03/02/2026 00:07

EUA x Venezuela: o que muda para o agronegócio brasileiro com tensões que expõem vulnerabilidade de depender de mercados instáveis

Exportações de alimentos podem enfrentar atrasos e custos maiores enquanto Brasil precisa equilibrar diplomacia pragmática com pressões ideológicas — crise revela fragilidade de não diversificar mercados e parceiros comerciais

O acirramento das tensões na Venezuela, após a intervenção dos Estados Unidos, acendeu um sinal de alerta para o agronegócio brasileiro. Embora as trocas comerciais entre os dois países não sejam as mais expressivas em termos globais para o Brasil, setores específicos e estados fronteiriços, como Roraima, monitoram com preocupação os desdobramentos da crise.

De janeiro a novembro de 2025, as exportações brasileiras para a Venezuela — compostas principalmente por arroz, cereais, soja, açúcar e carnes — somaram quase US$ 500 milhões. No sentido inverso, o Brasil importa do vizinho adubos, fertilizantes, alumínio e elementos químicos, itens fundamentais para a manutenção da produtividade no campo.

Impactos logísticos e riscos contratuais

Apesar da situação “periclitante” — palavra que significa perigosa, arriscada, instável —, especialistas avaliam que não há, no momento, um risco real de suspensão total de contratos ou prejuízos imediatos para os exportadores que já operam na região. O cenário mais provável é o de entraves logísticos, que podem resultar em atrasos nos embarques e no consequente aumento dos custos operacionais.

Atrasos em embarques significam containers parados em portos, produtos agrícolas perecíveis (como carnes) correndo risco de estragar, custos adicionais de armazenagem, penalidades contratuais por não cumprir prazos de entrega. Para exportadores brasileiros, especialmente pequenos e médios que têm margens apertadas, esses custos extras podem comprometer rentabilidade de operações.

O estado de Roraima, que partilha uma vasta fronteira com o país vizinho, é apontado como a unidade da federação mais vulnerável. Com a Venezuela sendo um comprador relevante para a produção local, qualquer instabilidade prolongada na fronteira impacta diretamente a economia roraimense, exigindo atenção redobrada das autoridades e produtores da região.

Roraima, estado com economia relativamente pequena e dependente de comércio fronteiriço, sofre desproporcionalmente quando relações com Venezuela se deterioram. Produtores locais que vendem arroz, cereais e outros produtos para o mercado venezuelano podem perder compradores sem ter alternativas imediatas, resultando em estoques encalhados e prejuízos.

Geopolítica: o fator China e EUA

A análise agora ultrapassa a balança comercial e entra no campo da alta política. Com a possibilidade de os Estados Unidos assumirem o controle estratégico da Venezuela e do seu petróleo, surge a incerteza sobre como a China irá reagir. Como principal comprador de produtos brasileiros, uma reorientação do mercado chinês para evitar confrontos diretos com os norte-americanos na América Latina poderia afetar o fluxo do agro nacional.

Esta é a dimensão mais preocupante da crise para o agronegócio brasileiro: não são os US$ 500 milhões exportados diretamente para Venezuela que estão em jogo (valor relativamente modesto no contexto das exportações totais do agro brasileiro), mas sim a possível reação da China — que compra dezenas de bilhões de dólares em produtos agrícolas brasileiros anualmente (soja, carnes, celulose, etc.).

A questão central, segundo analistas, é se Pequim manterá a sua postura atual ou se irá redesenhar as suas parcerias para não “mexer com o leão norte-americano” num momento de redefinição de forças no continente.

Se a China decidir reduzir presença na América Latina para evitar confronto direto com EUA (que historicamente considera a região sua “área de influência” através da Doutrina Monroe), isso poderia significar redução nas compras chinesas de produtos brasileiros — cenário catastrófico para o agronegócio nacional que depende enormemente do mercado chinês.

Alternativamente, a China poderia intensificar compras do Brasil como forma de contrabalançar influência americana na região, apostando no Brasil como parceiro comercial confiável fora da esfera de controle direto dos EUA.

Qual cenário se materializará depende de cálculos geopolíticos complexos que fogem completamente do controle de produtores e exportadores brasileiros — revelando a vulnerabilidade de depender excessivamente de poucos mercados concentrados.

Cautela e defesa dos interesses nacionais

Para o embaixador Rubens Barbosa, ex-diplomata em Washington, o maior desafio para o Brasil é evitar que a polarização política interna contamine as relações exteriores. Barbosa alerta que o país deve ser cauteloso e colocar o interesse nacional acima de questões ideológicas ou partidárias, especialmente num ano de eleições municipais.

O alerta do embaixador Barbosa é extremamente pertinente: o Brasil tem historicamente oscilado entre governos com posições ideológicas diferentes em relação a Venezuela, EUA, China e outros atores globais. Quando essas posições ideológicas domésticas contaminam política externa, o país pode tomar decisões que prejudicam interesses econômicos concretos em nome de alinhamentos políticos abstratos.

Ele ressalta que a política externa da administração Trump terá impactos significativos a médio e longo prazo, o que exigirá que o Brasil repense as suas estratégias de mercado. “Politicamente, o Brasil tem de tomar muito cuidado”, defende o embaixador, sublinhando a necessidade de uma diplomacia pragmática para navegar na nova ordem geopolítica regional.

Diplomacia pragmática significa priorizar interesses econômicos e comerciais concretos do país (empregos, exportações, crescimento) sobre alinhamentos ideológicos automáticos. Significa manter relações comerciais funcionais com EUA, China, Europa, América Latina simultaneamente, sem se amarrar exclusivamente a nenhum bloco.

O que o agronegócio pode fazer

Diante desse cenário de incerteza geopolítica crescente, produtores e exportadores brasileiros precisam:

Diversificar mercados: Não depender excessivamente de poucos compradores (China, EUA, União Europeia), buscar ativamente novos mercados na África, Ásia, Oriente Médio, América Latina.

Monitorar riscos geopolíticos: Acompanhar desenvolvimentos políticos internacionais que podem afetar comércio, não apenas focar em aspectos técnicos de produção.

Pressionar por diplomacia pragmática: Cobrar do governo brasileiro que priorize interesses comerciais concretos sobre alinhamentos ideológicos, independente de qual partido esteja no poder.

Fortalecer mercado interno: Reduzir dependência de exportações desenvolvendo consumo doméstico robusto de produtos agrícolas.

Buscar seguros e proteções: Utilizar instrumentos financeiros de hedge, seguros de crédito à exportação, para se proteger contra instabilidades políticas em mercados compradores.

Vulnerabilidade estrutural exposta

A crise EUA-Venezuela, embora envolva valores relativamente modestos de comércio direto Brasil-Venezuela (US$ 500 milhões), expõe vulnerabilidade estrutural do agronegócio brasileiro: dependência excessiva de poucos mercados concentrados e exposição a choques geopolíticos sobre os quais não temos controle.

O Brasil é potência agrícola global, produz alimentos suficientes para alimentar população várias vezes maior que a nossa, tem terras férteis, clima favorável, tecnologia avançada. Mas toda essa capacidade produtiva fica vulnerável quando dependemos de decisões tomadas em Washington, Pequim, Bruxelas sobre com quem podemos ou não comerciar.

A crise atual é lembrança de que o agronegócio brasileiro precisa urgentemente diversificar mercados, fortalecer consumo interno, e cobrar diplomacia que defenda pragmaticamente interesses comerciais nacionais — porque polarização ideológica e alinhamentos automáticos custam empregos, renda e desenvolvimento no campo.

Fonte: Band