06/04/2026 15:59

Arroba atinge R$ 338 após alta de 10% e China pode impulsionar novos aumentos

Após um período prolongado de preços pressionados, a arroba do boi gordo voltou a ultrapassar o patamar de R$ 330 em Mato Grosso do Sul, acumulando alta de 10% em 12 meses. Dados da Granos Corretora, sem a incidência do Funrural, mostram que a cotação saiu de R$ 304,86, em abril de 2025, para R$ 338,15, em abril deste ano.

Considerando o imposto, o valor chega a R$ 343,75, consolidando uma recuperação importante da pecuária de corte estadual.

O movimento interrompe um ciclo de queda observado principalmente em 2023 e 2024, quando o excesso de oferta de animais para abate pressionou as cotações para baixo. Em abril de 2024, a arroba chegou a R$ 212,60, um dos menores patamares dos últimos anos.

Desde então, a recomposição de preços vem sendo gradual, refletindo menor disponibilidade de animais terminados, recuperação da demanda internacional e ajuste no ciclo pecuário.

A série histórica mostra a intensidade da recuperação recente. Em abril de 2020, a arroba era negociada a R$ 177,30. Um ano depois, em abril de 2021, já alcançava R$ 294,03.

Em 2022, manteve-se próxima desse nível, a R$ 297,97, antes de recuar para R$ 274,33 em 2023 e atingir seu menor patamar, de R$ 212,60, em 2024. A partir de 2025, contudo, os preços voltaram a subir, alcançando R$ 304,86 e, agora, R$ 338,15, o que representa valorização de quase 60% em dois anos.

Conforme o boletim Casa Rural, elaborado pela Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul) a menor oferta de animais prontos para abate é um dos fatores que sustentam a alta recente.

O relatório aponta que “a menor oferta de animais contribuiu para a manutenção dos preços da arroba ao mesmo tempo em que a demanda segue consistente”.

O documento também destaca que as exportações continuam em ritmo elevado, com volumes diários acima de 11 mil toneladas, praticamente o mesmo nível registrado em março do ano passado.

O documento técnico também aponta valorização na comparação anual. “Na comparação anual, os valores da arroba se mostram superiores aos observados no mesmo período do ano anterior. O boi gordo apresenta valorização de 10,7%, em relação a março de 2025, enquanto a arroba da vaca registra alta de 8,9%, na comparação interanual”, informou o relatório.

Além da menor oferta, dados da Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (Iagro) mostram redução no número de abates em Mato Grosso do Sul.

Em fevereiro deste ano, foram abatidos 326,3 mil animais, queda de 3,5% em relação a janeiro e retração de 7,9% na comparação com fevereiro de 2025, quando 354,6 mil cabeças foram destinadas ao abate. No acumulado do primeiro bimestre, o total chegou a 664,4 mil animais, redução de 8,9% em relação ao mesmo período do ano passado.

Outro ponto observado pelo relatório é o aumento da participação de fêmeas no abate. Do total registrado no primeiro bimestre, 348 mil eram fêmeas, o que corresponde a 52% do total, dois pontos porcentuais acima da proporção verificada no mesmo período de 2025.

O movimento indica ainda uma fase de ajuste no ciclo pecuário, que tende a influenciar a oferta futura de animais.

CHINA
O desempenho das exportações continua sendo um dos principais fatores de sustentação da arroba. Segundo o Boletim Casa Rural, a China permaneceu como principal destino dos produtos do agronegócio sul-mato-grossense no primeiro bimestre deste ano, respondendo por 39,8% da receita com exportações, o equivalente a US$ 541 milhões.

Apesar da liderança, houve redução de 8% em relação ao mesmo período de 2025, quando as compras somaram US$ 588 milhões.

A arroba do boi gordo atingiu R$ 338 na quinta-feira – Foto: Gerson Oliveira / Correio do Estado
Os Estados Unidos aparecem na segunda posição, com participação de 7,5% e crescimento de 21% no valor adquirido, totalizando US$ 102,5 milhões. Já os Países Baixos ocupam o terceiro lugar, com US$ 62,7 milhões e participação de 4,6%, apesar da queda de 10,3% nas compras em relação ao ano anterior.

A dependência do mercado chinês continua sendo um dos principais pontos de atenção para o setor pecuário.

Análise publicada pelo portal da Agência Brasil China destaca que o mercado pode enfrentar um período de maior volatilidade ao longo do ano, em função do comportamento das importações do país asiático. Segundo a publicação, “o possível recuo nas importações chinesas pode gerar um efeito imediato sobre a arroba do boi gordo no Brasil”.

O ponto de atenção é a política de controle das importações adotada pela China. Conforme análise publicada pelo portal da Agência Brasil China, o país asiático tem adotado medidas para administrar o volume de compras externas, o que pode gerar períodos de maior ou menor demanda pela carne bovina brasileira.

O texto afirma que eventuais restrições ou ajustes nas cotas de importação podem provocar oscilações no mercado internacional, com reflexos diretos sobre a arroba do boi no Brasil.

Ao mesmo tempo em que limita o volume adquirido em determinados períodos, a estratégia chinesa pode concentrar compras em momentos específicos, pressionando as cotações para cima quando há necessidade de recomposição de estoques.

Esse movimento ocorre paralelamente ao alerta sanitário provocado pelos registros de febre aftosa em território chinês. Caso a doença afete a produção local ou exija medidas adicionais de controle sanitário, a demanda por carne importada pode crescer, ampliando a pressão de alta sobre a arroba do boi gordo.

Combinados, os fatores relacionados à política de importação chinesa, ao cenário sanitário e à menor oferta de animais no Brasil reforçam a expectativa de manutenção dos preços em patamar elevado ao longo deste ano, podendo inclusive gerar novas valorizações, dependendo da intensidade da demanda internacional.

INCERTEZAS
Conforme já adiantado pelo Correio do Estado, o cenário internacional ganhou um novo elemento de atenção com a confirmação de casos de febre aftosa na China.

Reportagem do portal Notícias Agrícolas informa que o Ministério da Agricultura chinês confirmou surtos da doença em rebanhos nas regiões de Gansu e Xinjiang, envolvendo 219 animais infectados em propriedades com mais de 6 mil cabeças de gado.

De acordo com a publicação, o diagnóstico identificou um sorotipo ainda não registrado anteriormente no país, o que pode dificultar a imunização dos rebanhos.

“O fato de ser um vírus novo só é um problema por causa da vacina, porque os animais não estão imunizados”, afirmou o diretor da HN Agro, Hyberville Neto, ao portal.

Analistas avaliam que o impacto inicial tende a ser limitado, desde que a doença permaneça controlada. “Só seria um problema se a doença se alastrasse muito, saísse do controle, mas eu acho difícil que seja alguma coisa assim tão pesada”, disse o analista Fernando Iglesias.

Ainda assim, a possibilidade de ampliação dos focos pode alterar o comportamento das importações chinesas e gerar reflexos positivos nos preços da arroba no Brasil. Isso porque eventual redução da produção interna chinesa pode ampliar a demanda por carne bovina no mercado internacional.

A combinação de menor oferta de animais, exportações em ritmo elevado e incertezas no mercado internacional tende a manter a arroba em patamar sustentado ao longo deste ano. O cenário indica continuidade da recuperação iniciada no ano passado, após um período de forte desvalorização.

Súzan Benites, Correio do Estado – Foto: Gerson Oliveira / Correio do Estado