03/03/2026 18:58

Guerra no Irã ameaça exportações brasileiras de milho e soja

A escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã acende um novo alerta para o agronegócio brasileiro, especialmente no segmento de milho e soja, dois dos principais produtos da pauta exportadora nacional. Embora o Irã represente menos de 1% do total exportado pelo Brasil, ele figura como um importador relevante de grãos, com impacto concentrado nessa pauta agrícola.

Dados oficiais do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços – (MDIC) mostram que em 2025 o comércio entre Brasil e Irã somou cerca de US$ 3 bilhões, com US$ 2,9 bilhões em exportações brasileiras e apenas US$ 85 milhões em importações do país persa

Milho e soja dominam exportações ao Irã

Do total exportado ao Irã no ano passado, milho e soja responderam por mais de 87%. O milho não moído, sozinho, representou 67,9% desse volume, movimentando mais de US$ 1,9 bilhão, enquanto a soja somou 19,3%, equivalentes a aproximadamente US$ 563 milhões.

Impactos globais e logísticos

Especialistas alertam que, além do comércio bilateral, o conflito pode afetar o Brasil por meio de dois mecanismos principais: a elevação de preços de energia e a pressão sobre rotas de transporte marítimo.

Pesquisadores apontam que uma intensificação do conflito tende a pressionar os preços do petróleo, que influenciam custos de produção e de transporte no setor agrícola como um todo. Esse efeito, por sua vez, pode refletir em custos maiores para os produtores brasileiros, que já operam em um ambiente global de preços voláteis.

Além disso, um eventual cerco naval ou restrições à navegação na região podem dificultar o envio de cargas para mercados como o iraniano, o que poderia reduzir o ritmo de embarques ou incentivar busca por outras rotas e compradores.

Reflexos para o Estado de MS

O Mato Grosso do Sul, um dos maiores estados produtores e exportadores de soja e milho no Brasil, acompanha com atenção esses sinais de instabilidade internacional. Embora o Irã não seja o principal destino das exportações brasileiras, o estado integra cadeias produtivas altamente conectadas ao mercado global.

Produtores do Estado dependem de contratos de exportação e das cotações internacionais, que podem ser influenciadas por fatores externos como conflitos geopolíticos, para planejar safras, fixar preços e decidir volumes de embarques. Oscilações nos preços do petróleo e risco de atrasos logísticos também podem elevar os custos de produção e transporte na região.

Especialistas em comércio exterior e agronegócio afirmam que produtores do MS precisam monitorar de perto as cotações internacionais de milho e soja, assim como os ajustes nos contratos de fornecimento com compradores no Oriente Médio e em outras regiões. A diversificação de mercados e a análise de risco tornam‑se ferramentas estratégicas em momentos de incerteza global.

Contexto mais amplo

Mesmo com participação menor no total de exportações brasileiras, a relevância do Irã cresce quando a análise se restringe à pauta agrícola. No ranking geral de destinos, o país aparece na 31ª posição, mas figura entre os principais mercados de milho do Brasil e ocupa o quinto lugar entre destinos no Oriente Médio, atrás de Emirados Árabes Unidos, Egito, Turquia e Arábia Saudita.

Além disso, o Brasil importa fertilizantes do Irã, com cerca de US$ 84 milhões em insumos no ano passado, o que adiciona outra camada de risco caso o conflito afete cadeias de fornecimento de insumos agrícolas.

Em um cenário global de crescente volatilidade em mercados de commodities, produtores e exportadores brasileiros devem observar com atenção os desdobramentos da guerra no Irã, ajustando estratégias para mitigar riscos e aproveitar oportunidades em outros mercados.

Gabriela Porto, RCN 67 – Foto: Divulgação