As exportações de carne bovina do Brasil para a Argentina dispararam em 2025, revelando como as políticas protecionistas dos Estados Unidos acabaram reorganizando todo o mercado global de proteína animal — e, contraditoriamente, fortalecendo a posição comercial brasileira.
De janeiro a outubro, foram vendidas 11 mil toneladas de carne para o país vizinho, volume mais de 20 vezes maior do que as modestas 526 toneladas embarcadas no mesmo período do ano passado, segundo dados do Ministério da Agricultura.
Embora a Argentina ainda não figure entre os principais compradores do Brasil — o volume representa menos de 1% do que a China, maior cliente da carne brasileira, adquire —, o crescimento explosivo revela movimentos estratégicos e dificuldades estruturais que merecem atenção.
O tarifaço que mudou o jogo
O tarifaço imposto pelo governo Trump ao Brasil a partir de abril criou um efeito dominó inesperado no mercado global de carnes. Segundo analistas, a sobretaxa estimulou os argentinos, quinta maior produtora mundial de carne (atrás apenas de EUA, Brasil, China e Índia), a direcionarem mais produto para o mercado americano.
Com mais exportação para os Estados Unidos, os produtores argentinos recorreram à carne brasileira para não desfalcar o abastecimento interno — afinal, a Argentina tem o maior consumo de carne bovina por pessoa no mundo, uma tradição cultural profundamente arraigada.
O pico na compra de carne brasileira pelos argentinos aconteceu em setembro, um mês depois de Trump aumentar para 50% a sobretaxa para o Brasil, que só foi retirada em novembro. O timing não é coincidência: é estratégia comercial.
“Países como Paraguai, Argentina e Austrália, que são grandes produtores e exportadores de carne bovina, têm comprado muita carne do Brasil. Eles pegam a sua própria carne e enviam para os Estados Unidos, e pegam a do Brasil para abastecer o seu mercado interno”, explicou Lygia Pimentel, CEO da consultoria Agrifatto.
Vale destacar que essa prática é perfeitamente legal e não configura triangulação — seria ilegal se comprassem carne brasileira e a enviassem aos EUA como se fosse de outro país.
Crise produtiva argentina abre espaço para o Brasil
Mas não foram apenas as tarifas americanas que impulsionaram as compras argentinas. A história começa antes, com uma crise produtiva estrutural no país vizinho.
As vendas já alcançavam patamares altos em fevereiro, dois meses antes de os EUA anunciarem a primeira sobretaxa ao Brasil. O motivo: a produção argentina vem caindo consistentemente nos últimos anos.
Segundo Fernando Henrique Iglesias, consultor do Safras & Mercados, o aumento nas compras aconteceu porque a produção argentina diminuiu devido a secas e medidas econômicas desastrosas do governo anterior.
“No início desta década, os efeitos do La Niña acabaram afetando a taxa de prenhez das vacas na Argentina. O custo para produzir ficou muito alto e isso acabou gerando um encolhimento de rebanho”, explica Iglesias.
Os números do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) confirmam: de 2023 a 2025, a quantidade de bovinos na Argentina caiu de 68,8 milhões para 67 milhões de cabeças. A previsão para 2025 é de queda adicional de 100 mil toneladas em relação a 2024.
O legado desastroso das políticas de Fernández
As políticas econômicas do ex-presidente argentino Alberto Fernandéz, que governou entre 2019 e 2023, também contribuíram significativamente para a crise do setor.
Apenas quatro dias depois de assumir o governo, Fernandéz implementou taxas de exportação a diversos produtos agropecuários, inclusive uma sobretaxa de 9% à carne bovina. Mais tarde, em maio de 2021, ele suspendeu completamente as exportações de carne por 30 dias.
Essas medidas intervencionistas, embora buscassem controlar preços internos, acabaram desestimulando a produção e enfraquecendo estruturalmente o setor pecuário argentino — um exemplo claro de como políticas mal planejadas prejudicam trabalhadores rurais e a economia nacional.
Milei na contramão: liberalismo que estimula exportação
O atual governo liberal de Javier Milei tentou reverter o quadro, seguindo a cartilha oposta do antecessor. Ele não somente reduziu a taxa para exportação da carne bovina, como a zerou completamente entre 22 de setembro e 31 de outubro deste ano.
Segundo Thiago Bernardino de Carvalho, responsável pela área de pecuária no Cepea/USP, essas medidas estimularam o aumento das exportações argentinas — especialmente para os EUA, onde as vendas cresceram 7,5% no período.
“Com a Argentina podendo exportar mais, sobra menos carne no mercado doméstico, o preço sobe e ela vem para mercados como o brasileiro para comprar mais carne”, explica Carvalho.
Contudo, os dados mostram que as exportações totais de carne da Argentina caíram 10,5% em volume entre janeiro e outubro, em relação ao mesmo período de 2024, puxadas por diminuição nas compras da China. Ou seja: mesmo com liberalização, a crise estrutural persiste.
A vantagem competitiva brasileira
Além da proximidade geográfica, o Brasil oferece outro atrativo fundamental: tem a carne mais barata do mercado internacional.
Segundo dados da Agrifatto, enquanto o preço do boi no Brasil está custando, em média, US$ 61, na Argentina ele chega a US$ 74,8. No Uruguai, a cotação alcança US$ 75,7 e, no Paraguai, US$ 64,5.
Essa competitividade de preços, combinada com capacidade produtiva robusta e qualidade reconhecida internacionalmente, posiciona o Brasil como fornecedor natural para países que precisam complementar seu abastecimento.
Perspectivas para o futuro
Embora as compras argentinas tenham recuado em outubro na comparação com o pico de setembro, ainda seguem em patamar muito superior ao de um ano atrás.
Segundo Iglesias, a tendência é que o Brasil continue aumentando as vendas para a Argentina. “Como a produção argentina deve ficar deprimida em 2026, isso deve incentivar mais as importações”, projeta o consultor.
Essa perspectiva é positiva para pecuaristas brasileiros, mas revela uma preocupação humanitária: trabalhadores rurais argentinos enfrentam uma crise estrutural que ameaça empregos e a tradicional cultura pecuária do país.
Lições de um mercado em transformação
O caso das exportações de carne para a Argentina oferece várias lições importantes:
Primeiro, políticas protecionistas como o tarifaço de Trump geram consequências inesperadas e reorganizam cadeias globais de forma nem sempre prevista pelos seus idealizadores.
Segundo, intervenções mal planejadas na economia — como as taxações de Fernández — podem causar danos estruturais duradouros aos setores produtivos e aos trabalhadores.
Terceiro, a competitividade brasileira no setor de carnes não é acidental: resulta de décadas de investimento em tecnologia, genética, manejo e escala produtiva.
Quarto, mesmo políticas liberalizantes como as de Milei não conseguem reverter rapidamente crises estruturais causadas por anos de desinvestimento e más políticas.
Solidariedade com trabalhadores argentinos
Enquanto o Brasil se beneficia comercialmente da situação, é importante manter perspectiva humanitária. Por trás dos números estão trabalhadores rurais argentinos enfrentando dificuldades, famílias de pecuaristas vendo gerações de tradição ameaçadas, comunidades inteiras dependentes de uma atividade em crise.
A solidariedade latino-americana não se contradiz com o aproveitamento de oportunidades comerciais legítimas, mas exige que reconheçamos as dificuldades enfrentadas por trabalhadores em países vizinhos.
O crescimento das exportações brasileiras de carne para a Argentina é positivo para nossa economia, mas deve nos lembrar da importância de políticas públicas consistentes, investimento contínuo em setores produtivos e solidariedade com trabalhadores de toda a América Latina que enfrentam as consequências de decisões políticas e econômicas nem sempre acertadas.
Fonte: G1








