18/03/2026 15:42

Caminhoneiros articulam nova greve nacional por alta do diesel

Uma nova paralisação nacional de caminhoneiros começa a ganhar força em todo o Brasil, impulsionada principalmente pela alta expressiva no preço do diesel e pela insatisfação da categoria com medidas adotadas pelo governo federal. Apesar de ainda não haver uma data definida, lideranças do setor já confirmaram que o movimento deve ocorrer nas próximas semanas.

A articulação foi intensificada após uma reunião realizada no Porto de Santos, nesta segunda-feira, 16, considerada a primeira assembleia nacional para discutir uma mobilização da categoria. O encontro reuniu transportadores autônomos, cooperativas e representantes de diferentes estados, marcando um avanço na organização do movimento.

De acordo com o presidente da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores, Wallace Landim, conhecido como Chorão, a maioria das lideranças presentes já se posicionou a favor da paralisação.

“Hoje a maioria das lideranças de todos os Estados envolvidos decidiu que vai fazer uma paralisação. Mas precisamos seguir um trâmite legal, conversar com outras entidades e alinhar uma data dentro da legislação”, afirmou.

Segundo ele, essa foi a primeira reunião formal da categoria com esse objetivo, e agora o foco é ampliar o diálogo com outras entidades, cooperativas e associações regionais antes da convocação oficial.

A reunião contou com representantes de estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Paraná e Rio Grande do Sul. Apenas na Baixada Santista, sindicatos e cooperativas envolvidos representam milhares de profissionais, um sindicato reúne cerca de 5 mil associados, enquanto cooperativas locais somam aproximadamente 10 mil transportadores. A própria Abrava reúne cerca de 35 mil caminhoneiros.

A mobilização envolve não apenas caminhoneiros autônomos, mas também motoristas contratados por empresas, o que amplia o alcance e o potencial impacto da paralisação. Segundo Landim, há também possibilidade de adesão de transportadoras, já que toda a cadeia logística tem sido afetada.

“Todo mundo está na mesma dor. A transportadora diz que não consegue repassar o custo porque o embarcador não paga, e o autônomo que trabalha para ela também está sofrendo”, afirmou.

Impacto do aumento do diesel e a insatisfação dos caminhoneiros

O principal fator de insatisfação é a escalada recente do preço do diesel. Dados do painel da ValeCard apontam que o diesel S-10, o mais utilizado no país, acumulou alta de 18,86% desde 28 de fevereiro, período marcado pelo início da guerra no Oriente Médio, envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. Já o diesel comum teve aumento ainda maior, superior a 22% no mesmo intervalo.

Além disso, a gasolina subiu cerca de 10% e o etanol quase 9%, refletindo o cenário internacional de pressão sobre o petróleo e seus derivados.

Segundo o CEO da empresa, Alan Neto de Ávila, o momento é de grande incerteza no mercado de combustíveis, tanto em relação aos preços quanto à disponibilidade em algumas regiões do país.

“O aumento das tensões internacionais trouxe um cenário de muita incerteza, não apenas sobre o comportamento dos preços, mas também sobre a disponibilidade de combustível em algumas regiões”, afirmou.

A ferramenta da ValeCard, que monitora abastecimentos em cerca de 25 mil postos no Brasil, também indica volatilidade nos preços e possibilidade de restrições pontuais de abastecimento, o que aumenta a preocupação do setor.

Entre os caminhoneiros, as críticas vão além do aumento. Há relatos de grande variação de preços em curtas distâncias, o que reforça a percepção de práticas abusivas.

“Em cada dois quilômetros você encontra um preço diferente. Eu cheguei a ver diesel a R$ 6,29 descendo para Santos. O governo precisa fiscalizar as distribuidoras e revendedoras”, disse Chorão.

Outro problema crescente é a limitação no fornecimento. Em algumas regiões, postos passaram a estabelecer cotas de abastecimento entre 200 e 300 litros por caminhão, o que dificulta operações de longa distância.

“Tem posto que já está fazendo cota porque muita gente está com medo de o preço subir mais e vai abastecer várias carretas de uma vez”, relatou.

Impacto no agronegócio e setores produtivos

A situação já afeta diretamente setores produtivos, especialmente o agronegócio. O aumento do diesel e a dificuldade de abastecimento comprometem atividades como o plantio do milho safrinha e a finalização da colheita da soja, além de elevar os custos logísticos em toda a cadeia.

O presidente da Federação dos Caminhoneiros Autônomos de Cargas em Geral do Estado de São Paulo, Everaldo Bastos, afirma que há preocupação com o risco de desabastecimento e com a inviabilidade econômica da atividade.

Segundo ele, entidades sindicais estão mobilizadas e avaliam formas de apoio ao movimento, diante do cenário considerado crítico para o transporte rodoviário.

Medidas do Governo Federal e reivindicações da categoria

Paralelamente, já existem paralisações pontuais em diferentes regiões do país, organizadas por sindicatos e grupos independentes. Esses movimentos são vistos como um indicativo de que a mobilização pode ganhar escala nacional nos próximos dias.

Outro ponto central da insatisfação é a avaliação de que as medidas adotadas pelo governo federal não surtiram efeito prático. No dia 12 de março, foi anunciado um pacote emergencial com a zeragem das alíquotas de PIS e Cofins sobre o diesel, além de subsídios a produtores e importadores, com expectativa de reduzir o preço em até R$ 0,64 por litro.

No entanto, no dia seguinte, a Petrobrás anunciou aumento no preço do diesel nas refinarias, cerca de R$ 0,38 por litro, com alta de 11,6% no diesel A, o que, segundo os caminhoneiros, anulou completamente os efeitos da redução tributária.

A estatal justificou o reajuste com base na alta do petróleo no mercado internacional, impulsionada pelo conflito no Oriente Médio.

Além disso, o governo federal informou que pretende reforçar a fiscalização da cadeia de combustíveis, com integração de dados da Receita Federal e da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, para identificar possíveis distorções e práticas abusivas na formação de preços.

Mesmo assim, há forte ceticismo entre os caminhoneiros. Segundo Landim, o diálogo com o governo tem sido recorrente, mas sem decisão concreta.

Outro ponto de reivindicação da categoria é o cumprimento da Lei 13.703 de 2018, que estabelece o piso mínimo do frete. Segundo os caminhoneiros, há falhas na fiscalização por parte da Agência Nacional de Transportes Terrestres, o que faz com que muitos profissionais aceitem valores abaixo do mínimo para não perder trabalho.

A categoria também pede medidas como isenção de pedágio para caminhões vazios e maior rigor na fiscalização de distribuidoras e postos.

O movimento ocorre em um contexto mais amplo de tensão entre o governo federal e os estados. Recentemente, governadores recusaram um pedido para reduzir o ICMS sobre o diesel, alegando perdas anteriores de arrecadação e apontando que reduções nem sempre são repassadas ao consumidor final.

Dados nacionais da categoria

Atualmente, o Brasil conta com cerca de 790 mil caminhoneiros autônomos e aproximadamente 750 mil motoristas contratados. A dimensão da categoria faz com que qualquer paralisação tenha potencial de provocar impactos significativos no abastecimento, na inflação e na economia como um todo.

Diante desse cenário, as lideranças afirmam que o movimento está em estado de alerta. Novas reuniões devem ocorrer nos próximos dias e, caso haja consenso entre as entidades, uma paralisação nacional poderá ser oficialmente convocada.

“Se todo mundo estiver de acordo, a gente informa a data. A paralisação é a única forma que o caminhoneiro tem para lutar pela sobrevivência”, concluiu Chorão.

*Informações da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores e Notícias Agrícolas

Gabriela Porto, RCN 67 – Foto: Getty Images | BNDES