20/03/2026 21:54

JBS fecha fábrica na Califórnia e demite 374 trabalhadores enquanto lucra com preços recordes da carne nos EUA

Gigante brasileira encerra unidade em meio a crise de oferta que elevou preços ao consumidor a patamares históricos, mas decisão levanta questões sobre prioridades corporativas que sacrificam empregos enquanto margens seguem robustas

A JBS informou na última sexta-feira (12) que vai fechar de forma permanente uma fábrica nos arredores de Los Angeles, responsável por preparar carne bovina para venda em supermercados dos Estados Unidos. O fechamento da unidade da Swift Beef Company, localizada em Riverside, na Califórnia, está previsto para 2 de fevereiro e resultará na eliminação de 374 postos de trabalho, segundo o Departamento de Desenvolvimento de Emprego da Califórnia.

A decisão ocorre em momento paradoxal: enquanto os preços da carne bovina nos EUA atingiram recordes históricos em 2025 — beneficiando diretamente as receitas dos frigoríficos —, a empresa justifica o fechamento como parte de uma “iniciativa estratégica” para otimizar operações. Por trás do jargão corporativo, 374 famílias enfrentarão desemprego em uma região onde o custo de vida é um dos mais altos dos Estados Unidos.

O anúncio e suas justificativas corporativas

Segundo a JBS, a medida faz parte de uma “iniciativa estratégica” para otimizar os negócios de produtos de valor agregado e já embalados, além de simplificar as operações em toda a rede.

“A empresa continua focada em fornecer produtos de alta qualidade e serviços confiáveis, ao mesmo tempo em que fortalece sua presença operacional para atender às demandas do mercado em evolução”, diz a JBS em comunicado que, como é típico em anúncios corporativos de demissões em massa, oferece linguagem técnica e asséptica que esconde o impacto humano concreto.

A produção destinada aos clientes da unidade de Riverside será transferida para outras fábricas da empresa, e os funcionários “poderão concorrer a vagas em outras unidades” da JBS — frase que soa como oferta generosa mas na prática significa que trabalhadores terão que competir por posições que podem estar em cidades distantes, exigindo mudança de residência que muitos não podem custear.

O contexto de preços recordes

A ironia da situação fica evidente quando se observa o contexto do mercado de carne bovina nos Estados Unidos. Os preços atingiram recordes absolutos em 2025, após o rebanho do país cair ao menor nível em décadas devido à seca severa que afetou as pastagens nas principais regiões produtoras.

A suspensão das importações de gado mexicano pelos EUA — medida protecionista que agravou ainda mais a escassez doméstica — piorou drasticamente a situação de oferta.

Nesse cenário de preços recordes ao consumidor, o presidente dos EUA, Donald Trump, chegou a afirmar publicamente que está trabalhando para reduzir os preços da carne bovina e acusou os frigoríficos de manipular os valores — acusação grave que reflete a percepção crescente de que as empresas processadoras estão lucrando excessivamente com a crise de oferta.

A baixa disponibilidade de gado obrigou os frigoríficos a pagar mais pelos animais destinados à produção de hambúrgueres e bifes, mas o aumento nos custos de matéria-prima foi mais que compensado pela escalada nos preços finais ao consumidor, mantendo ou até expandindo as margens de lucro das empresas.

A função específica da unidade fechada

Na unidade da JBS em Riverside, os trabalhadores processam a carne bovina para venda em supermercados — cortando, embalando, preparando os produtos finais que chegam às gôndolas —, mas não realizam o abate dos animais.

Essa distinção é importante: trata-se de uma unidade de processamento e agregação de valor, não de abate primário. Ou seja, é justamente o tipo de operação que deveria estar se beneficiando dos preços recordes dos produtos finais, já que agrega valor significativo à matéria-prima.

O fechamento dessa unidade, portanto, não pode ser facilmente justificado por problemas de oferta de gado para abate — o gargalo está mais atrás na cadeia. A decisão parece estar mais relacionada a reestruturação operacional, busca de maior eficiência através de concentração em menos unidades, ou simplesmente maximização de margens transferindo produção para instalações com custos operacionais menores.

As margens que justificam, mas não impedem demissões

No mês passado, executivos da JBS projetaram que as margens de sua operação de carne bovina nos EUA devem diminuir no quarto trimestre, devido à escassez de matéria-prima.

Mas é fundamental contextualizar: “diminuir” não significa que as margens ficaram negativas ou inadequadas. Empresas do porte da JBS operam com planejamento que considera flutuações trimestrais. Uma redução de margens em um trimestre, após períodos de margens historicamente elevadas, é parte normal do ciclo de negócios.

A questão é: essa redução pontual de margens justifica eliminar 374 empregos permanentemente? Ou a decisão reflete prioridade corporativa de manter margens máximas mesmo que isso signifique sacrificar centenas de trabalhadores?

O padrão setorial de fechamentos

O fechamento da JBS não é caso isolado. O frigorífico rival Tyson Foods também anunciou o fechamento, previsto para janeiro, de uma importante fábrica de abate de gado em Nebraska, que emprega cerca de 3.200 pessoas — um número ainda mais dramático.

Esse padrão de fechamentos simultâneos por grandes frigoríficos, em momento de preços recordes ao consumidor, levanta questões sobre coordenação setorial e estratégias de concentração de operações que priorizam eficiência operacional e margens sobre manutenção de empregos e distribuição geográfica de oportunidades.

O custo humano do fechamento

Por trás dos 374 postos de trabalho eliminados estão 374 famílias que enfrentarão desemprego repentino em uma das regiões com custo de vida mais alto dos Estados Unidos.

Riverside fica na região metropolitana de Los Angeles, onde aluguéis são proibitivos, custo de vida é elevado, e encontrar novo emprego com salário comparável pode levar meses. Muitos desses trabalhadores provavelmente são imigrantes — latinos, incluindo brasileiros — que construíram suas vidas na região ao longo de anos ou décadas trabalhando para a empresa.

A promessa corporativa de que “poderão concorrer a vagas em outras unidades” é fria e inadequada. Trabalhadores com famílias estabelecidas, filhos em escolas locais, compromissos comunitários e financeiros não podem simplesmente se mudar para outra cidade por uma vaga que podem ou não conseguir.

Para muitos, o fechamento significará período prolongado de desemprego, esgotamento de economias, possível perda de casa, desestabilização familiar completa.

A responsabilidade corporativa em tempos de lucros

A JBS é uma das maiores empresas de proteína animal do mundo, com operações em dezenas de países, receitas anuais na casa das dezenas de bilhões de dólares, e capacidade financeira robusta para absorver flutuações de curto prazo.

Em anos recentes, a empresa reportou lucros bilionários, expandiu agressivamente através de aquisições, pagou dividendos substanciais a acionistas, investiu em projetos de longo prazo.

Essa capacidade financeira levanta a questão: em um momento de preços recordes que beneficiam a empresa, não haveria responsabilidade corporativa de manter operações e empregos mesmo que isso signifique margem ligeiramente menor em um ou dois trimestres?

Grandes corporações frequentemente justificam demissões como “necessárias” para sustentabilidade do negócio, mas raramente demonstram ter considerado seriamente alternativas que preservem empregos: redução temporária de jornada com manutenção proporcional de salários, transferência de funções, retreinamento para outras posições, aceitação de margens um pouco menores temporariamente.

O papel do Estado e a regulação necessária

O fechamento também levanta questões sobre o papel do Estado na regulação de grandes corporações, especialmente no setor alimentar que é estratégico para segurança nacional.

Quando grandes frigoríficos fecham unidades simultaneamente em momento de alta nos preços, criando concentração geográfica de operações e reduzindo concorrência local por emprego, há implicações que vão além da decisão empresarial individual.

Governos — tanto nos EUA quanto no Brasil, país de origem da JBS — deveriam considerar:

Regulação de fechamentos em setores estratégicos, exigindo justificativas robustas e tentativas documentadas de alternativas antes de permitir eliminação massiva de empregos.

Contrapartidas por subsídios e benefícios fiscais recebidos ao longo dos anos, condicionando apoio público à manutenção de níveis mínimos de emprego.

Investigação de práticas anticompetitivas quando múltiplas empresas do setor fecham unidades simultaneamente em padrão que sugere coordenação.

Proteção aos trabalhadores através de exigências de aviso prévio extenso, pacotes de indenização robustos, programas de requalificação financiados pelas empresas.

A lição de prioridades

O fechamento da unidade da JBS em Riverside oferece mais um exemplo de como prioridades corporativas modernas frequentemente colocam maximização de margens e eficiência operacional acima de responsabilidade social e compromisso com trabalhadores e comunidades.

A linguagem corporativa asséptica — “iniciativa estratégica”, “otimizar operações”, “simplificar a rede” — esconde decisões que destroem centenas de vidas, desestabilizam famílias, enfraquecem comunidades.

Em um sistema econômico que prioriza retornos trimestrais a acionistas sobre estabilidade de longo prazo para trabalhadores, esses fechamentos continuarão acontecendo independentemente de lucros recordes, preços históricos ou capacidade financeira para absorver flutuações.

A questão fundamental não é se a JBS tem o direito legal de fechar a unidade — claramente tem. A questão é se uma empresa que lucra bilhões, opera em setor estratégico, recebe benefícios públicos significativos e registra preços recordes em seus produtos deveria ter responsabilidade moral e talvez legal de preservar empregos e estabilidade comunitária, mesmo que isso signifique margem ligeiramente menor em alguns trimestres. São 374 famílias que merecem mais que linguagem corporativa vazia.