20/03/2026 18:15

Manga mantém rentabilidade positiva apesar de queda na produção: pequenos produtores do Vale enfrentam pressão de custos mesmo com preços elevados

Produtividade menor em novembro pressiona custos fixos, mas preços três vezes superiores ao ano anterior garantem margens positivas acima da média histórica — cenário que beneficia produtores com escala mas desafia agricultura familiar da região

O mês de novembro de 2025 apresentou as menores margens de rentabilidade do segundo semestre para os produtores de manga, segundo dados do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada). Apesar da redução em relação aos meses anteriores, o período ainda garantiu retornos positivos — um desempenho significativamente acima do padrão histórico para novembro, mês que tradicionalmente registra ganhos limitados no setor.

Os números revelam uma dinâmica complexa no Vale do São Francisco (BA/PE), principal polo produtor da fruta no país: enquanto preços elevados sustentaram rentabilidade positiva, a queda expressiva na produtividade pressionou especialmente pequenos produtores que dependem de escala para diluir custos fixos. O cenário favorece médios e grandes produtores com estrutura consolidada, mas apresenta desafios para a agricultura familiar da região.

A queda na produtividade que preocupa

No Vale do São Francisco, que concentra aproximadamente 90% da produção brasileira de manga para exportação e abastecimento do mercado nacional, a produtividade caiu de forma expressiva em novembro: retração de 22% nos pomares de manga Palmer e impressionantes 30% na variedade Tommy, em comparação com o mesmo período de 2024.

Essa redução substancial na quantidade de frutas produzidas por hectare tem causas múltiplas: fatores climáticos como irregularidades nas chuvas e temperaturas que afetaram floração e desenvolvimento dos frutos, pragas e doenças que ganharam força em condições climáticas específicas, e o próprio ciclo natural de alternância de produção característico da cultura.

A menor produção trouxe consequência direta e inevitável: dificultou enormemente a diluição dos custos fixos e operacionais, pressionando a margem líquida dos mangicultores.

Para entender o impacto: custos como irrigação, mão de obra de manutenção, fertilizantes, defensivos, amortização de infraestrutura precisam ser pagos independentemente do volume colhido. Quando a produtividade é alta, esses custos se diluem por muitos quilos de fruta. Quando cai 22% ou 30%, o custo por quilo de manga produzida aumenta drasticamente.

Preços elevados salvam a safra

A oferta nacional limitada — não apenas pela queda de produtividade no Vale, mas também por redução em outras regiões produtoras — sustentou os preços em níveis historicamente elevados, compensando em grande medida a menor produção.

A manga Palmer foi a grande estrela do mês, alcançando média impressionante de R$ 2,18 por quilo — valor mais de três vezes superior ao registrado no mesmo período do ano passado, quando a fruta foi comercializada a cerca de R$ 0,70/kg.

Já a manga Tommy teve desempenho mais moderado, impactada pelo início da safra paulista 2025/26, que ampliou a oferta nacional dessa variedade específica e conteve maiores avanços de preço. Ainda assim, o produto foi negociado, em média, a R$ 1,71/kg no Vale — o que representa mais que o dobro do valor observado em novembro de 2024 (aproximadamente R$ 0,80/kg).

Esses preços elevados refletem a lei básica de oferta e demanda: com menos manga disponível no mercado, consumidores e atacadistas pagam mais para garantir o produto. Para produtores, isso compensou parcialmente a frustração de produtividade.

As margens que sustentam o otimismo

Mesmo enfrentando custos de produção elevados — fertilizantes, defensivos, energia elétrica para irrigação, todos com preços pressionados pela inflação e pelo câmbio —, a rentabilidade final se manteve favorável aos produtores do Vale em novembro.

A margem líquida (já descontados todos os custos de produção) foi de R$ 1,08 por quilo para a variedade Palmer e R$ 0,61/kg para a Tommy — valores que, embora menores que os registrados em meses anteriores do segundo semestre, são substancialmente positivos e acima da média histórica para novembro.

Para dimensionar: em uma propriedade que produziu 20 toneladas de Palmer em novembro (produtividade reduzida, mas ainda significativa para produtor médio), a margem líquida total seria de aproximadamente R$ 21.600 — receita importante que fortalece capital de giro e permite planejamento para os meses seguintes.

O resultado contrasta drasticamente com o cenário de novembro de 2024, quando os meses finais do ano registraram margens negativas ou muito próximas de zero, comprometendo a sustentabilidade financeira de muitos produtores e forçando endividamento para capital de giro.

Palmer vs. Tommy: a diferença que define estratégias

A diferença expressiva entre as margens da Palmer (R$ 1,08/kg) e da Tommy (R$ 0,61/kg) não é acidental — reflete dinâmicas distintas de mercado e características de cada variedade.

A Palmer é variedade preferida para exportação devido a características como maior tamanho médio, casca mais firme que aguenta transporte internacional, coloração atrativa, sabor equilibrado. O mercado externo, especialmente europeu, paga preços premium por essa variedade, sustentando cotações elevadas mesmo no mercado interno.

A Tommy Atkins, embora também exportada, tem maior presença no mercado doméstico brasileiro. É variedade mais resistente, de manejo mais simples, mas com menor valorização pelo consumidor final. A entrada da safra paulista em novembro ampliou especificamente a oferta dessa variedade, pressionando preços e reduzindo margens.

Produtores do Vale precisam considerar essa diferença ao planejar novos plantios: Palmer exige investimento maior, manejo mais criterioso, mas oferece margens substancialmente superiores. Tommy é mais “segura” em termos de produção, mas com retornos menores.

O desafio da escala para pequenos produtores

Embora os números agregados mostrem rentabilidade positiva, é fundamental analisar como essa realidade se distribui entre diferentes perfis de produtores.

Médios e grandes produtores, com áreas superiores a 20-30 hectares, estrutura consolidada de irrigação, acesso a crédito para capital de giro, capacidade de contratar assistência técnica especializada, conseguem absorver melhor as flutuações de produtividade. Mesmo com queda de 22-30%, o volume absoluto de produção permite diluir custos fixos e capturar as margens positivas.

Pequenos produtores familiares, com áreas de 3-10 hectares, estrutura mais limitada, dependência maior de financiamento para custeio, enfrentam desafio muito maior. A queda de produtividade impacta proporcionalmente mais, pois os custos fixos (que não diminuem com a produção menor) representam parcela maior do total. A margem de R$ 1,08/kg pode significar sobrevivência confortável para quem produz 100 toneladas, mas aperto financeiro para quem produz 5 toneladas.

Essa diferença sublinha a importância de políticas específicas de apoio à agricultura familiar no Vale: acesso facilitado a crédito de custeio, assistência técnica pública gratuita, programas de seguro contra quebra de produtividade, fortalecimento de cooperativas que permitam comercialização coletiva em melhores condições.

O Vale do São Francisco e sua importância estratégica

O Vale do São Francisco, região que abrange municípios da Bahia e Pernambuco ao longo do rio São Francisco, consolidou-se nas últimas décadas como o principal polo de fruticultura irrigada do Brasil, com destaque absoluto para a manga.

A região responde por aproximadamente 90% das exportações brasileiras de manga e parcela substancial do abastecimento do mercado interno, especialmente nos meses de entressafra de outras regiões produtoras.

Essa concentração produtiva traz vantagens — especialização, infraestrutura logística, conhecimento técnico acumulado — mas também vulnerabilidades: eventos climáticos localizados afetam grande parte da produção nacional, questões hídricas (disponibilidade de água do São Francisco para irrigação) impactam todo o setor, pragas e doenças podem se disseminar rapidamente.

A sustentabilidade da fruticultura do Vale depende de gestão responsável dos recursos hídricos (o rio São Francisco enfrenta pressões crescentes), manejo adequado de solo para evitar salinização (problema comum em irrigação intensiva), controle integrado de pragas e doenças, e apoio continuado a produtores familiares que são maioria numérica mesmo que não detenham maioria da área plantada.

Perspectivas para o fechamento de 2025 e início de 2026

Para o encerramento de 2025, a expectativa consolidada entre produtores e analistas é de que os mangicultores mantenham resultados positivos, fortalecendo o capital de giro e garantindo boas perspectivas para o início de 2026.

Dezembro tradicionalmente apresenta demanda aquecida — festas de fim de ano, verão iniciando no hemisfério sul, turismo — que sustenta preços. A oferta seguirá limitada pelas mesmas razões que afetaram novembro, mantendo cotações em patamares favoráveis.

Para 2026, as perspectivas dependem criticamente de fatores climáticos que determinarão a próxima safra: chuvas adequadas no período certo, temperaturas favoráveis à floração, ausência de eventos extremos como geadas tardias ou secas severas.

Produtores que conseguiram acumular capital com as boas margens de 2025 estarão em posição mais confortável para investir em melhorias — sistemas de irrigação mais eficientes, tecnologias de manejo, diversificação de variedades — que podem aumentar resiliência e rentabilidade futuras.

A manga e a segurança alimentar

Embora a manga seja frequentemente vista como fruta “de luxo” ou produto de exportação, tem papel importante na segurança alimentar e nutricional, especialmente no Nordeste brasileiro.

Rica em vitaminas (especialmente A e C), fibras, antioxidantes, a manga é alimento nutritivo e saboroso que, quando acessível, contribui para dieta saudável de milhões de famílias.

Os preços elevados registrados em 2025 — embora positivos para produtores — significam que a fruta ficou menos acessível para consumidores de baixa renda. Manga Palmer a R$ 2,18/kg no atacado pode facilmente chegar a R$ 4-5/kg no varejo de grandes cidades, preço proibitivo para famílias que ganham salário mínimo.

Políticas que apoiem produção sustentável com preços justos tanto para produtores quanto para consumidores — através de estoques reguladores, programas de compra institucional, apoio logístico que reduza perdas e intermediações — são essenciais para equilibrar rentabilidade da cadeia produtiva com acesso popular ao alimento.

Lições de um mês atípico

Novembro de 2025 oferece lições importantes sobre a mangicultura brasileira:

Primeiro, que mesmo em cenários de produtividade reduzida, preços de mercado podem compensar e garantir rentabilidade — mas essa compensação depende de fatores externos (oferta nacional, demanda) que produtores não controlam completamente.

Segundo, que a diferença entre variedades (Palmer vs. Tommy) em termos de margens é substancial e deve orientar decisões de plantio de longo prazo.

Terceiro, que pequenos produtores são desproporcionalmente afetados por quedas de produtividade e precisam de apoio específico para manterem-se competitivos.

Quarto, que a concentração produtiva no Vale do São Francisco, embora eficiente, cria vulnerabilidades que políticas públicas deveriam mitigar.

Novembro de 2025 foi mês de margens positivas acima da média histórica para mangicultores do Vale do São Francisco, mas os números agregados escondem desafios diferenciados entre produtores de diferentes escalas. Enquanto médios e grandes celebram rentabilidade robusta mesmo com produtividade reduzida, pequenos produtores familiares enfrentam pressão de custos que exige atenção de políticas públicas. O fechamento do ano promete continuar favorável, mas a sustentabilidade de longo prazo da mangicultura brasileira depende de apoio equilibrado a todos os elos da cadeia produtiva.