O mercado doméstico de algodão começou a semana com demanda aquecida, especialmente para entregas programadas a partir da segunda quinzena de janeiro e para a safra 2026, sinalizando interesse forte das indústrias têxteis em garantir matéria-prima. No entanto, o ritmo comprador perdeu intensidade rapidamente nos últimos dias, provocando queda nas cotações e instalando maior cautela por parte dos vendedores, segundo dados da Safras Consultoria.
O movimento revela a fragilidade característica do mercado de algodão: extremamente sensível a oscilações de humor dos compradores, volatilidade cambial, movimentos especulativos nas bolsas internacionais e incertezas macroeconômicas. Para produtores — especialmente pequenos e médios que dependem da comercialização no momento certo para garantir rentabilidade —, essa instabilidade representa risco constante e dificulta planejamento de longo prazo.
A semana que começou bem e esfriou rápido
Com a redução abrupta da liquidez após poucos dias de negociações mais ativas, compradores e vendedores adotaram postura marcadamente defensiva — movimento que trava o mercado e prejudica especialmente quem precisa vender para honrar compromissos ou custear a próxima safra.
No mercado spot (pronta entrega), as indústrias têxteis mantiveram a indicação do algodão posto em São Paulo em R$ 3,48 por libra-peso, o mesmo valor da quinta-feira (4) — estabilidade que, em contexto de demanda inicialmente aquecida, sugere resistência dos compradores em pagar mais mesmo com interesse de compra.
Quando preços começam a cair mesmo com demanda presente, produtores ficam inseguros sobre o momento de vender: esperar pode significar quedas maiores, mas vender imediatamente pode significar perder valorização caso o mercado se recupere. Essa incerteza paralisante é especialmente prejudicial para agricultura familiar e pequenos produtores sem capital de giro robusto.
Conab prevê redução na produção nacional
A produção brasileira de algodão em pluma na safra 2025/26 está estimada em 3,959 milhões de toneladas, segundo o 3º levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgado esta semana. O volume representa queda de 2,9% em relação à safra anterior (2024/25), quando o país colheu 4,076 milhões de toneladas.
Essa redução de aproximadamente 117 mil toneladas tem causas múltiplas: condições climáticas menos favoráveis em algumas regiões durante o plantio e desenvolvimento inicial das lavouras, custos de produção elevados que desestimularam investimentos em algumas áreas, e decisões de produtores de realocar parte da área para outras culturas consideradas mais rentáveis ou menos arriscadas no momento do plantio.
A produtividade média das lavouras deve atingir 1.885 quilos de pluma por hectare, ligeiramente abaixo dos 1.954 quilos por hectare registrados na temporada passada — redução de cerca de 3,5% que reflete tanto fatores climáticos quanto possíveis limitações em investimentos em insumos de alto custo como fertilizantes e defensivos.
Curiosamente, a área plantada com algodão deve crescer 0,7%, passando de 2,085 milhões para 2,1 milhões de hectares — o que significa que a redução na produção total se deve exclusivamente à menor produtividade por hectare, não a redução de área cultivada.
Bahia cresce, Goiás recua levemente
Na Bahia, o segundo maior polo produtor do país (concentrado especialmente na região oeste do estado), a produção deve crescer 2,5%, totalizando 859,4 mil toneladas, frente às 838,4 mil toneladas colhidas em 2024/25.
Esse crescimento baiano de aproximadamente 21 mil toneladas compensa parcialmente a queda em Mato Grosso e reflete condições climáticas relativamente melhores na região durante a safra, além de expansão continuada da área cultivada com algodão no oeste baiano — fronteira agrícola que vem se consolidando como importante polo de produção de grãos e fibras.
Já Goiás deve apresentar leve retração de 1,1%, com expectativa de 54,6 mil toneladas, contra 55,2 mil toneladas na temporada anterior — queda pequena que está dentro da margem de variação normal e não representa mudança estrutural.
A volatilidade que paralisa decisões
Segundo analistas consultados pela Safras, o cenário atual combina demanda firme mas seletiva — ou seja, compradores querem produto mas escolhem cuidadosamente momento e preço — com produtores retraídos diante da volatilidade dos preços.
Essa combinação é particularmente frustrante: há interesse de compra, há produto disponível, mas as transações não se concretizam em volume adequado porque ambos os lados aguardam sinais mais claros de tendência.
A expectativa é que o mercado siga em compasso de espera nas próximas semanas, com os contratos futuros nas bolsas internacionais (especialmente a ICE Futures em Nova York, referência global para preços do algodão) e o ritmo de exportações brasileiras influenciando fortemente as decisões de venda.
A vulnerabilidade dos pequenos produtores
Embora o algodão brasileiro seja cultura dominada por médios e grandes produtores altamente capitalizados — com equipamentos modernos, acesso a crédito robusto, assistência técnica especializada, capacidade de armazenamento que permite escolher momento de venda —, existem também pequenos e médios produtores que cultivam a fibra, especialmente em sistemas de rotação com grãos.
Para esses produtores de menor escala, a volatilidade de preços e a incerteza de mercado são especialmente prejudiciais:
Não têm capital de giro para segurar produto esperando melhores preços se precisarem de recursos imediatos.
Não têm estrutura de armazenamento adequada que permita preservar qualidade da fibra por longos períodos.
Não têm acesso facilitado a instrumentos de proteção de preços (hedge) através de mercados futuros.
Dependem mais de intermediários que frequentemente capturam margens significativas, pagando menos ao produtor e cobrando mais do comprador final.
Sofrem mais com custos de insumos elevados, já que não conseguem negociar volumes grandes com descontos.
Quando o mercado esfria rapidamente como aconteceu nesta semana, são esses produtores que ficam mais expostos: precisam vender para honrar compromissos, mas enfrentam preços em queda e compradores retraídos.
O algodão e a indústria têxtil brasileira
O comportamento cauteloso das indústrias têxteis — mantendo preços oferecidos estáveis mesmo com demanda inicialmente aquecida — reflete suas próprias incertezas e pressões.
A indústria têxtil brasileira enfrenta desafios estruturais: concorrência brutal de importados (especialmente asiáticos) com preços muito baixos, custos elevados de produção no Brasil (energia, tributos, logística), demanda doméstica volátil afetada por renda das famílias, dificuldade de competir em mercados externos.
Nesse contexto, as tecelagens e fiações precisam gerenciar custos rigidamente, comprando algodão nos momentos mais favoráveis e resistindo a pagar mais quando percebem fraqueza de mercado.
O problema é que essa lógica empresarial compreensível cria pressão baixista sobre preços pagos aos produtores, especialmente em momentos de incerteza como o atual.
Exportações como válvula de escape
O ritmo de exportações brasileiras de algodão é fator crítico que influencia o mercado doméstico. Quando exportações estão fortes, retiram produto do mercado interno, sustentando preços. Quando esfriam, aumentam oferta doméstica e pressionam cotações para baixo.
O Brasil consolidou-se nos últimos anos como importante exportador de algodão, competindo com Estados Unidos, Índia e outros grandes produtores. Essa inserção internacional é positiva pois diversifica mercados e reduz dependência exclusiva da demanda doméstica.
Porém, também cria vulnerabilidade a fatores externos: políticas comerciais de países importadores, flutuações cambiais, concorrência de outros exportadores, padrões de qualidade exigidos que nem todos os produtores conseguem atender.
O que falta para estabilizar o mercado
Para reduzir a volatilidade que caracteriza o mercado de algodão e proteger especialmente pequenos e médios produtores, seriam necessárias políticas como:
Preços mínimos garantidos pelo governo, estabelecendo piso abaixo do qual os preços não podem cair, permitindo que produtores planejem com mais segurança.
Estoques reguladores públicos, com governo comprando em momentos de excesso de oferta e preços baixos, e liberando em momentos de escassez e preços altos, estabilizando o mercado.
Acesso facilitado a mecanismos de proteção (hedge) para pequenos e médios produtores, através de cooperativas ou programas públicos que democratizem ferramentas antes acessíveis apenas a grandes.
Fortalecimento de cooperativas de produtores, aumentando poder de negociação coletivo e permitindo armazenamento conjunto que dá mais flexibilidade de comercialização.
Assistência técnica pública que ajude produtores a melhorarem produtividade e qualidade, aumentando competitividade e margens.
Políticas industriais que fortaleçam a indústria têxtil nacional, garantindo demanda doméstica robusta e reduzindo dependência de exportações voláteis.
A semana que resume o desafio
A semana que começou com demanda aquecida e terminou com cautela generalizada resume perfeitamente o desafio estrutural do mercado de algodão brasileiro: extrema sensibilidade a mudanças de humor, volatilidade que prejudica planejamento, assimetria de poder entre grandes e pequenos produtores.
A previsão de queda de 2,9% na produção para 2025/26 deveria, em tese, sustentar preços através de oferta menor. Mas a realidade é mais complexa: demanda também flutua, importações podem preencher lacunas, estoques de passagem afetam equilíbrio de mercado, fatores internacionais influenciam fortemente.
O mercado de algodão nesta semana oferece mais um exemplo de como volatilidade de curto prazo e incertezas macroeconômicas prejudicam especialmente pequenos e médios produtores que não têm estrutura para esperar melhores momentos. Enquanto grandes produtores podem segurar produto aguardando recuperação de preços, os menores muitas vezes precisam vender no pior momento, perpetuando desigualdades no campo brasileiro. Políticas públicas que estabilizem mercado e protejam produtores vulneráveis são urgentemente necessárias.








