A cada dia que passa considero mais arriscado o uso do termo “direita” na política brasileira, porque ele supõe a existência de alguma unidade de ideário. Mas, na maioria dos casos, não existe nem mesmo conhecimento das ideias e valores que caracterizariam a direita.
Direita, em todos os lugares, é um conceito desafiador. A.C. Grayling, no seu livro Ideias Que Importam, define direita como “o agrupamento das forças políticas que não são de esquerda”. Essa definição continua sendo a mais adequada.
Direita é uma expressão usada por veículos de mídia, “formadores de opinião” e sistema de ensino como um termo depreciativo. O resultado é que muita gente está disposta a tudo para não ser chamada de “direita”, muito embora, frequentemente, essas pessoas vivam suas vidas de acordo com as ideias conservadoras e liberais que caracterizam a direita.
Alguns não enxergam qualquer relevância nessa discussão; o que importa é “viver a vida”, seguir em frente e fazer o que é certo. Mas é um erro menosprezar a importância das ideias. Conceitos massificados e aceitos pela maioria como verdade, apontam a direção na qual instituições e sociedades seguirão. As consequências das ideias são concretas e podem ser boas ou ruins. Muitosestudos mostram a importância da cultura – entendida como o caldo de ideias, hábitos e regras que regem a vida – no desenvolvimento de um país. O melhor é o trabalho do sociólogo holandês Geert Hofstede, que eu explorei no meu livro Jogando Para Ganhar.
Hofstede apresenta uma teoria de formação cultural apoiada em um trabalho estatístico de anos. Seus achados são formidáveis e confirmam que ideias e valores determinam a trajetória de um país. Hofstede mostra uma diferença chave entre sociedades anglo-saxônicas e latinas. No mundo anglo-saxão uma pessoa pode ser poderosa, mas desconhecida e com uma renda normal. Exemplo: juízes da Suprema Corte americana. Nas sociedades latinas, a regra é que uma pessoa poderosa seja também famosa e rica. Exemplo: juízes de países latinos.
A expressão marxismo cultural descreve o processo pelo qual conceitos essencialmente marxistas são absorvidos pela cultura e passam a ser considerados senso comum. Mas uma expressão melhor seria marxismo estrutural. É evidente, pela própria definição do fenômeno, que as pessoas afetadas por ele não têm consciência disso. A reação da maioria é dizer que não é marxista e nem conhece Marx. Mas marxismo estrutural é justamente isso. A pessoa acha que a propriedade precisa ter uma “função social”, que uma das missões do estado é “reduzir a desigualdade” e que o bandido não teve outra escolha a não ser o crime, sem saber que todos esses conceitos são marxistas.Essas ideias são implantadas no inconsciente do cidadão pelo sistema educacional, através de infinita repetição.
Outro conceito marxista devastador na cultura brasileira é a ideia de que lucro é roubo e o empresário, ou empreendedor, é um explorador que se apropria da “mais valia” do trabalho alheio. Por isso, no Brasil, o empresário tem vergonha de lucrar, não consegue defender moralmente sua atividade e ainda financia iniciativas políticas, sociais e culturais anticapitalistas. Marx supostamente disse: “enforcaremos o último capitalista com a corda que ele mesmo nos vendeu”. O empresariado não vende a corda aos revolucionários, ele dá a corda de presente.
Até a aplicação da lei é afetada pela busca da tal “justiça social”. Promotores de esquerda, em cidades como Nova Iorque e São Francisco,frequentemente se recusam a processar criminosos violentos, sob a alegação deque estão buscando a “justiça social”. O mesmo argumento é usado no Brasil para soltar criminosos em audiências de custódia, para conceder benefícios a membros de facções ou para justificar o chamado “fetiche da pena mínima” – o costume de sempre condenar criminosos à menor pena prevista em lei, independente das circunstâncias.
“Justiça social” é uma ideia marxista: ela chama de “justiça” a tarefa de redistribuir a riqueza entre as pessoas, retirando de uns para dar a outros, segundo o critério estabelecido por justiceiros sociais. O dinheiro e a propriedade dos justiceiros nunca são distribuídos; por definição, “justiça social” é sempre feita com o dinheiro e a propriedade de terceiros.
Assim é o marxismo estrutural. Ao propor como solução para todos os problemas a concentração de poder e riqueza nas mãos do Estado, promove-se, na verdade, a concentração de poder e riqueza nas mãos de uma elite burocrática- que, no Brasil, se associou às mais antigas oligarquias.








