O agronegócio brasileiro, principalmente o mercado de arroz, monitora com atenção os desdobramentos do ataque americano à Venezuela. Isso porque o país sempre figura entre os maiores importadores do cereal nacional, sendo que na safra 2025/26 comprou 165 mil toneladas.
Conforme Denis Dias Nunes, presidente da Federarroz (Federação dos Arrozeiros do Rio Grande do Sul), esse volume representou 13% do volume total exportado pelo país, de 1,3 milhão de toneladas, entre março e novembro (a safra de arroz começa em março e vai até fevereiro de cada ano). Esse volume fez a Venezuela ultrapassar o Senegal e a Costa Rica para se tornar o maior importador de arroz em casca brasileiro.
Monitoramento sem pânico
“Estamos monitorando se haverá qualquer tipo de intercorrência neste comércio, mas não me parece que teremos problemas. A principal trading de arroz é americana”, afirmou Denis Dias Nunes, referindo-se à ADM (Archer Daniels Midland). “Talvez tenhamos até mais oportunidades de venda.”
A avaliação do presidente da Federarroz é otimista mas cautelosa. O fato de a principal trading que opera esse comércio ser americana (ADM) pode significar tanto facilitação quanto complicação, dependendo de como os Estados Unidos decidem usar controle sobre Venezuela.
Se os EUA quiserem manter Venezuela abastecida de alimentos básicos (arroz entre eles) para evitar crise humanitária que geraria pressão política internacional, o comércio pode continuar normalmente ou até se expandir. Se, por outro lado, optarem por sanções mais duras que incluam alimentos, o fluxo pode ser interrompido.
A observação de que “talvez tenhamos até mais oportunidades de venda” pode refletir cenário onde Venezuela, sob controle ou influência americana, aumenta compras de produtos brasileiros como forma de normalizar situação alimentar do país após anos de crise sob Maduro.
Venezuela: comprador relevante mas não único
Em 2025, de janeiro a novembro, o Brasil vendeu para a Venezuela US$ 474,5 milhões em produtos agropecuários, segundo o ComexStat — plataforma do Ministério da Indústria e Comércio —, 9% a mais que no mesmo período de 2024. Além do arroz, o país vendeu cereais, soja, açúcar e carnes.
O crescimento de 9% nas exportações agrícolas para Venezuela em 2025 (comparado a 2024) mostra que, apesar da crise política e econômica severa que o país enfrenta há anos, o comércio bilateral na área de alimentos vinha se mantendo e até crescendo. Isso reflete necessidade básica: a população venezuelana precisa comer, e a produção doméstica colapsou, tornando importações essenciais.
As importações brasileiras do agro venezuelano foram mínimas, com menos de US$ 400 mil entre janeiro e novembro. Entre os principais produtos recebidos pelo Brasil estão adubos e fertilizantes e farinha de arepa e pescados.
A assimetria é brutal: Brasil vende US$ 474,5 milhões, compra US$ 400 mil — uma relação de mais de 1.000 para 1. Isso mostra que Venezuela tem pouquíssimo a oferecer ao Brasil em termos de produtos agrícolas, enquanto depende enormemente de importações brasileiras para alimentar sua população.
Arroz: commodity estratégica
O arroz é alimento básico absolutamente essencial para milhões de pessoas globalmente, incluindo na Venezuela. É commodity estratégica porque está diretamente ligada à segurança alimentar — populações que dependem de arroz como alimento principal não podem simplesmente substituí-lo por outros grãos sem impactos nutricionais e culturais significativos.
Para o Brasil, especificamente para o Rio Grande do Sul (maior produtor nacional de arroz), a Venezuela representar 13% das exportações da safra 2025/26 é relevante. Não é volume gigantesco que comprometeria todo o setor se perdido, mas é suficientemente significativo para que produtores e exportadores gaúchos prestem atenção.
Se o mercado venezuelano for mantido ou expandido, é positivo para arrozeiros brasileiros. Se for perdido, será necessário redirecionar essas 165 mil toneladas para outros compradores (Senegal, Costa Rica, outros países africanos e latino-americanos), o que pode pressionar preços para baixo temporariamente até novos equilíbrios serem encontrados.
O papel das tradings
A observação de Denis Dias Nunes sobre a ADM (trading americana) ser a principal operadora desse comércio é crucial para entender a dinâmica.
Tradings gigantes como ADM, Cargill, Bunge, Louis Dreyfus controlam enorme parcela do comércio global de commodities agrícolas. Elas compram de produtores em países exportadores (Brasil, Argentina, EUA, etc.), transportam, armazenam, vendem para importadores em países compradores (Venezuela, países africanos, asiáticos, etc.).
Essas empresas operam globalmente mas são baseadas principalmente em EUA e Europa, o que significa que estão sujeitas a sanções e regulações americanas e europeias. Se EUA impõem sanções proibindo comércio com Venezuela, tradings americanas como ADM são legalmente obrigadas a interromper operações, independente de lucratividade.
Porém, se EUA decidem permitir ou até incentivar comércio de alimentos (como forma de estabilizar Venezuela), essas mesmas tradings facilitam e expandem operações rapidamente.
Dependência de mercados instáveis
A situação expõe novamente a vulnerabilidade de depender de mercados politicamente instáveis. Venezuela foi, durante décadas, país relativamente próspero com economia baseada em petróleo. Nas últimas duas décadas, especialmente sob Chávez e Maduro, entrou em colapso econômico e político profundo, com hiperinflação, escassez generalizada, emigração massiva.
Apesar disso, continuou sendo comprador importante de alimentos brasileiros simplesmente porque população precisa comer e produção doméstica desmoronou. Agora, com intervenção militar americana, há mais uma camada de incerteza: o país pode estabilizar e aumentar compras, ou pode entrar em caos ainda maior com sanções, conflitos, fragmentação.
Para produtores brasileiros de arroz (e outros produtos agrícolas), essa instabilidade crônica significa que contratos com Venezuela sempre carregam risco geopolítico elevado. Preços podem ser atrativos (países em crise frequentemente pagam mais porque têm poucas opções), mas risco de não receber pagamento, de cargas serem bloqueadas, de mudanças políticas abruptas interromperem comércio é real.
Diversificação continua sendo chave
A lição para o setor arrozeiro brasileiro (e para agronegócio em geral) é a mesma que aparece repetidamente: diversificação de mercados é fundamental para reduzir vulnerabilidade a choques políticos em países específicos.
Se Brasil exportasse 50% ou 60% do arroz apenas para Venezuela, qualquer problema lá seria catastrófico para produtores brasileiros. Com Venezuela representando 13%, é relevante mas não fatal se perdido — há margem para realocar para outros compradores.
Continuar expandindo mercados na África (que tem demanda crescente por arroz), Oriente Médio, outros países latino-americanos, além de fortalecer consumo doméstico, são estratégias que reduzem dependência de qualquer comprador individual.
Perspectivas incertas mas manejáveis
A postura da Federarroz — monitoramento atento mas sem pânico, reconhecendo possibilidades tanto de problemas quanto de oportunidades — parece apropriada para o momento.
O setor de arroz brasileiro está em posição relativamente confortável: Venezuela é comprador importante mas não dominante, existem alternativas de mercado, a principal trading é americana (o que pode facilitar continuidade se EUA permitirem), e a demanda global por arroz continua robusta.
Porém, a situação reforça que geopolítica importa para agronegócio. Decisões tomadas em Washington, Caracas, Pequim sobre alianças, sanções, intervenções militares afetam diretamente se agricultores gaúchos conseguem vender arroz e a que preços.
O mercado de arroz brasileiro monitora atentamente a crise Venezuela-EUA sabendo que 13% das exportações podem estar em jogo — mas com realismo de que diversificação de mercados e presença de trading americana nas operações oferecem alguma proteção contra choques mais severos. A próxima safra dirá se a intervenção americana na Venezuela significou perda, manutenção ou até expansão desse mercado para o arroz gaúcho.
Fonte: Portal do Agronegócio







