Em dezembro de 2025, enquanto o mercado brasileiro ainda assimilava os números recordes do início do ano, a China decidiu mudar as regras do jogo. No dia em que anunciou novas salvaguardas para proteger seu mercado interno, Pequim atingiu diretamente o principal parceiro comercial da carne bovina brasileira.
A China respondeu por cerca de 50% das exportações do Brasil em 2025, somando quase 1,7 milhão de toneladas. A partir de 2026, porém, o volume com tarifa reduzida de 12% passou a integrar uma cota global de 10 milhões de toneladas. Dentro desse limite, o Brasil ficou com 1,1 milhão de toneladas, uma redução aproximada de 35% em relação ao ano anterior. O que ultrapassar esse teto será taxado entre 55% e 67%, percentuais que, na prática, inviabilizam o embarque.
A medida chinesa veio após meses de queda nos preços internos da carne no país asiático, pressionados por excesso de oferta e consumo enfraquecido em meio à desaceleração econômica global. Em Pequim, a decisão foi apresentada como instrumento de equilíbrio doméstico. Em Brasília, o sinal soou como alerta.
Em janeiro de 2026, o Brasil havia registrado US$ 1,4 bilhão em exportações de carne bovina, alta de 26% e recorde histórico para o mês. O desempenho reforçava o protagonismo brasileiro como maior exportador mundial do produto. Mas a dependência do mercado chinês também expôs a vulnerabilidade estrutural do setor.
Foi nesse contexto que o Ministério da Agricultura e Pecuária passou a discutir uma proposta de controle das exportações destinadas à China. A ideia, formalizada em ofício enviado à Câmara de Comércio Exterior, prevê a criação de um sistema nacional de cotas. O volume de 1,1 milhão de toneladas seria distribuído entre os 67 frigoríficos habilitados com base no histórico recente de vendas. O plano inclui ainda uma reserva técnica para novos e pequenos exportadores, limites trimestrais para evitar concentração de embarques no início do ano e controle operacional por meio de licenças no Siscomex, com bloqueio automático de volumes excedentes.
O argumento do governo é que, sem coordenação, poderia haver uma corrida antecipada aos portos, com empresas tentando garantir espaço dentro da cota antes que ela se esgote. Esse movimento, segundo a avaliação oficial, poderia provocar desorganização na cadeia produtiva, queda abrupta de preços internos e impactos sobre produtores rurais e empregos no setor.
A proposta divide o mercado. Parte do setor agropecuário defende negociações diplomáticas com a China para flexibilizar a aplicação das cotas, como a exclusão de estoques já em trânsito ou a redistribuição de volumes não utilizados por outros países exportadores. Associações representativas têm pressionado por uma solução que preserve competitividade sem ampliar a intervenção estatal.
Há também preocupação com os efeitos sobre o superávit comercial brasileiro. A carne bovina ocupa posição central na pauta exportadora e integra um agronegócio que representa aproximadamente 27% do Produto Interno Bruto. Ao mesmo tempo, o governo lembra que, nos últimos três anos, foram abertos 27 novos mercados internacionais, movimento que busca reduzir a dependência de um único comprador.
Se a limitação chinesa persistir, parte da produção poderá ser redirecionada ao mercado interno. Em tese, maior oferta tende a pressionar preços para baixo, beneficiando consumidores. No campo, porém, a redução de margens pode afetar decisões de investimento e produção nos próximos ciclos.
A decisão sobre o modelo de controle deve avançar ao longo de fevereiro de 2026. Independentemente do formato final, o episódio evidencia uma realidade conhecida no comércio internacional: liderança não elimina vulnerabilidades. O Brasil domina o mercado global de carne bovina, mas ainda depende fortemente de um único destino.
Quando Pequim ajusta suas tarifas, Brasília precisa recalcular seus volumes. Entre diplomacia, mercado e política interna, o preço da carne passa a refletir não apenas oferta e demanda, mas também geopolítica.
Iury de Oliveira/A Crítica – Foto: Divulgação






