O agronegócio brasileiro está virando a página de uma longa narrativa de defesa para assumir um papel propositivo e técnico no debate climático global. A mudança de postura ficou evidente no painel “O agronegócio na COP 30”, realizado nesta quinta-feira (27) em São Paulo, durante o Estadão Summit Agro 2025.
Especialistas destacaram que a agenda climática deixou de ser vista como ameaça ao setor e passou a ser encarada como oportunidade real — tanto no acesso a financiamentos quanto na construção de uma narrativa internacional mais justa sobre a agricultura tropical brasileira.
O debate, conduzido pela jornalista Isadora Duarte, do Broadcast Agro, revelou que os próximos anos exigirão ação coordenada entre governo, empresas e produtores para transformar avanços pontuais em práticas contínuas que beneficiem tanto o meio ambiente quanto os trabalhadores rurais.
O fim da injusta imagem de vilão
O agrônomo e professor de Bovinocultura de Corte na Esalq/USP, Diogo Fleury Azevedo Costa, foi direto ao afirmar que a COP 30 rompeu com a visão simplista e injusta de que o debate climático se resume às emissões dos ruminantes.
“A COP foi muito mais do que falar do arroto do boi; foi falar da sustentabilidade da nossa agricultura tropical”, destacou o pesquisador, ressaltando que o setor ainda enfrenta desinformação internacional e desequilíbrios nas comparações entre países.
Costa compartilhou uma experiência reveladora: “Na Austrália eu ouvia que 90% das emissões da agricultura vinham do boi. É muita coisa. Mas quando se olha o total das emissões do país, isso muda tudo. A produção de ruminantes é parte da solução, não o problema”.
O professor defendeu que tecnologias como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) ampliam a produtividade enquanto reduzem a intensidade de emissões. “A integração é o futuro. Está claro que sistemas bem manejados têm balanço negativo de carbono”, afirmou, destacando o potencial de práticas já adotadas por produtores brasileiros.
Financiamento climático pode transformar o campo
Eduardo Bastos, CEO do Instituto Equilíbrio e diretor da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), destacou que a COP 30 marcou a entrada definitiva do setor financeiro no debate sobre agricultura sustentável.
“Pela primeira vez em COP eu vi o setor financeiro discutindo financiar agricultura como parte da solução”, celebrou Bastos, citando como exemplo um dos leilões do Programa Eco Invest, que movimentou impressionantes R$ 30 bilhões.
Para o especialista, esse volume de recursos só existe porque está vinculado à agenda climática. “Quando isso acontece, o discurso deixa de ser conversa fiada”, enfatizou, ressaltando que o financiamento verde pode democratizar o acesso a tecnologias sustentáveis para pequenos e médios produtores.
Bastos alertou, porém, que o Brasil precisa avançar urgentemente em duas frentes regulatórias. Primeiro, a regulamentação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE). Segundo, garantir que o Artigo 6 do Acordo de Paris, sobre comércio internacional de carbono, avance na próxima COP.
“O agro emite 640 milhões de toneladas e pode capturar 1,1 bilhão. Temos potencial para gerar 500 milhões de toneladas em créditos. Eles só terão valor se pudermos exportá-los”, explicou, mostrando como agricultores brasileiros podem se beneficiar economicamente de práticas sustentáveis.
A luta por métricas justas
Filipe Teixeira, diretor sênior da Syngenta, tocou em um ponto fundamental: a agricultura brasileira já adota práticas sustentáveis há décadas, mas sempre teve dificuldade para traduzir essas informações ao público internacional.
“Plantio direto, integração e fixação biológica eram apenas produzir. Faltava traduzir isso para o resto do mundo”, explicou Teixeira, destacando que a COP deu visibilidade inédita ao potencial da agricultura tropical.
O diretor denunciou, porém, uma injustiça: o Brasil ainda é medido com ferramentas inadequadas, criadas para realidades completamente diferentes. “Não adianta dizer que somos sustentáveis se usamos métricas da agricultura temperada. Não é justo medir o sequestro de carbono das nossas pastagens com dados do arroz do Oriente”, protestou.
Teixeira também defendeu a recuperação de áreas degradadas como principal alternativa para expansão agrícola, desmontando o falso dilema entre produção e preservação. “Temos 160 milhões de hectares de pastagens, com cerca de 40 milhões aptos para conversão agrícola. É possível aumentar a produção sem derrubar árvores”.
Disputar a narrativa para conquistar a sociedade
Rui Pereira Rosa, diretor-executivo da Rede ILPF, afirmou que o Brasil possui uma história sólida para apresentar ao mundo, mas precisa urgentemente se comunicar melhor com sua própria população.
“O agro é pragmático, mostra resultados. A Agrizone foi uma amostra do que fazemos bem”, disse Rosa, destacando porém que o setor precisa dialogar melhor com a população urbana, que representa 87% do país.
“A cidade ainda tem um conceito distante do agro. Mostrar o agro como ele é, faz diferença”, pontuou o diretor, defendendo que os dados brasileiros sobre sistemas integrados e pastagens sustentáveis passem a pautar o debate internacional.
Rosa lembrou que a ILPF, hoje vista como modelo global, nasceu de pesquisas que ficaram anos “na gaveta” antes de serem disseminadas ao campo. Os números mostram o potencial: já são 17,4 milhões de hectares com integração, diante de 159 milhões de pastagens. “Estamos só começando”, animou-se.
Um novo capítulo para o campo brasileiro
A COP 30 marcou uma virada histórica na postura do agronegócio brasileiro. O setor deixou a defensiva, abandonou a insegurança diante das críticas internacionais e passou a ocupar espaços técnicos e científicos com propostas concretas.
Mais do que defender sua imagem, o agro brasileiro agora constrói métricas próprias, busca modelos regulatórios justos, articula mecanismos de financiamento e desenvolve estratégias para comunicar suas conquistas reais em sustentabilidade.
O desafio agora é garantir que esses avanços cheguem a todos os produtores, especialmente os pequenos e médios, e que a sociedade brasileira reconheça e valorize o trabalho de quem produz alimentos de forma cada vez mais responsável.
Fonte: CNN








