A dificuldade para contratar profissionais deixou de ser um problema pontual e passou a representar um dos principais desafios para a continuidade do crescimento econômico de Mato Grosso do Sul. Em um estado que concentra investimentos bilionários na indústria, expansão do comércio, obras de infraestrutura e um mercado de trabalho aquecido, a disputa por trabalhadores se intensifica.
Pesquisa Global de Escassez de Talentos, da ManpowerGroup, mostra que 80% dos empregadores brasileiros enfrentam dificuldades para preencher vagas, índice que permanece elevado há cinco anos.
O cenário ocorre em um momento de aquecimento do mercado de trabalho. Outra pesquisa da consultoria aponta que 52% das empresas brasileiras pretendem ampliar seus quadros entre julho e setembro, enquanto apenas 15% projetam reduzir equipes, indicando que a procura por profissionais deve permanecer elevada nos próximos meses.
Em Mato Grosso do Sul, o problema ganha características próprias. A chegada de novas indústrias, o avanço da cadeia da celulose, o crescimento da bioenergia, da construção civil e do comércio ampliaram a demanda por trabalhadores justamente em um estado que tem baixa densidade populacional e enfrenta dificuldades para formar profissionais nas áreas técnicas mais procuradas.
O cenário já havia sido identificado pelo Correio do Estado. Em 2025, das 46.849 vagas intermediadas pela Fundação do Trabalho de Mato Grosso do Sul (Funtrab), apenas 25.774 resultaram em contratações, evidenciando o descompasso entre a demanda das empresas e a oferta de profissionais qualificados.
Para o economista Eduardo Matos, o gargalo é resultado de fatores estruturais. Um deles é a remuneração praticada em parte das atividades, que nem sempre acompanha o custo de vida, estimulando trabalhadores a migrarem para a informalidade.
“O salário baixo afasta o trabalhador, e muitos têm preferência por atuar na informalidade, em ocupações com flexibilidade maior. O rendimento é menor ou igual ao desses empregos formais, mas o trabalhador faz o próprio horário e não tem, de fato, um patrão”, explica.
Segundo o economista, Mato Grosso do Sul também enfrenta um desafio demográfico.
“Somos um estado pouco povoado, com uma extensão muito grande de território para pouca gente e uma riqueza natural muito grande. É natural que tenhamos uma produção elevada, mas o que impede de consolidar esse potencial é a ausência de fatores de produção, e o principal que nos falta é o recurso humano, o capital humano”, afirma.
Matos acrescenta que ainda existe um desencontro entre a formação disponível e as necessidades do mercado. Enquanto sobram profissionais em algumas áreas tradicionais, empresas têm dificuldade para contratar operadores de máquinas, eletricistas industriais, mecânicos e técnicos especializados.

CONSTRUÇÃO
A construção civil é um dos segmentos que mais sofrem com esse cenário. Em nota enviada anteriormente ao Correio do Estado, o Sindicato Intermunicipal da Indústria da Construção de Mato Grosso do Sul (Sinduscon-MS) informou que o setor mantém vagas abertas que não consegue preencher.
“O setor tem vagas abertas que, infelizmente, não consegue preencher por falta de mão de obra, especialmente, a qualificada”.
Segundo a entidade, a entrada de novos trabalhadores não acompanha o crescimento da demanda, enquanto muitos profissionais deixam a atividade por aposentadoria ou mudança de carreira.
Para reduzir o deficit de trabalhadores, o sindicato mantém programas de qualificação em parceria com o Senai e a Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (Fiems), além do projeto Elas Constroem, voltado à formação de mulheres para atuar na construção civil.
Para o presidente da Federação do Comércio de Bens e Serviços de Mato Grosso do Sul (Fecomércio-MS), Juliano Wertheimer, a escassez de mão de obra deixou de ser um problema regional e exige investimentos permanentes em qualificação.
“A falta de mão de obra é um problema global, não apenas de Mato Grosso do Sul. E nós, por meio da qualificação do Sesc, do Senac e de parcerias com o governo do Estado, queremos colocar uma massa de trabalhadores qualificados no mercado à disposição das empresas, tanto da Capital quanto do interior”.
Segundo ele, a transformação digital também faz parte da solução. “A transformação digital não vem para tirar postos de trabalho. Pelo contrário. Ela vem para aliviar determinadas tarefas repetitivas e desenvolver atividades para postos de trabalho que hoje não são mais encontrados no mercado”.
Nesse contexto, o Senac Hub deverá ampliar ações voltadas à inovação, à inteligência artificial e à automação comercial, preparando empresários e trabalhadores para um mercado cada vez mais digitalizado.
A aproximação entre empresas e instituições de ensino também será reforçada. Wertheimer cita como exemplo a Escola de Gastronomia do Senac, que forma muitos alunos interessados em empreender ou cozinhar por hobby, enquanto bares, restaurantes e hotéis continuam enfrentando dificuldades para contratar profissionais.
“Às vezes você tem uma turma de 20 alunos e não consegue tirar um aluno para contratar para as nossas empresas. Essa é uma responsabilidade nossa, qualificar para o mercado, trazer as pessoas para o varejo, mostrar as oportunidades de trabalho, falar dos salários praticados e incentivar a permanência desses alunos”.
A pesquisa da ManpowerGroup mostra que a dificuldade para contratação é mais intensa justamente em setores importantes para Mato Grosso do Sul, como construção e mercado imobiliário, comércio e logística, indústria, serviços profissionais e tecnologia, indicando que o desafio tende a permanecer nos próximos anos.
SÚZAN BENITES – CORREIO DO ESTADO/FOTO: GERSON OLIVEIRA
(Colaborou Daniel Pedra)







