárias, ambientais e contratuais, que impactam diretamente produtores rurais, cooperativas e empresas do agronegócio. As mudanças incluem novos critérios de crédito, revisões contratuais e a digitalização completa de processos fiscais e documentais, exigindo adaptação imediata para evitar prejuízos na safra.

O início do ano será marcado por uma fase de ajuste e adequação, já que a legislação recente altera procedimentos em áreas estratégicas da gestão rural, como tributação (Funrural), contratos de arrendamento e parcerias agrícolas, além de integrar critérios ambientais à análise de crédito rural.

As mudanças são apresentadas oficialmente como “modernização” e “conformidade” necessárias para trazer segurança jurídica e sustentabilidade ao setor. Porém, é fundamental questionar: conformidade para quem? Essas regras são acessíveis igualmente a grandes agroindústrias com departamentos jurídicos próprios e a pequenos agricultores familiares que mal têm acesso à internet?

Especialistas alertam: 2026 será o ano da conformidade no campo

De acordo com o advogado tributarista e especialista em direito agrário Adriano de Almeida, sócio do escritório Durão & Almeida, Pontes Advogados Associados, 2026 representa um divisor de águas para o setor.

“Quem ainda não adaptou a gestão financeira e documental da propriedade às novas exigências legais pode enfrentar sérios riscos operacionais”, ressalta o especialista.

Adriano de Almeida explica que a digitalização definitiva de processos, como Certidões Negativas de Débito (CNDs), notas fiscais eletrônicas e registros de transporte, transforma o próximo ano no marco da conformidade digital no agronegócio. Empresas e produtores que não se adequarem às novas exigências podem enfrentar bloqueios, restrições de crédito e autuações fiscais.

O alerta do especialista é válido e importante. Porém, esconde uma realidade incômoda: quem tem condições de contratar escritório de advocacia especializado, contador experiente, consultor de compliance consegue se adaptar. Quem não tem — a imensa maioria dos pequenos produtores — fica exposto a riscos enormes sem ter ferramentas adequadas para se proteger.

A barreira digital que exclui milhões

A “digitalização definitiva de processos” soa moderna e eficiente. Na prática, cria barreira de entrada gigantesca para produtores que:

Não têm acesso confiável à internet — em áreas rurais remotas de Mato Grosso do Sul e de todo o Brasil, a conectividade ainda é precária, instável ou inexistente. Como um produtor vai emitir nota fiscal eletrônica, enviar declarações digitais, manter registros online se mal consegue sinal de celular?

Não têm familiaridade com tecnologia — especialmente produtores mais velhos, que trabalham a vida inteira no campo, que sabem tudo sobre plantio, criação, clima, solo, mas nunca precisaram mexer com sistemas digitais complexos.

Não têm recursos para contratar suporte técnico — grandes empresas agropecuárias têm equipes dedicadas a compliance, TI, gestão documental. Pequenos produtores fazem tudo sozinhos ou com ajuda de familiares, sem orçamento para pagar especialistas.

Não têm tempo — trabalham de sol a sol na produção, cuidando de animais, plantando, colhendo, consertando equipamentos. Quando sobra tempo para estudar legislação tributária complexa, aprender sistemas digitais, regularizar documentação?

A digitalização pode ser avanço importante quando vem acompanhada de políticas públicas que garantam acesso universal à internet de qualidade, programas massivos de capacitação gratuita, assistência técnica pública que ajude produtores na transição, sistemas simplificados e intuitivos desenhados para quem tem baixa escolaridade.

Sem isso, digitalização obrigatória é simplesmente exclusão travestida de modernização.

Contratos rurais e Funrural: revisão obrigatória que custa caro

As mudanças também atingem contratos de arrendamento, parceria e compra futura, que deverão ser revistos à luz de novas interpretações administrativas e judiciais. Esses ajustes são essenciais para evitar insegurança jurídica e perdas financeiras, especialmente em negócios de longo prazo.

No caso do Funrural (contribuição previdenciária rural), a atualização das regras de contribuição reforça a necessidade de revisão contábil e tributária detalhada, uma vez que as novas bases de cálculo e declarações eletrônicas exigem maior precisão nas informações enviadas aos órgãos federais.

Novamente: tudo isso é tecnicamente correto e importante. Mas revisar contratos custa dinheiro — advogados cobram por hora, por documento, por consulta. Revisão contábil e tributária detalhada custa dinheiro — contadores especializados em agronegócio não trabalham de graça.

Grandes produtores, cooperativas estruturadas, agroindústrias conseguem absorver esses custos sem problemas. Para pequenos produtores familiares que mal conseguem pagar custos de produção, contratar advogado e contador especializado para revisar contratos e adequar declarações fiscais pode ser simplesmente inviável economicamente.

O resultado previsível: pequenos produtores tentam se adequar sozinhos (e provavelmente cometem erros que podem gerar autuações), ou simplesmente não se adequam e ficam expostos a bloqueios e penalidades.

Sustentabilidade e crédito rural: critério justo ou barreira adicional?

Outro ponto de atenção crucial para o setor é a integração entre critérios ambientais e acesso ao crédito rural. A partir de 2025, instituições financeiras passarão a considerar parâmetros de sustentabilidade, rastreabilidade e mercado de carbono como parte da análise de risco para liberação de crédito.

Na prática, propriedades sem regularização ambiental ou registros atualizados no CAR (Cadastro Ambiental Rural) e no PRA (Programa de Regularização Ambiental) podem encontrar dificuldades — ou impossibilidade total — na liberação de crédito agrícola.

Do ponto de vista ambiental, essa exigência é absolutamente correta e necessária. Não faz sentido algum o sistema financeiro emprestar dinheiro público (crédito rural subsidiado vem de fundos públicos) para financiar desmatamento, degradação ambiental, atividades insustentáveis.

Do ponto de vista social, porém, há problema sério: pequenos produtores frequentemente não conseguem regularizar situação ambiental não por má-fé ou desinteresse, mas por falta de recursos e assistência técnica.

Regularizar no CAR exige conhecimento técnico (delimitar propriedade, identificar áreas de preservação permanente, reserva legal, etc.), frequentemente necessita de topógrafo ou engenheiro agrônomo, pode exigir recuperação de áreas degradadas (que custa dinheiro), averbação em cartório (que custa dinheiro).

Se o produtor não tem recursos para fazer tudo isso, fica sem regularização ambiental. Sem regularização ambiental, fica sem acesso a crédito. Sem acesso a crédito, não consegue investir na produção nem na própria regularização ambiental. Círculo vicioso que aprisiona justamente quem mais precisa de apoio.

A solução correta não é eliminar exigências ambientais — elas são fundamentais e inegociáveis. A solução é apoio público massivo para que pequenos produtores consigam se regularizar: assistência técnica gratuita, programas de recuperação ambiental subsidiados, desburocratização de processos, prazos razoáveis para adequação.

O alerta que revela desigualdade

Segundo Adriano de Almeida, essa transformação exige planejamento jurídico e tributário antecipado. “A legislação mudou, os bancos mudaram, as fiscalizações mudaram. O produtor que entrar em janeiro sem planejamento pode perder crédito, ter contratos anulados ou sofrer autuações pesadas. O campo não tem mais espaço para improviso”, alerta o especialista.

O alerta é verdadeiro e bem-intencionado. Mas a frase “o campo não tem mais espaço para improviso” ignora que para milhões de pequenos produtores brasileiros, o que parece ‘improviso’ é na verdade a única forma possível de trabalhar quando não se tem acesso a advogados, contadores, consultores, tecnologia adequada.

Grandes empresas agropecuárias nunca trabalharam com “improviso” — sempre tiveram departamentos especializados, assessoria jurídica e contábil permanente, sistemas de gestão sofisticados. Para elas, as novas regras são apenas mais um ajuste técnico.

Pequenos produtores, historicamente, trabalham com conhecimento prático acumulado ao longo de gerações, com arranjos informais baseados em confiança mútua, com documentação mínima porque nunca tiveram estrutura para fazer diferente.

Dizer que “não há mais espaço para improviso” sem simultaneamente criar infraestrutura pública robusta que permita a todos os produtores se profissionalizarem adequadamente é condenar milhões à exclusão do sistema formal.

Quem ganha e quem perde com as novas regras

Quem tem condições de se adaptar facilmente:

✅ Grandes empresas agropecuárias com departamentos jurídicos e de compliance próprios

✅ Cooperativas estruturadas com assessoria especializada

✅ Produtores de médio e grande porte com recursos para contratar serviços profissionais

✅ Agroindústrias integradas verticalmente que controlam toda a cadeia

Quem enfrenta dificuldades enormes:

❌ Pequenos agricultores familiares sem recursos para assessoria especializada

❌ Produtores em áreas remotas sem acesso adequado à internet

❌ Trabalhadores rurais mais velhos com baixa familiaridade tecnológica

❌ Comunidades tradicionais (quilombolas, ribeirinhas, extrativistas) com arranjos produtivos informais

❌ Assentados da reforma agrária ainda estruturando produção

O que deveria ser diferente

Para que as mudanças regulatórias cumprissem objetivo legítimo de modernização e sustentabilidade sem excluir os mais vulneráveis, seria necessário:

Assistência técnica pública massiva e gratuita — equipes de técnicos agrícolas, contadores e advogados financiados pelo poder público para ajudar pequenos produtores na transição, visitando propriedades, explicando mudanças, preenchendo documentos, orientando adequações.

Infraestrutura digital universal — investimento robusto em conectividade rural de qualidade, com banda larga chegando em todas as áreas produtivas do país.

Capacitação acessível e continuada — cursos gratuitos, em linguagem simples, oferecidos em horários compatíveis com rotina rural, presenciais em comunidades ou online para quem tem acesso.

Sistemas digitais simplificados — plataformas governamentais desenhadas para serem intuitivas, funcionarem em celulares básicos, terem suporte técnico facilmente acessível.

Prazos de transição adequados — não exigir conformidade imediata, mas dar tempo razoável (1-2 anos) para adequação gradual, com apoio contínuo.

Diferenciação proporcional — reconhecer que pequeno produtor familiar não pode ser tratado com mesmas exigências burocráticas que grande agroindústria, criando procedimentos simplificados para quem tem menor escala.

Linhas de crédito específicas para regularização — recursos subsidiados especificamente para pequenos produtores investirem em adequação ambiental, tecnológica e documental.

Anistia de penalidades iniciais — durante período de transição, foco em orientação e correção em vez de autuação e multas para quem está tentando se adequar de boa-fé.

Planejamento é privilégio, não escolha universal

Diante do novo cenário regulatório, a recomendação de advogados e consultores é que os produtores antecipem ajustes de gestão, regularização fiscal e revisão de contratos antes da virada do ano. A adoção de ferramentas digitais de controle e documentação será indispensável para manter a operacionalidade e o acesso a crédito, garantindo segurança jurídica e competitividade em um ambiente de regras mais rigorosas.

A recomendação é técnica e corretamente válida. Mas planejamento antecipado é privilégio de quem tem recursos, acesso à informação qualificada, tempo e condições para se organizar.

Para pequeno produtor que está preocupado em conseguir pagar sementes para próximo plantio, que tem filho doente precisando de médico, que depende de chuva que não vem, que vende produção para atravessador explorando porque não tem alternativa — “antecipar ajustes de gestão e contratar assessoria especializada” simplesmente não é opção viável, por mais que seja tecnicamente recomendável.

2026: conformidade ou exclusão?

As novas regras tributárias, ambientais e contratuais para o agronegócio em 2025 podem representar avanço importante em direção a maior formalização, sustentabilidade e segurança jurídica do setor — se, e somente se, vierem acompanhadas de políticas públicas robustas que garantam que todos os produtores tenham condições reais de se adequar.

Sem isso, o que se apresenta como “modernização” e “conformidade” funciona na prática como mecanismo de exclusão que beneficia quem já tem estrutura e recursos, enquanto empurra para a informalidade ou para fora do sistema justamente os mais vulneráveis.

O campo brasileiro não precisa apenas de novas regras — precisa de apoio concreto, massivo e contínuo para que todos os produtores, especialmente os pequenos agricultores familiares que alimentam o país, consigam se adequar com dignidade. Conformidade sem condições de conformar-se é apenas outra forma de desigualdade.

Fonte: Portal do Agronegócio