23/03/2026 05:53

Mato Grosso do Sul fecha 2025 com avanços recordes no agro: crescimento de 18% expõe potencial, mas levanta questões sobre modelo concentrador

Estado alcança 28 milhões de toneladas em grãos, atrai indústrias e conquista status sanitário internacional, mas expansão acelerada exige atenção a impactos socioambientais e distribuição dos benefícios entre diferentes perfis de produtores

Mato Grosso do Sul encerra 2025 como um dos estados que mais avançaram no agronegócio brasileiro, impulsionado por uma safra recorde de 28 milhões de toneladas de soja e milho, crescimento impressionante de 18% no Valor Bruto da Produção e conquistas sanitárias que ampliam mercados internacionais. O desempenho, aliado a investimentos bilionários em logística e à expansão acelerada de novas cadeias produtivas, consolidou o estado como referência nacional em produtividade, sustentabilidade e competitividade.

Os números são inquestionavelmente robustos: Valor Bruto da Produção de aproximadamente R$ 84 bilhões, PIB estadual projetado em crescimento de 6,8% superando R$ 227 bilhões, exportações do agronegócio acumulando US$ 9,2 bilhões entre janeiro e novembro. São cifras que colocam Mato Grosso do Sul em posição estratégica no cenário nacional e internacional do agronegócio.

Porém, por trás desses números agregados impressionantes, é fundamental questionar: como esse crescimento se distribui entre diferentes perfis de produtores? Grandes grupos agroindustriais, médios produtores tecnificados e agricultura familiar estão se beneficiando proporcionalmente? A expansão acelerada está ocorrendo com atenção adequada a impactos socioambientais de longo prazo? Os investimentos em infraestrutura beneficiam equilibradamente diferentes regiões do estado?

Produção e produtividade em alta recorde

A safra 2024/25 registrou crescimento verdadeiramente expressivo. Somadas, a soja e o milho alcançaram 28 milhões de toneladas, aumento espetacular de 35% em relação ao ciclo anterior, garantindo ao estado o 5º lugar no ranking nacional de produção — posição que reflete não apenas área plantada, mas principalmente ganhos substanciais de produtividade.

A produtividade do milho foi o grande destaque absoluto do ano, com avanço extraordinário de 62% frente à safra 2023/24, que havia sido marcada por forte quebra devido a eventos climáticos adversos, produzindo apenas 8,4 milhões de toneladas. A recuperação demonstra tanto a resiliência do setor quanto os investimentos em tecnologia, genética e manejo que permitiram superar as adversidades.

Esse movimento foi impulsionado também pela chegada e expansão rápida das indústrias de etanol de milho. Na safra atual, Mato Grosso do Sul produziu 1,58 bilhão de litros do biocombustível, crescimento robusto de 58% que criou estímulo direto à demanda por grãos, garantindo mercado para a produção e sustentando preços.

A chegada dessas usinas de etanol de milho representa transformação estrutural importante: diversifica a economia estadual, agrega valor à produção de grãos (transformando commodity em produto processado), gera empregos diretos e indiretos, e contribui para a transição energética com combustível renovável.

Porém, também levanta questões: a concentração dessas indústrias beneficia principalmente grandes produtores com escala para fornecer volumes significativos? Pequenos e médios produtores conseguem acessar esse mercado em condições competitivas? Os empregos gerados são de qualidade, com salários dignos e condições adequadas?

Novas cadeias despontam com força

Outras cadeias produtivas despontam com força crescente no estado, demonstrando diversificação bem-vinda da matriz produtiva.

A citricultura avança aceleradamente com projeção de 30 mil hectares de laranja — expansão notável que posiciona MS como nova fronteira da produção de citros no país, parcialmente aproveitando a crise fitossanitária que afeta tradicionais regiões produtoras de São Paulo.

O amendoim mantém ritmo acelerado, com área plantada de 43,5 mil hectares e produção estimada em 173,7 mil toneladas — cultura que se encaixa bem em sistemas de rotação com grãos e tem demanda industrial crescente.

O setor de florestas plantadas segue em grande expansão. A área de eucalipto superou impressionantes 1,89 milhão de hectares, impulsionada pela expectativa de instalação de duas novas plantas industriais de celulose, sendo uma em Inocência e outra em Bataguassu, que devem ampliar drasticamente a demanda por madeira nos próximos anos.

Essa expansão florestal é apresentada como sustentável — e de fato florestas plantadas capturam carbono, não competem com florestas nativas quando bem manejadas, geram empregos. Porém, a monocultura de eucalipto em larga escala também traz desafios: alto consumo de água em regiões onde recursos hídricos são limitados, impactos sobre biodiversidade local, concentração fundiária quando grandes grupos controlam vastas áreas, e dependência de poucas indústrias compradoras que podem ditar preços.

Práticas sustentáveis em expansão

A adoção de práticas regenerativas e de manejo sustentável se intensificou em 2025, segundo a Famasul. Sistemas integrados (lavoura-pecuária-floresta), rotação diversificada de culturas, manejo conservacionista do solo e estratégias de mitigação climática consolidaram uma agricultura mais resiliente e alinhada às exigências internacionais crescentes.

“Os produtores sul-mato-grossenses demonstraram mais uma vez sua capacidade de adaptação, investindo em tecnologias que elevam a produtividade e preservam o meio ambiente. Esse equilíbrio é a base do crescimento sustentável do nosso estado”, destaca Tamiris Azoia, coordenadora do departamento técnico da Famasul.

Esse discurso é importante e reflete avanços reais — muitos produtores de MS estão de fato adotando práticas mais sustentáveis. Porém, é fundamental contextualizar: essas tecnologias e práticas são acessíveis a todos os produtores ou principalmente a médios e grandes com capital para investir? A sustentabilidade está sendo adotada por convicção ambiental ou principalmente por exigência de mercados compradores?

Proteínas animais mantêm crescimento

O abate de bovinos cresceu 4% em 2025, totalizando 4,1 milhões de cabeças — crescimento moderado mas consistente que reflete tanto expansão de rebanho quanto melhorias em produtividade (ciclos mais curtos, maior peso ao abate).

A suinocultura alcançou 3,5 milhões de animais abatidos, também com alta de 4%, demonstrando consolidação dessa cadeia no estado.

A avicultura manteve estabilidade, com 186,2 milhões de aves abatidas (crescimento mínimo de 0,3%), refletindo maturidade do setor e mercado já consolidado.

Esses números de proteína animal são importantes porque representam agregação de valor (transformar grãos em proteína) e diversificação da economia rural. Porém, também exigem atenção a questões trabalhistas (frigoríficos historicamente têm problemas de condições de trabalho), ambientais (gestão de dejetos, especialmente na suinocultura) e de bem-estar animal.

Valor Bruto da Produção e PIB em alta

O Valor Bruto da Produção (VBP) alcançou aproximadamente R$ 84 bilhões, alta expressiva de 18% impulsionada pela combinação virtuosa entre bom desempenho produtivo (volumes recordes) e valorização dos preços da maioria dos produtos ao longo do ano.

O PIB sul-mato-grossense deve encerrar 2025 com crescimento robusto de 6,8%, superando R$ 227 bilhões — desempenho muito acima da média nacional e que coloca o estado entre os de maior crescimento do país.

Esses números macroeconômicos são impressionantes e merecem celebração. Porém, análises de PIB e VBP não revelam distribuição: quanto desse crescimento fica com grandes grupos agroindustriais, quanto com médios produtores, quanto com agricultura familiar? Como a renda gerada se distribui entre capital e trabalho? Os municípios mais pobres do estado estão se beneficiando proporcionalmente ou o crescimento concentra-se em regiões já desenvolvidas?

Exportações em expansão

As exportações do agronegócio acumularam crescimento de 4% entre janeiro e novembro, com faturamento de US$ 9,2 bilhões — desempenho positivo que traz divisas importantes para o estado e para o país.

A celulose lidera disparadamente as vendas externas, representando 31% da receita total e somando US$ 2,84 bilhões, valor 20% acima de 2024. Esse domínio da celulose reflete a expansão florestal mencionada anteriormente e a presença de grandes plantas industriais no estado.

Em seguida vêm a soja em grãos, com US$ 2,33 bilhões (25% do total das exportações do agro), e a carne bovina, que cresceu impressionantes 51% e chegou a US$ 1,70 bilhão, consolidando a força do setor e refletindo tanto aumento de volume quanto valorização de preços no mercado internacional.

O crescimento das exportações é positivo para a balança comercial e para a economia estadual. Porém, como discutido em matérias anteriores sobre outros produtos, é fundamental questionar se a priorização de exportações está ocorrendo em detrimento do abastecimento interno acessível, especialmente de alimentos básicos.

Infraestrutura e logística: investimentos bilionários

O ano foi marcado por avanços logísticos significativos que prometem reduzir custos de escoamento — gargalo histórico do agronegócio brasileiro.

A retomada do contrato de concessão da BR-163/MS, agora sob gestão da empresa Motiva, prevê R$ 16,6 bilhões em investimentos ao longo de 29 anos, com duplicações, faixas adicionais, viadutos e áreas de descanso que melhorarão drasticamente o fluxo de mercadorias.

Outro projeto estratégico é a Rota da Celulose, que abrange cerca de 870 km de rodovias federais e estaduais, com investimentos estimados em R$ 10 bilhões, conectando regiões produtoras aos corredores de exportação — infraestrutura que beneficiará não apenas celulose mas toda a produção agrícola da região.

A confirmação do leilão da Hidrovia do Rio Paraguai para 2026 representa mais um passo fundamental para reduzir custos logísticos, permitindo transporte de cargas pesadas por via fluvial com custo muito menor que rodoviário.

Melhorias em aeroportos regionais ampliam o escoamento de cargas de maior valor agregado, como frutas frescas e produtos especializados.

Esses investimentos em infraestrutura são absolutamente essenciais e merecem reconhecimento. Porém, é importante acompanhar: os custos dessas concessões serão repassados aos usuários através de pedágios? Pequenos produtores terão acesso facilitado ou a infraestrutura melhorada beneficiará principalmente grandes grupos com volume de carga que justifica logística especializada?

Citricultura: a nova fronteira com proteção fitossanitária

A partir de 2024, e com desdobramentos ainda mais significativos em 2025, Mato Grosso do Sul avançou estrategicamente em políticas para consolidar a citricultura como uma nova fronteira produtiva. Com mais de 15 mil hectares já em produção e cerca de 7 milhões de mudas implantadas, o setor segue em rápida expansão no estado, que já projeta mais de 40 mil hectares adicionais em novos empreendimentos para os próximos anos.

A Lei Estadual nº 6.293/2024 instituiu rigoroso controle fitossanitário ao proibir o plantio de murta (planta ornamental que é hospedeira do psilídeo transmissor do greening, doença devastadora que destruiu milhares de hectares de citros em São Paulo), e determinar sua erradicação e monitoramento.

A medida foi rapidamente reforçada no âmbito municipal, com Ribas do Rio Pardo tornando-se o primeiro a regulamentar a “Lei do Citrus” (Lei nº 1.536/2025), seguido por Campo Grande, que aprovou a Lei nº 7.451/2025, estabelecendo proibições, fiscalização e multas.

Além das ações legais preventivas, o setor passou a contar com apoio financeiro robusto por meio de uma linha específica do FCO (Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste), que disponibiliza até R$ 20 milhões por ano para implantação e manutenção de pomares, com limite de 500 hectares por projeto.

Essa estruturação da citricultura é exemplo de planejamento estratégico: aprender com erros de outras regiões (a devastação do greening em SP), implementar prevenção rigorosa, oferecer apoio financeiro. Porém, o limite de 500 hectares por projeto do FCO favorece claramente médios e grandes empreendimentos — pequenos produtores familiares que poderiam diversificar renda com citros em áreas menores têm acesso proporcional a esse financiamento?

Reconhecimento sanitário internacional

Em maio de 2025, o Brasil conquistou o status histórico de área livre de febre aftosa sem vacinação, conferido pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), em um reconhecimento no qual a Famasul teve papel decisivo por sua atuação técnica no Comitê Gestor do PNEFA (Programa Nacional de Erradicação da Febre Aftosa).

O estado também manteve alto padrão sanitário em outras cadeias, permanecendo livre de Influenza Aviária, Doença de Newcastle, Peste Suína Africana e Peste Suína Clássica — status sanitário invejável que abre portas em mercados internacionais extremamente exigentes.

“Esse reconhecimento internacional reforça a credibilidade da pecuária de Mato Grosso do Sul e abre novas portas no mercado global. É um marco coletivo, construído por produtores, entidades e instituições públicas”, afirma Marcelo Bertoni, presidente da Famasul.

O reconhecimento sanitário é conquista genuinamente importante que resulta de décadas de trabalho coordenado, investimento público e privado, disciplina dos produtores. Merece celebração plena e abrirá oportunidades comerciais significativas.

PSA e segurança jurídica no Pantanal

A implementação do Programa de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) Bioma Pantanal foi um dos principais avanços ambientais de 2025, remunerando produtores pela conservação da vegetação nativa além do exigido por lei — mecanismo importante que reconhece economicamente a prestação de serviços ambientais.

Financiado pelo Fundo Clima Pantanal e operacionalizado pela Funar (fundação vinculada à Famasul), o programa prevê pagamentos de R$ 55,47 por hectare ao ano, com limite de R$ 100 mil por propriedade.

No primeiro edital, 59 propriedades foram contempladas, somando cerca de R$ 30 milhões em investimentos voltados à proteção do bioma e ao reconhecimento de práticas produtivas sustentáveis.

No mesmo período, a promulgação da Lei do Pantanal garantiu segurança jurídica, segundo a Famasul, respeitando as particularidades da região e valorizando práticas sustentáveis adotadas há décadas pelos produtores rurais.

O PSA é instrumento valioso de política ambiental. Porém, o limite de R$ 100 mil por propriedade significa que grandes proprietários com vastas áreas de conservação capturam o máximo do programa, enquanto pequenos produtores com áreas menores recebem proporcionalmente menos — seria mais justo estabelecer valores progressivos que privilegiassem pequenas propriedades?

Perspectivas para 2026

Para 2026, a Famasul e o Senar/MS prometem seguir ao lado do produtor rural, promovendo capacitação, fortalecendo a defesa sanitária e trabalhando para garantir um ambiente cada vez mais competitivo, sustentável e seguro para quem produz em Mato Grosso do Sul.

As perspectivas são genuinamente positivas: infraestrutura melhorando, mercados internacionais se abrindo, tecnologias avançando, diversificação de cadeias produtivas ocorrendo.

As questões que o crescimento levanta

Os números de 2025 para o agro de Mato Grosso do Sul são inquestionavelmente impressionantes e merecem reconhecimento. Porém, um crescimento dessa magnitude e velocidade exige reflexão crítica sobre questões fundamentais:

Distribuição dos benefícios: Como o crescimento de 18% no VBP se distribui entre grandes grupos agroindustriais, médios produtores e agricultura familiar? Os trabalhadores rurais estão vendo melhoria proporcional em salários e condições de trabalho?

Impactos ambientais de longo prazo: A expansão de 1,89 milhão de hectares de eucalipto está ocorrendo com atenção adequada a impactos hídricos e sobre biodiversidade? A intensificação agrícola está preservando adequadamente serviços ecossistêmicos?

Concentração fundiária: A chegada de grandes indústrias e investimentos bilionários está promovendo concentração adicional de terras ou criando oportunidades também para pequenos e médios?

Segurança alimentar: O foco em commodities de exportação (celulose, soja, milho para etanol) está equilibrado com produção de alimentos para abastecimento interno acessível?

Desenvolvimento regional equilibrado: Os avanços beneficiam todas as regiões do estado ou concentram-se em áreas já desenvolvidas, aprofundando desigualdades regionais?

Mato Grosso do Sul fecha 2025 com números genuinamente impressionantes no agronegócio: crescimento de 18% no VBP, safra recorde, conquistas sanitárias históricas, investimentos bilionários em infraestrutura. São avanços reais que consolidam o estado em posição estratégica. Porém, é fundamental que esse crescimento acelerado seja acompanhado de atenção rigorosa à distribuição equitativa dos benefícios, aos impactos socioambientais de longo prazo e à garantia de que pequenos produtores e trabalhadores rurais também sejam protagonistas e beneficiários desse desenvolvimento, não apenas espectadores do enriquecimento de grandes grupos.