02/02/2026 20:22

Assistência técnica transforma produção de leite de búfala no interior paulista e garante renda digna a produtores familiares

Capacitações em manejo, nutrição e reprodução elevam produtividade em até 30%, provando que conhecimento e apoio técnico são fundamentais para agricultura familiar prosperar

A criação de búfalos no interior de São Paulo está passando por uma transformação silenciosa, mas profundamente significativa. Produtores familiares que há anos trabalham com esses animais estão descobrindo que assistência técnica qualificada e conhecimento aplicado podem fazer toda a diferença entre sobreviver e prosperar no campo.

Em Itapetininga e Alambari, municípios paulistas, criadores de búfalos vêm recebendo capacitações técnicas que estão elevando significativamente a produtividade de seus rebanhos, especialmente em períodos de calor intenso — quando tradicionalmente a produção de leite costuma cair.

As histórias desses produtores demonstram uma verdade essencial: a agricultura familiar não precisa apenas de terra e animais, mas também de acesso a conhecimento, tecnologia e acompanhamento profissional para realizar todo seu potencial.

Conhecimento que transforma realidades

Alessandro Dezembro, produtor de Itapetininga que trabalha com a raça murrah — conhecida pela rusticidade e docilidade —, mantém 50 búfalas em lactação. Sua história exemplifica como a capacitação técnica pode revolucionar uma propriedade rural.

No calor intenso, característico do interior paulista, a produção de leite tradicionalmente despencava, comprometendo a renda familiar justamente quando as despesas com manejo do rebanho se mantinham. A situação começou a mudar quando Alessandro teve acesso a capacitações que o ensinaram técnicas fundamentais.

Ele aprendeu a realizar inseminação artificial, passou a identificar com precisão animais que apresentam problemas reprodutivos e aprimorou significativamente a alimentação do rebanho. A pesagem regular do leite virou parte da rotina diária e permite acompanhar de perto o desempenho de cada animal.

“Genética, manejo, sanidade e uso adequado de hormônios estão entre os fatores que interferem na produtividade”, explica Alessandro, demonstrando o conhecimento técnico adquirido. No seu sítio, a ordenha ocorre duas vezes ao dia e, em épocas melhores, a produção total já alcançou impressionantes 500 litros diários.

Resultados concretos em Alambari

Em Alambari, a história se repete com números igualmente impressionantes. O produtor Massatoshi Escuro também adotou orientações técnicas oferecidas por programas de assistência rural, e os resultados foram imediatos e sustentados.

A média de produção por animal passou de cerca de cinco litros para seis litros e meio — um aumento de 30% que representa diferença significativa na renda mensal da família. No pico produtivo, o rebanho de Massatoshi, formado por mais de 30 matrizes, chegou a produzir 170 litros por dia.

Toda essa produção é enviada para uma cooperativa da região, garantindo escoamento seguro e preços mais justos do que o produtor conseguiria negociando individualmente com atravessadores.

Desafios do calor e adaptações necessárias

A criação de búfalos no interior paulista enfrenta desafios específicos relacionados ao clima. Embora a raça murrah seja conhecida por sua rusticidade — capacidade de se adaptar a diferentes condições —, o calor intenso dos meses de verão tradicionalmente afeta negativamente a produção leiteira.

Os búfalos são animais originários de regiões asiáticas com climas específicos e, apesar de bem adaptados ao Brasil, sofrem com temperaturas extremas. O estresse térmico reduz o apetite, aumenta o gasto energético para manter a temperatura corporal e compromete a produção de leite.

As capacitações técnicas ensinaram aos produtores estratégias para minimizar esses impactos: melhor gestão de sombra e água, ajustes na alimentação para períodos mais quentes, identificação precoce de sinais de estresse e manejo adequado dos horários de ordenha.

A importância da assistência técnica para agricultura familiar

As histórias de Alessandro e Massatoshi ilustram um problema estrutural da agricultura familiar brasileira: muitos produtores possuem terra, animais e dedicação, mas carecem de acesso a conhecimento técnico atualizado e acompanhamento profissional.

Programas de assistência técnica e extensão rural (ATER) são fundamentais para democratizar o conhecimento agropecuário, permitindo que pequenos produtores tenham acesso às mesmas informações e técnicas que grandes propriedades empresariais dispõem.

Quando esse apoio existe e funciona adequadamente, os resultados são transformadores: aumenta a produtividade, melhora a qualidade do produto, eleva-se a renda familiar e fortalece-se a permanência digna das famílias no campo.

Leite de búfala: um produto nobre com mercado crescente

O leite de búfala possui características nutricionais superiores ao leite de vaca em vários aspectos. É mais rico em proteínas, gordura, cálcio e ferro, além de possuir menor teor de colesterol. Essas qualidades fazem com que seja valorizado para a produção de queijos nobres, como mussarela de búfala, e produtos lácteos diferenciados.

O mercado consumidor vem crescendo, especialmente nas grandes cidades, onde há demanda por produtos de qualidade superior e diferenciados. Esse cenário favorável torna ainda mais importante que produtores familiares consigam elevar sua produtividade e qualidade para aproveitar essas oportunidades comerciais.

Cooperativismo fortalece produtores

A menção de que Massatoshi envia sua produção para uma cooperativa regional é significativa. O cooperativismo representa uma estratégia fundamental para que pequenos produtores consigam competir em mercados cada vez mais exigentes.

Através das cooperativas, produtores familiares conseguem: escoamento garantido da produção, preços mais justos estabelecidos coletivamente, acesso a insumos com custos menores, apoio técnico compartilhado e fortalecimento da capacidade de negociação frente a grandes compradores.

Investimento que vale a pena

Apesar das oscilações naturais ao longo do ano — relacionadas a clima, período reprodutivo dos animais e disponibilidade de pastagens —, os produtores avaliam unanimemente que o investimento em manejo mais técnico tem garantido avanços consistentes tanto na qualidade quanto na quantidade do leite de búfala.

Esse reconhecimento pelos próprios produtores é o melhor indicador de que políticas públicas voltadas para assistência técnica rural funcionam e devem ser ampliadas, não reduzidas.

Um modelo para replicar

As experiências bem-sucedidas de Itapetininga e Alambari deveriam servir de modelo para políticas públicas em todo o país. Demonstram que não é necessário investimento bilionário ou tecnologias inacessíveis para transformar a realidade da agricultura familiar.

O que se precisa é: técnicos capacitados visitando propriedades regularmente, capacitações práticas adaptadas à realidade local, acompanhamento continuado dos resultados e apoio para que produtores implementem gradualmente melhorias em suas propriedades.

A criação de búfalos no interior paulista prova que, quando o Estado cumpre seu papel oferecendo assistência técnica de qualidade, e quando produtores familiares têm acesso a conhecimento e apoio, a agricultura familiar prospera, famílias permanecem no campo com dignidade e o país fortalece sua produção de alimentos de qualidade.