Apesar de pautar a transição energética e o fim dos combustíveis fósseis, a estrutura da COP30 depende da queima de diesel para funcionar 24 horas por dia
A COP30 começou oficialmente nesta segunda-feira (11) em Belém (PA), reunindo chefes de Estado, diplomatas, cientistas e ativistas do mundo inteiro. Entre as principais pautas da conferência climática da ONU estão a redução de emissões e a transição energética global. No entanto, a própria infraestrutura do evento tem chamado atenção pela contradição: são 160 geradores movidos a diesel que fornecem energia para todo o complexo da Zona Azul, onde ocorrem as principais discussões.
Diesel para refrigerar, iluminar e conectar
O funcionamento ininterrupto desses geradores garante não apenas a iluminação e os servidores de internet, mas também alimenta os enormes aparelhos de ar-condicionado que mantêm a temperatura estável nos ambientes climatizados — contrastando com os mais de 30 °C do lado de fora, típicos desta época do ano em Belém.
O uso de óleo diesel, um dos combustíveis fósseis mais poluentes, vai contra o próprio edital do evento, que previa prioridade para geradores abastecidos com biocombustíveis renováveis, especialmente o biodiesel B100. Apesar disso, a organização firmou acordo com a Petrobras para fornecimento de diesel R10, com apenas 10% de conteúdo renovável, além dos 15% obrigatórios por lei.
Segundo nota da OEI (Organização dos Estados Ibero-Americanos), a decisão foi tomada por questões de viabilidade logística e compatibilidade com os equipamentos contratados. A Petrobras, por sua vez, afirma que o diesel cedido oferece até 85% de redução nas emissões da parte renovável, mas ainda contém 75% de diesel mineral.
Simbolismo questionado
Para ambientalistas e entidades do setor de biocombustíveis, a escolha do diesel enfraquece o simbolismo da COP. Segundo o Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), eventos desse porte deveriam priorizar fontes menos impactantes — ainda que reconheçam a complexidade logística.
No manual da ONU para cidades-sede, há recomendações explícitas para priorização de fontes alternativas e baixo carbono, como energia solar ou óleo vegetal tratado. Apesar disso, a estrutura da COP30 foi montada com base na solução mais disponível e segura na região amazônica: o diesel.
Energia não falta — mas infraestrutura sim
O Estado do Pará conta com duas das maiores hidrelétricas do país (Tucuruí e Belo Monte) e está conectado ao sistema elétrico nacional. Ainda assim, segundo a concessionária Equatorial Energia, a demanda concentrada e temporária da COP poderia gerar aumento tarifário aos consumidores se fosse atendida por meio da infraestrutura permanente. Daí a decisão de instalar geradores provisórios, com custo estimado de R$ 38 milhões em contrato licitado.
A disputa entre petróleo e renováveis
A contradição entre discurso e prática se intensifica diante do atual cenário político-energético do Brasil. Apesar dos avanços no combate ao desmatamento, o governo federal tem sido criticado por tentar ampliar a exploração de petróleo na Foz do Amazonas. Inclusive, a Petrobras obteve autorização para pesquisar nessa área semanas antes da COP30.
Paralelamente, iniciativas como o uso de ônibus elétricos no transporte oficial da COP e veículos híbridos pelas delegações internacionais mostram que há caminhos alternativos sendo explorados — ainda que não suficientes para neutralizar o impacto da escolha energética do evento.
A transição que ainda não chegou
A COP30 traz à tona um dos maiores desafios da agenda climática: a transição energética, que depende não apenas de vontade política, mas de logística, tecnologia e investimentos. A queima de combustíveis fósseis ainda representa 80% da matriz energética global, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE).
No Brasil, a situação é menos grave: 88% da energia elétrica vem de fontes renováveis, mas a matriz energética total ainda é dividida entre renováveis e fósseis. A queima de combustíveis fósseis para geração de energia é a terceira maior fonte de emissões do país, atrás do desmatamento e da agropecuária.








