O mercado brasileiro de feijão iniciou dezembro revelando uma contradição que simboliza perfeitamente os dilemas do agronegócio nacional: enquanto o mercado interno segue em ritmo morno, com negociações pontuais apenas para reposição de estoques, as exportações bateram recorde histórico absoluto, com mais de meio milhão de toneladas embarcadas para o exterior.
A situação levanta uma questão fundamental: por que um país continental, com milhões de brasileiros enfrentando insegurança alimentar, prioriza exportar um alimento básico da dieta nacional em volumes recordes enquanto o mercado doméstico opera de forma limitada e com preços que pesam no bolso das famílias?
De acordo com pesquisadores do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), as negociações no mercado spot seguem ocorrendo de forma pontual, principalmente quando há necessidade de reposição de estoques — sinal de que não há abundância circulando domesticamente, apesar da produção recorde sendo enviada para fora.
Carioca firme, preto em queda: dois brasis no mesmo grão
O comportamento dos preços das duas principais variedades de feijão consumidas no Brasil revela dinâmicas distintas que refletem questões de qualidade, preferência regional e disponibilidade.
Feijão carioca: qualidade sustenta preços
No caso do feijão carioca — variedade preferida em grande parte do Sudeste e Centro-Oeste —, os preços seguem firmes, influenciados pelo comportamento da demanda e, principalmente, pela oferta restrita de produtos de alta qualidade.
Essa limitação de grãos premium tem mantido as cotações elevadas nas principais praças produtoras, já que muitos consumidores — especialmente atacadistas, redes de supermercados e consumidores de maior poder aquisitivo — priorizam esse padrão para o abastecimento de fim de ano.
Aqui está uma questão importante: o feijão de “alta qualidade” tem preço sustentado, mas e as famílias de baixa renda que precisam de feijão básico, acessível, para garantir proteína na alimentação diária? A segmentação do mercado por qualidade muitas vezes significa que os mais pobres ficam com produto de qualidade inferior ou simplesmente não conseguem comprar.
Feijão preto: oferta ampla pressiona preços
O cenário é diferente para o feijão preto — variedade tradicional especialmente no Sul do Brasil e no Rio de Janeiro. Essa variedade apresenta queda nas cotações em razão da elevada oferta no mercado interno.
De acordo com o Cepea, o excesso de produto disponível tem reduzido o poder de barganha do produtor e limitado novas negociações — dinâmica que, embora prejudique a renda dos agricultores, pelo menos teoricamente deveria beneficiar consumidores com preços mais baixos.
Ainda assim, o grão segue com boa procura em algumas regiões, especialmente nas que tradicionalmente consomem essa variedade, mantendo alguma estabilidade nas transações.
O recorde que expõe prioridades equivocadas
No mercado externo, o Brasil alcançou um recorde histórico absoluto de exportações de feijão. Dados da Secex (Secretaria de Comércio Exterior) mostram que, entre janeiro e novembro de 2025, o país embarcou impressionantes 501,2 mil toneladas — o maior volume já registrado desde o início da série histórica, em 1997.
Para dimensionar: são mais de meio milhão de toneladas de feijão — alimento básico da dieta brasileira, fonte essencial de proteína vegetal acessível, componente fundamental da segurança alimentar nacional — sendo enviadas para o exterior enquanto o mercado doméstico opera em “ritmo morno” com “negociações pontuais”.
Esse desempenho, comemorado como vitória pelo agronegócio exportador, reforça a “crescente competitividade do feijão brasileiro no mercado internacional, sustentada pela qualidade do produto e pela diversificação dos destinos compradores”.
Mas é preciso fazer a pergunta desconfortável: competitividade para quem? Vitória para quem?
A contradição estrutural do agro brasileiro
O Brasil é um dos maiores produtores mundiais de alimentos. Temos tecnologia agrícola avançada, vastas extensões de terra agricultável, clima favorável, conhecimento técnico acumulado. Produzimos comida suficiente para alimentar nossa população várias vezes e ainda exportar enormes volumes.
E, no entanto, segundo dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN), mais de 33 milhões de brasileiros enfrentavam situação de insegurança alimentar grave (fome) em levantamento recente, e mais de 125 milhões viviam em algum grau de insegurança alimentar.
Como é possível que um país que produz e exporta recordes de alimentos básicos como feijão tenha dezenas de milhões de pessoas passando fome ou sem ter o que comer adequadamente?
A resposta está na estrutura do agronegócio brasileiro, que prioriza sistematicamente a exportação de commodities em detrimento do abastecimento alimentar interno acessível.
Feijão nas prateleiras: o preço que o brasileiro paga
Enquanto exportamos volumes recordes, o brasileiro que vai ao supermercado encontra feijão com preços que pesam significativamente no orçamento familiar.
Dados recentes mostram que o feijão carioca, em muitas regiões, alcançou valores próximos ou superiores a R$ 10,00 o quilo no varejo — preço proibitivo para famílias de baixa renda que dependem do grão como fonte principal de proteína.
É verdade que os preços oscilam por região, época do ano, qualidade do produto. Mas a tendência geral nos últimos anos tem sido de pressão altista, especialmente quando o mercado externo está aquecido e “puxa” o produto para fora, retirando oferta do mercado doméstico.
A lógica é simples e perversa: se posso exportar feijão por preço X em dólar, por que venderia no mercado interno por valor menor? O mercado externo estabelece um “piso” de preço que eleva as cotações domésticas, beneficiando exportadores e grandes produtores, mas penalizando consumidores brasileiros que veem alimento básico ficar mais caro.
Quem se beneficia do recorde?
Os recordes de exportação beneficiam principalmente:
Grandes produtores com escala suficiente para acessar mercado externo, cumprir exigências fitossanitárias internacionais, negociar em dólar.
Trading companies e exportadoras que intermediam as vendas externas, capturando margens significativas.
O saldo comercial brasileiro, que melhora com entrada de divisas — argumento sempre usado para justificar priorização das exportações.
Mas raramente beneficiam:
Pequenos produtores de feijão, geralmente da agricultura familiar, que não têm escala nem acesso para exportar e vendem no mercado doméstico com margens apertadas.
Consumidores brasileiros de baixa renda, que precisam de feijão barato e acessível mas encontram preços elevados por pressão do mercado externo.
A segurança alimentar nacional, que fica vulnerável quando priorizamos exportação de alimentos básicos em detrimento do abastecimento interno robusto.
Mercado interno “morno”: sinal de problema estrutural
Quando o Cepea descreve o mercado interno como operando em “ritmo morno” com “negociações pontuais” apenas para “reposição de estoques”, isso não é sinal de saúde — é sinal de problema.
Um mercado doméstico robusto e saudável de um alimento básico deveria ter circulação constante, negociações ativas, estoques reguladores que garantam abastecimento contínuo e preços estáveis.
O fato de estarmos exportando volumes recordes enquanto o mercado interno opera de forma limitada sugere que a prioridade é claramente o mercado externo, não o abastecimento da população brasileira.
O que seria necessário para priorizar segurança alimentar
Para equilibrar exportações com garantia de segurança alimentar interna, seriam necessárias políticas como:
Estoques reguladores públicos robustos de feijão e outros alimentos básicos, que permitam ao governo intervir liberando produto quando preços domésticos sobem excessivamente, protegendo consumidores.
Políticas de abastecimento popular como restaurantes comunitários, mercados públicos com preços subsidiados, programas de distribuição de cestas básicas que garantam acesso a alimentos essenciais independentemente das oscilações de mercado.
Priorização legal do abastecimento interno sobre exportações em momentos de pressão sobre preços domésticos ou insegurança alimentar — o que acontece em diversos países que, mesmo sendo grandes exportadores, garantem primeiro que sua população está alimentada.
Fortalecimento da agricultura familiar voltada para produção de alimentos para mercado interno, com crédito diferenciado, assistência técnica, garantia de compra por programas institucionais como PAA e PNAE.
Transparência nos preços ao longo de toda a cadeia, mostrando claramente quanto fica com produtor, intermediários, varejo, permitindo políticas que reduzam margens abusivas.
Controle de especulação com alimentos básicos, evitando que commodities essenciais para alimentação popular sejam tratadas como ativos financeiros para especulação.
Feijão com arroz: símbolo de um país desigual
A dupla feijão com arroz é símbolo máximo da culinária brasileira, presente em praticamente todas as regiões, classes sociais, culturas. Representa conforto, nutrição acessível, identidade nacional.
Mas quando exportamos volumes recordes de feijão enquanto milhões de brasileiros não têm acesso adequado a esse alimento básico, estamos traindo esse símbolo, essa identidade.
Um país que se orgulha de ser “celeiro do mundo” mas não garante que seu próprio povo coma adequadamente é um país com prioridades profundamente equivocadas.
A pergunta que precisa ser feita
Quando vemos notícias de recordes de exportação agrícola, precisamos sempre fazer a pergunta: e o brasileiro, está comendo?
Os números de produção e exportação impressionam, as estatísticas de crescimento do agronegócio são robustas. Mas se dezenas de milhões de brasileiros enfrentam insegurança alimentar enquanto exportamos comida em volumes recordes, algo está estruturalmente errado.
O recorde de 501 mil toneladas de feijão exportadas não deveria ser comemorado sem o constrangimento de reconhecer que priorizamos mercado externo enquanto brasileiros passam fome. Segurança alimentar da população nacional precisa vir antes de recordes de exportação — ou continuaremos sendo um país que produz comida para o mundo mas não alimenta adequadamente seu próprio povo.








