24/03/2026 06:57

Banana que iria para o lixo vira amido que pode abastecer indústria: pesquisa do Ifes reaproveita frutas desperdiçadas e promete renda extra para produtores rurais

Estudo transforma 10% da colheita que seria descartada em matéria-prima industrial, reduzindo desperdício e podendo gerar até R$ 1 mil extras por mês para agricultores capixabas

Uma pesquisa do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) quer transformar a forma como a banana é aproveitada no estado. O estudo utiliza a fruta que seria descartada para produzir amido. O objetivo é evitar o desperdício, gerar renda e abastecer a indústria alimentícia.

Atualmente, os produtores de banana perdem cerca de 10% da colheita. Aquelas frutas que estão fora do padrão de venda, ou seja, pequenas, machucadas ou danificadas durante o manuseio, costumam virar adubo ou alimento para animais.

Apesar desse reaproveitamento, grande parte ainda vai para o lixo. A pesquisa — desenvolvida em parceria com o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) — pretende mudar essa situação, criando uma nova cadeia produtiva a partir do fruto descartado.

“O impacto seria enorme porque essas bananas que hoje viram adubo, poderiam ser aproveitadas na produção de farinha ou amido, reduzindo o desperdício”, explicou o extensionista do Incaper, Alciro Lazzarini.

Novo destino para frutas “imperfeitas”

A iniciativa do Ifes em parceria com o Incaper representa avanço importante no combate ao desperdício alimentar — problema que afeta toda a cadeia produtiva brasileira e mundial. Transformar 10% da colheita que atualmente tem pouco ou nenhum valor comercial em produto industrial com múltiplas aplicações pode revolucionar a economia da bananicultura capixaba.

O amido de banana tem potencial de utilização em diversas indústrias: alimentícia (como espessante, estabilizante, ingrediente para panificação), farmacêutica, de cosméticos, têxtil, entre outras. Trata-se de produto com valor agregado significativamente superior ao da fruta fresca descartada.

Segundo o extensionista, o amido produzido pode abrir portas para o setor industrial e trazer benefícios diretos aos agricultores.

“Com essa produção, poderíamos ter empresas gerando empregos e renda extra para os produtores. Considerando uma perda média de 10%, isso poderia significar até mil reais a mais por mês para cada produtor. Além disso, a indústria ajudaria a regular os preços do mercado”, completou Lazzarini.

A projeção de até R$ 1.000 extras por mês para cada produtor é significativa, especialmente para a agricultura familiar que representa parte substancial da produção capixaba de banana. Esse valor adicional pode fazer diferença real no orçamento de famílias rurais, permitindo investimentos na propriedade, melhorias na qualidade de vida, maior segurança financeira.

Além disso, a observação sobre a indústria ajudar a regular preços do mercado é relevante: quando há demanda industrial por bananas descartadas, isso cria piso de preço para a fruta, evitando que produtores sejam forçados a vender banana fresca por preços irrisórios em momentos de excesso de oferta.

Produção de banana no ES: agricultura familiar forte

A fruta é plantada em 75 das 78 cidades do Espírito Santo. O município campeão em produção é Alfredo Chaves, na Região Serrana, com uma produção que ultrapassa 44 mil toneladas por ano, em uma área de 3.200 hectares, segundo o Incaper.

Boa parte da produção de bananas em Alfredo Chaves vem da agricultura familiar. Seu Antônio Carlos Petri cultiva banana-prata há muitos anos, junto com o irmão, e diz que a atividade garante renda para diversas famílias.

“A cultura da banana é tradicional aqui no município. A gente tem um carinho especial porque ela distribui renda o ano todo. Banana é muito importante para nós”, contou o produtor.

A fala de Seu Antônio Carlos revela aspecto fundamental da bananicultura: diferentemente de culturas anuais que concentram receita em um ou dois momentos do ano, a banana produz continuamente, permitindo colheitas e vendas mensais regulares. Isso traz estabilidade financeira essencial para agricultura familiar, que depende de fluxo de caixa constante para pagar despesas correntes.

Otimista, ele explica que a produtividade da propriedade deve aumentar. “O meu bananal ainda é novo, mas a gente produz cerca de 40 toneladas por ano em dois hectares. A partir do segundo ciclo, a produção deve aumentar”, afirmou Seu Antônio Carlos.

A produtividade mencionada — 40 toneladas em 2 hectares, ou 20 toneladas por hectare — está alinhada com a média da região e demonstra que mesmo pequenas propriedades familiares conseguem volumes significativos de produção. Se Seu Antônio perde 10% da colheita (4 toneladas/ano) e essas bananas descartadas pudessem ser vendidas para produção de amido, representaria receita adicional importante para a família.

Espírito Santo: produtor relevante nacionalmente

O Espírito Santo está entre os maiores produtores de banana do Brasil, com colheita o ano inteiro. Segundo o Incaper, são 28.600 hectares plantados e uma produção média anual de 400 mil toneladas.

O fruto abastece principalmente os mercados de Santa Catarina, Goiás, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro — alguns dos principais centros consumidores do país.

“O Espírito Santo tem cerca de 28.600 hectares plantados, com uma produção anual de 400 mil toneladas. A maior parte é consumida in natura, entre as variedades prata e outros tipos”, explicou Lazzarini.

Esses números dimensionam a importância econômica da bananicultura capixaba e, consequentemente, o potencial impacto da pesquisa do Ifes. Com 400 mil toneladas de produção anual e taxa de descarte de 10%, estamos falando de aproximadamente 40 mil toneladas de bananas por ano que atualmente têm pouco ou nenhum valor comercial e poderiam ser transformadas em amido industrial.

O volume é substancial o suficiente para viabilizar plantas industriais de processamento, gerar empregos no setor de transformação, criar nova fonte de renda para milhares de produtores rurais capixabas.

O potencial além do desperdício

Com a nova pesquisa, os frutos descartados no campo podem ganhar mais um destino e os produtores mais uma opção de renda.

Além dos benefícios econômicos diretos — renda adicional para produtores, empregos na indústria de processamento, produto para abastecer mercados industriais —, a iniciativa traz ganhos ambientais e sociais importantes:

Redução do desperdício alimentar: Parte substancial das 40 mil toneladas de bananas atualmente descartadas no ES simplesmente apodrece sem aproveitamento, gerando metano (gás de efeito estufa) quando vai para aterros ou mesmo quando vira adubo sem manejo adequado. Transformar esse descarte em produto útil reduz impacto ambiental.

Valorização da agricultura familiar: Como boa parte da produção capixaba de banana vem de pequenos e médios produtores familiares, qualquer iniciativa que agregue renda beneficia diretamente esse segmento fundamental da agricultura brasileira.

Fixação de população no campo: Renda adicional de R$ 1.000/mês, somada à renda da venda da banana comercial, pode tornar atividade agrícola mais atrativa economicamente, ajudando a manter jovens no campo e evitando êxodo rural.

Desenvolvimento regional: Instalação de indústrias de processamento de amido no Espírito Santo, próximas às áreas produtoras, gera empregos locais, movimenta economia de municípios pequenos e médios, fortalece economias regionais.

Segurança alimentar e industrial: Amido é insumo estratégico para múltiplas indústrias. Desenvolver fontes nacionais diversificadas de amido (além dos tradicionais milho, mandioca, batata) aumenta segurança de abastecimento e pode reduzir dependência de importações em certos segmentos.

Próximos passos e desafios

Para que o potencial identificado pela pesquisa do Ifes se transforme em realidade operacional e beneficie efetivamente os produtores rurais capixabas, alguns passos e desafios precisam ser endereçados:

Viabilidade técnica e econômica: A pesquisa precisa confirmar que o processo de extração de amido de bananas descartadas é tecnicamente viável em escala industrial e economicamente rentável. Isso inclui avaliar custos de coleta, transporte, processamento, qualidade do amido obtido, rendimento do processo.

Interesse industrial: É necessário identificar e engajar empresas interessadas em investir em plantas de processamento no Espírito Santo ou expandir operações existentes para incluir banana como fonte de amido.

Logística de coleta: Organizar sistema eficiente de coleta das bananas descartadas nas propriedades rurais, considerando que estão dispersas geograficamente por 75 municípios.

Precificação justa: Estabelecer mecanismos de formação de preço que garantam remuneração adequada aos produtores pelas bananas descartadas, sem tornar inviável economicamente o processamento industrial.

Apoio institucional: Governo estadual e federal podem desempenhar papel fundamental através de políticas de incentivo à agroindustrialização, linhas de crédito subsidiado para instalação de plantas de processamento, assistência técnica para adequação de produtores aos requisitos de qualidade e logística.

Organização dos produtores: Cooperativas e associações de produtores podem ter papel crucial organizando coleta, negociando coletivamente com indústrias, eventualmente até investindo em plantas de processamento cooperativadas que mantenham maior parcela do valor agregado nas mãos dos agricultores.

Uma oportunidade que não pode ser desperdiçada

A pesquisa do Ifes representa oportunidade concreta de transformar problema (desperdício de 10% da colheita) em solução (nova fonte de renda, produto industrial útil, redução de impacto ambiental).

Para Seu Antônio Carlos Petri e milhares de outros produtores de banana do Espírito Santo, a possibilidade de receber R$ 1.000 extras por mês vendendo frutas que hoje não têm valor comercial pode fazer diferença real na qualidade de vida, na capacidade de investimento na propriedade, na segurança financeira da família.

Para o estado do Espírito Santo, desenvolver nova cadeia agroindustrial baseada em recurso abundante e atualmente subaproveitado pode gerar empregos, renda, impostos, desenvolvimento regional.

Para o Brasil, mais uma demonstração de que ciência, tecnologia e inovação aplicadas ao setor agropecuário podem criar valor, reduzir desperdício, melhorar sustentabilidade.

Agora é fundamental que essa pesquisa saia do laboratório e chegue ao campo, beneficiando efetivamente quem trabalha duro todos os dias produzindo banana — e que as 40 mil toneladas de frutas atualmente desperdiçadas no Espírito Santo encontrem destino nobre como matéria-prima industrial, gerando renda, empregos e desenvolvimento.

Fonte: G1