O volume recorde de R$ 525,1 bilhões anunciado pelo governo federal para o Plano Safra empresarial de 2026/2027 esconde uma perda de poder de compra real para os produtores rurais.
Uma análise técnica detalhada divulgada pelo Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro) aponta que o reajuste nominal de 1,7% frente ao ciclo anterior não acompanha o índice inflacionário.
Ao descontar a inflação acumulada de 2,5% ao ano medida pelo IGP-DI, o pacote de fomento ao campo sofreu, na verdade, um encolhimento real de 0,8%.
De acordo com o documento intitulado “Plano Safra 26/27: Um Plano Limitado Pelos Juros Elevados”, a manutenção das taxas de juros em patamares restritivos minimiza o impacto positivo dos recursos.
Em um cenário macroeconômico de margens de rentabilidade espremidas para o produtor e de maior seletividade por parte dos bancos, o custo elevado para tomar dinheiro emprestado ameaça transformar o financiamento produtivo em um “mau negócio” para o campo.
Tesoura orçamentária atinge compra de máquinas e armazenagem
O diagnóstico da FGV Agro revela uma forte contradição interna na distribuição das verbas governamentais. Embora o orçamento nominal carimbado para a área de investimentos tenha subido 38,1% (saltando de R$ 101,5 bilhões para R$ 140,2 bilhões), as linhas de crédito historicamente mais demandadas para a modernização das propriedades agrícolas sofreram cortes drásticos:
- Moderfrota: O programa de financiamento de tratores, colheitadeiras e maquinário pesado para médios e grandes produtores desabou 61%, minguando de R$ 9,5 bilhões para apenas R$ 3,7 bilhões disponíveis.
- Construção de Armazéns (PCA): A linha voltada a suprir o déficit crônico de armazenagem de grãos no país teve redução de 24% em seus recursos.
- Modernização e Irrigação: Os programas voltados à inovação (Inovagro) e infraestrutura hídrica (Proirriga) encolheram 38% cada um.
Em contrapartida, os recursos para custeio e comercialização — utilizados para cobrir as despesas diárias de plantio e insumos — caíram 7,2%, recuando de R$ 414,7 bilhões para R$ 384,9 bilhões na atual temporada.
O impacto prático dos juros no bolso do produtor
Para dar dimensão prática ao problema, os pesquisadores da fundação simularam como as taxas de juros impactam os custos das lavouras. No caso de um produtor de soja com produtividade média de 50 sacas por hectare e custo base de R$ 60 por saca, o custo total por hectare seria de R$ 3.000.
Se ele financiar esse valor pela linha do Pronamp (com taxa nominal de 9% e juro real próximo de 4% ao ano), os encargos elevam automaticamente o custo por saca para R$ 62,40 — encarecendo a produção real em 4% unicamente devido à taxa financeira.
O cenário é ainda mais agressivo no financiamento de equipamentos de longo prazo via Moderfrota, que opera com juros nominais de 12,5% ao ano. Na compra de uma máquina de R$ 600 mil quitada em cinco anos pelo sistema de parcelas fixas, o produtor pagará R$ 116.220 somente em juros, o que encarece o valor original do bem em 19,4%.
SIMULAÇÃO DE COMPRA: MÁQUINA AGRÍCOLA (5 ANOS / JUROS DE 12,5% A.A.)
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Preço original do bem: ............................ R$ 600.000
Total pago em juros acumulados: ................... R$ 116.220
Custo total final do investimento: ................ R$ 716.220
Aumento real no custo de aquisição: ............... + 19,4%
Armadilha financeira e a necessidade de taxas flexíveis
O estudo da FGV conclui com um alerta para o risco de o agricultor travar contratos longos com taxas prefixadas altas neste momento. Atualmente, o Moderfrota (12,5% a.a.) pode parecer atrativo se comparado à taxa Selic de 14,25% ao ano.
No entanto, por se tratarem de financiamentos de longo prazo (como o de 60 meses), o produtor corre o risco de pagar taxas muito acima do mercado nos anos finais do contrato caso a Selic inicie uma trajetória de queda.
Como alternativa técnica para mitigar esse risco de mercado, o estudo sugere que o governo adote mecanismos de juros flexíveis atrelados à variação da Selic. Essa portabilidade ou flutuação automática permitiria que as prestações do produtor diminuíssem paralelamente à queda dos juros básicos da economia, preservando as vantagens do crédito rural ao longo de todo o contrato.
Fernando de Carvalho, RCN 67 – Foto: Imagem de Arquivo/Agência Brasil







