Será que um magistrado que dá uma sentença afrontando um direito fundamental – por exemplo, a liberdade de expressão ou o direito à propriedade – não sabe o que está fazendo e toma essa decisão por falta de conhecimento?
Será que um político, depois de décadas de vida pública e de ter ocupado cargos importantes em diversos governos, cria ou promove uma política de caráter totalitário por falta de informação?
É improvável.
Não é só no Brasil que oportunistas têm usado a defesa da democracia como justificativa para destruí-la. A Europa está em situação pior; além das ameaças que sofremos aqui, as fronteiras europeias foram abertas para o fanatismo religioso fundamentalista, beneficiado com uma interpretação suicida do conceito de tolerância. Os fundamentos do estado de direito e da democracia liberal têm sido atacados, no Brasil e no exterior, por indivíduos e instituições que deveriam ser os seus maiores defensores. A razão desses ataques é a convicção dos atacantes de que estão, na verdade, realizando uma forma de justiça maior, chamada por muitos de justiça social. A importância dessa nova justiça transcenderia a mera defesa dos direitos fundamentais.
Mas os direitos são a base de tudo.
Alguns dos objetivos da justiça social têm conexão direta com o ideário marxista – por exemplo, a busca pela igualdade econômica através da intervenção do Estado, sempre com algum grau de violência. É a redução da desigualdade. Essa ambição contraria um dos princípios fundamentais do liberalismo, a ideia de que a autodeterminação em um livre mercado é o motor da prosperidade e da paz social. Ao mesmo tempo em que abrem as portas para esse equívoco, as democracias ocidentais abraçam um estado de bem-estar social financiado por taxação punitiva e inflação permanente, e uma cultura que demoniza a prosperidade e glorifica a dependência. Alguns dos pilares dessa pós-democracia não fazem qualquer sentido, como o conceito de fronteiras abertas. Outros, como o “multiculturalismo” – baseado na ideia de que todas as formas de cultura são equivalentes – pregam a deformação da herança ocidental para acomodar tradições culturais inferiores do ponto de vista moral e humano.
Como diz a jornalista britânica Melanie Phillips – que se descreve como uma ex-esquerdista que foi assaltada pela realidade – a ideologia está substituindo o conhecimento, o que leva a um questionamento da própria razão.
As ortodoxias dos justiceiros sociais são tratadas como bens morais absolutos. Desafie-os e você não estará apenas errado; você será considerado uma entidade nefasta que está impedindo o aprimoramento humano e colaborando para a destruição planetária.
Qualquer dissidência deve ser silenciada; aos dissidentes devem ser negadas plataformas, debate e audiência. Evidências que contradizem a ideologia precisam ser descartadas como mentiras ou “fake news”. As universidades, originalmente centros da aplicação da razão, são agora motores de sua destruição.
O discurso civil morre, substituído por insultos.
As respostas a essa onda de obscuridade não têm sido boas, porque consistem principalmente em reafirmar princípios conhecidos por todos. Mas se esses princípios fossem auto evidentes e tivessem aceitação universal, não estaríamos testemunhando o que vemos hoje. Talvez esteja na hora de uma abordagem diferente.
A última palavra pertence a quem tem poder. Por isso, o poder deve ser dado apenas a pessoas que valorizam mais os princípios do que seus interesses individuais ou os interesses de seu grupo.
Sem isso, a democracia falha.








