03/02/2026 05:08

Déficit de armazenagem desafia expansão agrícola e abre oportunidades de investimento em Mato Grosso do Sul

Com uma produção de grãos que, nos últimos cinco anos, ultrapassou a marca de 22 milhões de toneladas entre soja e milho, Mato Grosso do Sul enfrenta um gargalo que ameaça a competitividade do agronegócio: o déficit de armazenagem. Segundo estudo da Aprosoja, elaborado com base em dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e do Sistema de Informação Geográfica do Agronegócio (SIGA/MS), o Estado possui uma defasagem superior a 11 milhões de toneladas.

A capacidade instalada atual é de 16,4 milhões de toneladas, frente a uma necessidade estimada de 27,5 milhões, conforme parâmetros da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura). O resultado é um déficit de 67,8%, que obriga produtores a venderem a safra logo após a colheita, muitas vezes sem conseguir aproveitar períodos de melhor preço no mercado.

A análise histórica demonstra que, embora a infraestrutura tenha avançado, o ritmo de expansão do armazenamento não acompanha o crescimento da produção agrícola. Entre 2014 e 2025, a capacidade de armazenagem saltou de 9,01 milhões para 16,39 milhões de toneladas, um aumento de 82%. No mesmo período, a produção passou de 17,23 milhões para 29,11 milhões de toneladas, crescimento de 69%. O descompasso fez o déficit crescer de 8,25 milhões para 12,72 milhões de toneladas, avanço de 54%. Em 2023, o desequilíbrio chegou ao recorde de 21,23 milhões de toneladas, reflexo de uma safra excepcional.

Para o secretário de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), Jaime Verruck, os números revelam tanto um desafio estrutural quanto uma oportunidade de investimentos. “O Governo de Mato Grosso do Sul tem direcionado esforços para estimular a armazenagem em propriedades rurais, especialmente por meio de linhas de crédito como as do FCO (Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste). O FCO oferece prazos mais longos e juros competitivos, o que torna possível viabilizar projetos de armazenagem”, destacou.

Verruck defende ainda o retorno de modelos de financiamento específicos, como os antigos programas do BNDES voltados à construção de armazéns. “Hoje, construir armazéns com recursos atrelados à taxa Selic inviabiliza economicamente o empreendimento”, pontuou.

O estudo mostra que 73 dos 78 municípios analisados apresentam déficit de armazenagem. Maracaju, maior produtor de grãos do Estado, acumula um déficit de 1,32 milhão de toneladas, enquanto Dourados é uma das poucas exceções, com superávit de 2,35 milhões. Outro dado relevante é a concentração: apenas cinco municípios concentram 49% da capacidade total de armazenagem, embora respondam por 38% da produção estadual.

Projeções e desafios futuros

As projeções indicam que o problema tende a se agravar caso novos investimentos não sejam realizados. A safra nacional de grãos deve chegar a 350,2 milhões de toneladas em 2025, aumento de 16,3% em relação a 2024. Para Mato Grosso do Sul, a expansão exigirá mais infraestrutura. “É fundamental ampliar o acesso ao crédito, especialmente com recursos como o FCO. Essa é uma estratégia essencial para dar sustentação ao produtor e fortalecer a formação de preços no Estado”, reforçou o secretário.

Sem avanços proporcionais na infraestrutura, o risco é claro: aumento das perdas pós-colheita, elevação dos custos logísticos e sobrecarga nas rotas de escoamento. A concentração dos armazéns e a dependência do modal rodoviário, especialmente ao longo da BR-163, criam gargalos logísticos que comprometem a rentabilidade. “A questão da armazenagem está diretamente ligada à logística. A falta de capacidade adequada impede o produtor de negociar melhor. Ampliar a armazenagem nas propriedades rurais é o principal desafio, a escassez de espaço força o produtor a vender rápido, e muitas vezes a preços menores”, admitiu Verruck.

Caminhos para o equilíbrio

O secretário avalia que o estudo da Aprosoja/MS reforça a necessidade urgente de enfrentar o déficit para garantir o crescimento sustentável do agronegócio. “Apesar do desequilíbrio atual, há ações em andamento, como o apoio aos produtores por meio do FCO e o fortalecimento das cooperativas com o Procoop. Essas iniciativas buscam aproveitar as oportunidades nas regiões de expansão e fomentar o desenvolvimento da infraestrutura de armazenagem”, explicou.

Entre as medidas estruturantes, Verruck cita ainda projetos que ampliam a competitividade logística do Estado, como a reativação da malha ferroviária, o uso da hidrovia do Rio Paraguai e a implantação da Rota Bioceânica, corredores que devem reduzir custos e diversificar os modais de transporte.

O secretário também chama atenção para um novo desafio: a diversificação da base produtiva sul-mato-grossense. “Há uma necessidade crescente de ampliar a capacidade de armazenagem segregada para diferentes culturas, além da soja e do milho. O sorgo, por exemplo, demanda soluções específicas. A falta de locais adequados, somada ao uso dos mesmos armazéns para diferentes grãos, limita o escoamento e a qualidade da produção”, concluiu.

Angela Schafer, de Campo Grande/Foto: Mairinco de Paula