20/03/2026 18:15

Brasil bate recorde de ovos em 2025: 62,25 bilhões de unidades provam que proteína acessível salva orçamento de famílias enquanto carnes ficam caras

Produção histórica acompanha salto de 6,7% no consumo por pessoa chegando a 287 ovos/ano, mostrando que quando proteína de qualidade é barata, brasileiro consome — enquanto carne bovina vira artigo de luxo

O ovo consolidou-se como a proteína protagonista na mesa dos brasileiros em 2025, alcançando números recordes de produção, exportação e consumo interno que revelam muito mais que estatísticas agrícolas — expõem uma mudança estrutural nos hábitos alimentares do país impulsionada pela necessidade econômica.

Considerado um dos alimentos mais acessíveis e versáteis do mundo, a produção nacional deve atingir a marca histórica de aproximadamente 62,25 bilhões de ovos este ano, acompanhada por um volume robusto de exportações que chega a 40 mil toneladas.

Mesmo com o crescimento significativo das vendas para o exterior, o mercado interno não foi desabastecido — dado importante que merece destaque, já que com outros produtos (como vimos em matérias anteriores sobre feijão, carne, soja) a priorização de exportações frequentemente prejudica abastecimento doméstico. Pelo contrário, o consumo médio por habitante saltou para 287 ovos por ano, um aumento expressivo de 6,7% em relação ao ano anterior.

O sucesso que revela uma substituição forçada

O sucesso da proteína deve-se, oficialmente, à sua praticidade e valor nutricional inquestionável, sendo presença cada vez mais frequente em diversas refeições do dia, desde o café da manhã até o jantar.

Porém, é fundamental ser honesto sobre o que realmente impulsiona esse crescimento recorde de 6,7% no consumo: o ovo está substituindo outras proteínas que ficaram proibitivamente caras para a maioria das famílias brasileiras.

Quando carne bovina chega a R$ 40-50 o quilo no supermercado, quando frango ultrapassa R$ 15-20 o quilo, quando até mesmo carne suína fica cara demais para orçamentos apertados, o ovo — que pode custar R$ 0,40-0,80 a unidade dependendo da região e época — torna-se não apenas opção conveniente, mas necessidade econômica.

Uma família de quatro pessoas que antes comia carne bovina três vezes por semana e agora consegue comprar apenas uma vez, naturalmente substitui as outras refeições por ovos, frango quando está em promoção, eventualmente proteína de soja. Não é escolha por preferência — é adaptação forçada à realidade de renda que não acompanha inflação dos alimentos.

O aumento de 6,7% no consumo per capita de ovos em um único ano não acontece por acaso ou por campanha publicitária bem-sucedida. Acontece porque famílias trabalhadoras descobriram que não podem mais pagar outras proteínas com a frequência necessária.

Proteína de qualidade a preço acessível

Dito isso, é fundamental reconhecer: o ovo é genuinamente excelente fonte de proteína, e o fato de ser acessível é vitória importante para segurança alimentar.

Um ovo grande contém aproximadamente 6-7 gramas de proteína de altíssima qualidade (com todos os aminoácidos essenciais), além de vitaminas (A, D, E, K, complexo B), minerais (ferro, zinco, selênio), colina (importante para cérebro), luteína e zeaxantina (importantes para visão).

Durante décadas o ovo foi injustamente demonizado por supostamente aumentar colesterol, mas pesquisas mais recentes mostraram que para maioria das pessoas o consumo moderado de ovos (até 1-2 por dia) não afeta negativamente colesterol sanguíneo e traz benefícios nutricionais significativos.

Portanto, famílias que aumentaram consumo de ovos não estão apenas fazendo escolha econômica — estão também, felizmente, consumindo alimento nutritivo e saudável.

O problema não é o ovo em si (que é ótimo), mas o contexto que força essa substituição: outras proteínas ficaram inacessíveis.

Exportação que não prejudicou mercado interno — desta vez

Um aspecto positivo que merece destaque: mesmo com exportações crescentes chegando a 40 mil toneladas, o abastecimento interno não apenas se manteve como cresceu, com consumo per capita aumentando 6,7%.

Isso contrasta positivamente com outros produtos que analisamos anteriormente, onde priorização de exportações frequentemente retira oferta do mercado doméstico, elevando preços e prejudicando famílias brasileiras.

No caso dos ovos, a produção cresceu suficientemente para atender tanto mercado externo quanto (e principalmente) interno, mantendo preços relativamente acessíveis — ainda que tenham subido com inflação geral, continuam sendo proteína mais barata disponível.

Esse é o modelo que deveria ser replicado: crescer produção para exportar sem prejudicar abastecimento doméstico a preços justos. Quando isso acontece, todos ganham — produtores vendem mais (interno e externo), consumidores têm acesso adequado, país ganha divisas com exportações.

Criatividade na cozinha — ou necessidade que vira virtude

Para manter o alimento na dieta diária sem monotonia, muitos consumidores têm apostado na criatividade na cozinha. A matéria cita como exemplo o “pão de queijo de frigideira”, uma receita simples que utiliza ovos, polvilho e queijo ralado para criar uma alternativa nutritiva e rápida.

Essa “criatividade” é genuína e válida — de fato há milhares de formas deliciosas de preparar ovos: mexidos, cozidos, fritos, pochê, omeletes com infinitas variações de recheio, ovos como ingrediente em bolos e pães, quiches, fritatas, e por aí vai.

Porém, não podemos romantizar demais. Quando famílias precisam “ser criativas” para comer ovo de formas diferentes todo dia porque não têm dinheiro para variar proteínas, não é apenas criatividade culinária — é necessidade econômica transformada em virtude.

Seria muito melhor se famílias pudessem escolher livremente entre ovos, carnes, peixes, queijos, outras proteínas conforme preferência e vontade, não conforme o que cabe no orçamento minguado.

A avicultura de postura no Brasil

A produção de ovos no Brasil é dominada por sistemas industriais de larga escala — granjas com dezenas ou centenas de milhares de galinhas poedeiras, produção altamente tecnificada, automatizada, com genética selecionada para máxima produção.

Esse modelo garante eficiência produtiva que resulta em preços baixos — aspecto positivo crucial para segurança alimentar. Produzir 62,25 bilhões de ovos por ano exige escala industrial.

Porém, também levanta questões importantes de bem-estar animal (galinhas frequentemente em gaiolas minúsculas sem espaço para comportamentos naturais), impacto ambiental (dejetos de milhões de aves concentradas, consumo de ração que depende de soja e milho que vêm de monoculturas), concentração de mercado (poucas grandes empresas dominando produção).

Há movimento crescente (ainda pequeno mas crescente) de produção de ovos caipiras ou de galinhas criadas livres de gaiola (cage-free) que garante melhor bem-estar animal, mas esses ovos custam significativamente mais caro — facilmente 2-3 vezes o preço de ovos convencionais.

Para famílias de classe média e alta que podem pagar, escolher ovos de galinhas criadas com melhor bem-estar é opção ética importante. Mas para maioria dos brasileiros que mal conseguem pagar ovos convencionais, essa escolha simplesmente não existe.

Ovos como indicador de desigualdade

O consumo per capita de 287 ovos por ano é média nacional — mas médias escondem disparidades enormes.

Famílias de alta renda provavelmente consomem bem mais que 287 ovos/ano (quase um por dia), incluindo em preparações variadas, bolos, massas, receitas elaboradas.

Famílias de baixa renda que conseguem comprar ovos regularmente chegam próximo ou acima da média, usando-os como proteína principal por necessidade.

Mas há também famílias em situação de insegurança alimentar grave que não conseguem comprar nem ovos regularmente — para quem até o alimento “mais barato” ainda é caro demais quando se ganha menos que salário mínimo, tem contas atrasadas, precisa escolher entre comida e remédio.

O recorde de consumo é positivo, mas não significa que todos os brasileiros estão comendo adequadamente.

O que o recorde de ovos nos diz

O fato de Brasil bater recorde de produção e consumo de ovos em 2025 nos diz várias coisas importantes:

Primeiro: Quando proteína de qualidade é acessível, brasileiros consomem. O problema não é falta de demanda ou de cultura alimentar — é preço.

Segundo: Outras proteínas (especialmente carne bovina) ficaram tão caras que forçaram substituição massiva por ovos. O crescimento de 6,7% no consumo de ovos reflete, em boa medida, queda no consumo de carnes.

Terceiro: A avicultura de postura brasileira é eficiente e capaz de produzir volumes enormes mantendo preços relativamente acessíveis — modelo que funciona do ponto de vista de segurança alimentar, mesmo com questões de bem-estar animal que precisam ser endereçadas.

Quarto: É possível crescer exportações sem desabastecer mercado interno, quando produção cresce adequadamente — exemplo positivo que outros setores deveriam seguir.

Quinto: Criatividade culinária é importante e válida, mas não deveria ser necessidade forçada por falta de renda para variar alimentação adequadamente.

Perspectivas e desafios

A tendência é que produção e consumo de ovos continuem crescendo nos próximos anos, impulsionados tanto por questões econômicas (outras proteínas continuando caras) quanto por reconhecimento crescente dos benefícios nutricionais.

Porém, o setor enfrenta desafios:

Bem-estar animal: Pressão crescente (especialmente de consumidores de maior renda e mercados exportadores) por transição para sistemas cage-free ou caipiras.

Sustentabilidade ambiental: Necessidade de gestão adequada de dejetos, redução de pegada de carbono da produção de ração, uso eficiente de recursos.

Oscilações de custo: Preço de milho e soja (que compõem a ração) afeta diretamente custo de produção de ovos, podendo pressionar preços ao consumidor.

Sanidade: Surtos de doenças aviárias (como influenza aviária) podem devastar plantéis, reduzindo oferta e elevando preços drasticamente.

Concorrência por proteínas alternativas: Surgimento de “ovos” vegetais, proteínas cultivadas em laboratório, outras alternativas podem (em futuro distante) competir com ovos convencionais.

Celebrar com consciência crítica

O recorde de 62,25 bilhões de ovos produzidos em 2025 e o aumento de 6,7% no consumo per capita são genuinamente positivos do ponto de vista de segurança alimentar — milhões de brasileiros estão tendo acesso a proteína de qualidade a preço acessível.

Porém, não podemos celebrar sem reconhecer o contexto: esse crescimento reflete, em grande medida, substituição forçada de outras proteínas que ficaram caras demais. Reflete famílias se adaptando a orçamentos cada vez mais apertados, fazendo escolhas não por preferência mas por necessidade econômica.

O ideal não é que todos comam apenas ovos porque é o único acessível. O ideal é que todas as famílias brasileiras tenham renda suficiente para escolher livremente entre ovos, carnes, peixes, queijos, proteínas vegetais variadas — consumindo de tudo com diversidade, não sendo forçadas a depender excessivamente de uma única opção barata. O ovo é excelente alimento que merece lugar de destaque na alimentação, mas não deveria ser a única proteína acessível enquanto outras viram artigos de luxo.