07/07/2026 13:44

Alemanha pode credenciar carne de MS para o mercado europeu

A carne produzida no Pantanal pode ganhar na Alemanha um importante passaporte para ampliar sua presença no mercado europeu.

A visita técnica de pesquisadores do Instituto Thünen a propriedades rurais de Corumbá e a Embrapa Pantanal integra um processo de avaliação da produção sustentável brasileira que poderá influenciar políticas e protocolos comerciais adotados pela Alemanha e por outros países da Europa.

Para o setor produtivo, a iniciativa representa a oportunidade de transformar a pecuária pantaneira em uma vitrine internacional para Mato Grosso do Sul.

O Estado está na lista dos cinco com maior rebanho bovino do Brasil e nesse setor, o Pantanal ganha destaque ao abrigar um dos maiores rebanhos por município do País.

É em Corumbá que há a criação de cerca de 1,8 milhão de animais e, em geral, gado direcionado para a cria e vendido para engorda em outras regiões do Estado.

Todo esse potencial econômico está agora mirando a oportunidade de ter um caminho mais consolidado para alcançar o mercado da Alemanha e também abrir espaço para o mercado de outros países europeus.

Esse direcionamento de comércio exterior está em andamento por conta de uma política que a Alemanha está adotando que envolve a visita e escuta de territórios com produção agropecuária, em especial o de proteína animal.

A proposta é entender o equilíbrio entre produção sustentável e qualidade da carne. Durante o mês de junho, o Instituto Thünen visitou o Pantanal para conhecer de perto como ocorre a produção do gado e a sua relação com a conservação do território.

Esse intercâmbio envolveu visita na Embrapa Pantanal e contato direto com produtores rurais pantaneiros por meio do Sindicato Rural de Corumbá.

O instituto alemão, que é equivalente à Embrapa no Brasil em termos de função estratégica e desenvolvimento de protocolos e orientações técnicas para políticas públicas e acordos econômicos, já vem trabalhando com visitas específicas desde a COP30, realizada em 2025.

A equipe de pesquisadores do Thünen desenvolve notas técnicas que ajudam a criar modelos matemáticos e econômicos para ajudar nas tomadas de decisões do mercado alemão, bem como do europeu.

PRODUTORES
Na visita realizada em Corumbá, os pesquisadores tiveram contato com a Embrapa Pantanal e foram a propriedades rurais na Nhecolândia, bem como conversaram com produtores rurais e frigoríficos na região de Corumbá entre os dias 8 e 13 de junho. Quem esteve no País foram Richard Fischer e Caroline Salomão.

Parte dessa agenda foi acompanhada pelo presidente do Sindicato Rural de Corumbá, Stefano Santa Lucci Rettore.

“Recebemos o contato desses pesquisadores da Alemanha e o que buscamos mostrar na prática foi como o trabalho da pecuária no Pantanal de Mato Grosso do Sul acontece. Por isso, decidimos levá-los para conhecer fazendas, entender onde ocorre a criação, onde há a formação de campos, como mantemos a vegetação nativa conservada. Os pantaneiros têm trabalhado há séculos com o respeito à natureza, mas nem sempre ocorre o reconhecimento sobre isso. Quem vem conhecer a realidade, faz visitas às fazendas, entende melhor o que estamos desenvolvendo e isso foi mostrado”, defendeu.

Uma das propriedades visitadas foi a fazenda Novo Horizonte, que fica na região do Porto da Manga, na Nhecolândia. Além da criação de gado, o local organiza alguns dos principais leilões de MS, com movimento comercial que alcança os R$ 10 milhões mensais.

A expectativa de apresentar o equilíbrio entre produção e conservação na produção da proteína animal no Pantanal encontra alinhamento com políticas internacionais como a Sharm el-Sheikh Joint Work on Climate Action on Agriculture and Food Security. Ela prioriza a produção sustentável no mundo.

O Instituto Thünen considera essa proposta de trabalho e realizou análises em políticas de regulação do desmatamento a serem aplicadas no setor do agronegócio, tanto para balizar o direcionamento do comércio exterior na Alemanha, como em países europeus.

“Essas pesquisas puderam mostrar que essa política de regulação gerou impacto positivo em vários sistemas de produção de países não-europeus. Com base nas descobertas dessa pesquisa, os pesquisadores do Thünen estão otimistas com relação à implementação das regras de regulação de não desmatamento”, divulgou o instituto alemão, no ano passado.

Depois desse trabalho macro, os pesquisadores passaram a realizar visitas regionalizadas para entender os sistemas de produção. Antes de virem ao Pantanal, por exemplo, eles também estiveram no Paraguai. A coleta de dados feita em Corumbá deve gerar novos relatórios, com previsão de divulgação em agosto.

“Mostrar que o rebanho pantaneiro é criado respeitando a natureza só comprova que temos uma proteína que leva alimento e ao mesmo tempo gera renda para famílias locais, movimenta a economia do nosso Estado.

Entendemos que temos um espaço para a carne pantaneira nos mercados externos”, analisou Rettore, que vai trazer a discussão sobre essa oportunidade de mercado na Feira Internacional Agropecuária do Pantanal (Feapan), marcada para ocorrer em setembro, em Corumbá.

O instituto, que só deve se manifestar sobre as visitas técnicas após relatórios serem publicados, já divulgou que a partir deste ano defende a implementação de compromisso de não desmatamento por parte de empresas. 

“A partir de 2026, empresas devem assumir o compromisso que seus produtos não estão ligados a desmatamento, seguindo protocolo internacional. Isso significa que a origem e as rotas de soja, carne, óleos, cafés, madeira, por exemplo, devem ser rastreáveis”, informou em seu site.

BALANÇA
Relatório da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul) apontou que nos primeiros cinco meses deste ano, o agronegócio de MS foi responsável por US$ 4,49 bilhões em exportações, o que significa 10,3% a mais que o mesmo período de 2025.

A carne representou 25,3% do total da receita, o que equivale a US$ 1,13 bilhão e uma alta de 37,6% com relação a 2025.

“Nos cinco meses de 2026, o principal destino dos produtos do agronegócio de MS, a China, respondeu por 51,1% do faturamento com as exportações, o equivalente a US$ 2,29 bilhões. Houve avanço de 16% em relação aos US$ 1,98 bilhão comprados nos cinco primeiros meses de 2025.

O Bloco Europeu foi o responsável por 11,4% do faturamento, com o valor de US$ 510,8 milhões. Os Estados Unidos compraram o equivalente a US$ 250,4 milhões do agronegócio sul-mato-grossense e representou 5,6% da receita”, detalhou o boletim Casa Rural.

Outro mercado que ainda mantém negócios com o Estado é do Vietnã. Essa participação é de 2,2% no faturamento total, o que equivale a US$ 98,5 milhões, com avanço de 184,6% em relação ao mesmo período de 2025.

RODOLFO CÉSAR, DE CORUMBÁ – CORREIO DO ESTADO

FOTO: CATIA URBANETZ/EMBRAPA PANTANAL