21/08/2026 13:18

Recuperações judiciais crescem 150% em Mato Grosso do Sul, puxadas por agro e comércio

O número de empresas em recuperação judicial em Mato Grosso do Sul cresceu 59% neste ano, com alta de 150% entre 2024 e 2026. O setor agropecuário lidera o número de reestruturações financeiras, seguido pelos empreendimentos comerciais.

Nesta semana, o grupo responsável pelas Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial e fechou 298 lojas, com demissão de cerca de 3 mil funcionários em todo o Brasil. Em Mato Grosso do Sul, sete unidades foram afetadas, duas em Dourados e as outras em Três Lagoas, Naviraí, Ponta Porã, Nova Andradina e Campo Grande.

A recuperação judicial é utilizada por empresas em dificuldades financeiras para suspender temporariamente a cobrança de dívidas, ganhar tempo para renegociá-las com os credores e manter as operações em funcionamento enquanto buscam reorganizar as contas.

Alta de 150%

No primeiro trimestre de 2024, Mato Grosso do Sul registrou 28 empresas com abertura de recuperação judicial. O valor saltou para 44 no mesmo período do ano seguinte e para 70 nos primeiros três meses de 2026. Dessa forma, o crescimento de 57,1% entre 2024 e 2025 foi seguido de alta de 59% neste ano.

Dessa forma, entre o primeiro trimestre de 2024 e o igual período de 2026, a alta total foi de 150%, segundo dados da consultoria RGF, especializada em reestruturação empresarial.

Considerando os anos completos, houve 115 empresas em recuperação no Estado em 2024 e quase o dobro no seguinte: 209 empreendimentos com processo de reestruturação financeira aberto, segundo o monitor RGF de Recuperação Judicial. Confira os números:

(Fonte: Monitor RGF-BIZDOC)

Agro e comércio são setores que mais sofrem

Das 70 empresas em recuperação judicial entre janeiro e março de 2026, 27 são do setor agropecuário e 20 do comércio, segundo o monitor RGF de Recuperação Judicial. Outras 12 firmas pertencem ao setor de serviços e três entram na classificação “outros”.

No primeiro trimestre de 2025, 11 empresas do agro entraram em recuperação judicial no Estado. Ou seja, houve alta de 145,4% em um ano. Já os empreendimentos comerciais registram salto de 17 para 20, o que representa aumento de 18% no mesmo período.

Entre as 27 empresas do setor agropecuário, com relação à atividade, 18 são relacionadas ao cultivo de soja, 6 à criação de bovinos de corte, 2 a serviços de preparação de terreno, cultivo e colheita, e uma a serviços de pulverização e controle de pragas.

As 20 empresas do comércio estão distribuídas em: três supermercados e um minimercado, dois empreendimentos do varejo de motocicletas, atacado de cereais e leguminosas, atacado de remédios e varejo do setor de construção. Também pediram recuperação judicial firmas ligadas à venda de carne, veículos, artigos de cama, mesa e banho, e defensivos agrícolas.

Casas Bahia

A Casas Bahia informou que teve prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre deste ano, como justificativa para o fechamento de 298 lojas. Além disso, o grupo diz ter R$ 17,3 bilhões em dívidas, o que levou ao pedido de recuperação judicial no fim da noite deste domingo (16).

Segundo a empresa, o movimento é impulsionado por um “ambiente macroeconômico desafiador para o varejo brasileiro de bens duráveis, caracterizado por elevado custo de crédito e pressão sobre a capacidade financeira dos consumidores”.

O pedido engloba dez empresas da holding, como a dona das marcas Casas Bahia e Ponto Frio, o e-commerce Extra.com e a fabricante de móveis Bartira. O grupo informa a demissão de cerca de 3 mil dos 30,1 mil funcionários e o fechamento de quase 300 das mais de 700 lojas físicas abertas, conforme a Folha de S. Paulo.

O grupo diz que a crise tem relação com os investimentos em tecnologia, logística e lojas digitais iniciados em 2019, junto ao choque da pandemia, que paralisou lojas físicas. O salto da taxa Selic também é citado como fator para desorganização financeira.

Cerca de 130 demitidos

O SECCG (Sindicato dos Empregados no Comércio de Campo Grande) estima que cerca de 130 pessoas foram demitidas de lojas da Casas Bahia na última semana em Mato Grosso do Sul. Funcionários foram surpreendidos pelo desligamento repentino na sexta-feira (14).

O presidente da entidade, Carlos Santos, pretende pedir mediação junto ao MPT (Ministério Público do Trabalho) para garantir que as demissões ocorram conforme as leis trabalhistas. “Nosso papel é defender cada um deles e garantir que essa demissão seja feita dentro da lei, com todos os direitos respeitados.”

Um trabalhador demitido da loja em Campo Grande diz que o anúncio de desligamento de todos os funcionários foi repentino e inesperado. Ele conta que quinta-feira (13) foi um dia normal de trabalho, mas, às 20h, receberam uma mensagem no grupo de funcionários marcando uma reunião para as 8h de sexta-feira (14).

“Chegou o dia e eles falaram que ia ter corte em todo o Brasil, só que não sabiam quem seria desligado”, explica. “Eles imprimiram papéis e lá estava o nome das pessoas demitidas. Foi saindo por lote. Na minha loja, todo mundo acabou desligado”, lamenta o rapaz, que trabalhou por dois anos na Casas Bahia.

O que dizem os setores afetados?

Jornal Midiamax perguntou à Famasul (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul) quais fatores contribuem para a alta de empresas do setor agropecuário em recuperação judicial no Estado, mas a Federação informou que não “dispõe das informações referentes às questões mencionadas”.

A Fecomércio-MS (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de MS) e a FCDL (Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas) sinalizaram que vão enviar resposta sobre a avaliação do setor aos dados apresentados, mas não houve retorno até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto.

Murilo Medeiros – Midiamax – Foto: Madu Livramento, Midiamax