O ranking de crescimento do setor primário revela um Brasil em pleno movimento no agronegócio. Mato Grosso do Sul aparece na liderança nacional, com crescimento de 17,9%, seguido por Tocantins (16,4%) e Paraná (16,1%), evidenciando um cenário de forte dinamismo tanto em regiões já consolidadas quanto em áreas de expansão agrícola.
Os números são impressionantes. Realmente impressionantes. Mas antes de celebrarmos acriticamente, é fundamental fazer perguntas que raramente aparecem nas manchetes triunfantes sobre recordes do agronegócio.
As perguntas incômodas que precisam ser feitas
Primeira pergunta: Crescimento de 17,9% em Mato Grosso do Sul beneficiou quantos pequenos agricultores familiares?
Quando se fala em “crescimento do setor primário”, a imagem que vem à cabeça é de prosperidade distribuída — agricultores felizes, comunidades rurais prósperas, renda circulando. Mas a realidade é bem diferente.
O crescimento do agronegócio brasileiro nas últimas décadas tem sido marcado por concentração brutal de terra, de renda e de poder. Grandes produtores, muitos deles corporações ou fundos de investimento, controlam áreas imensas e capturam a maior parte dos ganhos de produtividade.
Enquanto isso, o pequeno agricultor familiar — aquele que produz em 10, 20, 50 hectares — está sendo espremido entre:
- Custos de produção crescentes (insumos, maquinário, tecnologia)
- Preços de venda voláteis e frequentemente baixos
- Dificuldade de acesso a crédito em condições justas
- Falta de assistência técnica adequada
- Competição desigual com grandes produtores
Segunda pergunta: Quanto desse crescimento se traduz em empregos de qualidade no campo?
Crescimento de 17,9% não significa necessariamente 17,9% mais empregos. Na verdade, como já vimos em matérias anteriores, o agronegócio brasileiro tem eliminado empregos através da mecanização intensiva.
Colheitadeiras robotizadas, drones, sistemas automatizados de irrigação, confinamento tecnológico de gado — tudo isso aumenta produtividade drasticamente, mas reduz necessidade de mão de obra humana.
Os empregos que permanecem frequentemente são precários: contratos temporários, jornadas exaustivas, condições insalubres, salários baixos (apesar de serem superiores à média, ainda são insuficientes para vida digna).
Terceira pergunta: Qual o custo ambiental desse crescimento?
O texto menciona rapidamente “desafios ambientais” ao falar da expansão agrícola no Norte. Mas isso é um eufemismo delicado para o que está acontecendo.
Expansão de fronteira agrícola no Brasil frequentemente significa:
- Desmatamento de Cerrado e Amazônia
- Perda de biodiversidade
- Emissão massiva de gases de efeito estufa
- Contaminação de rios e lençóis freáticos por agrotóxicos
- Degradação de solo
- Conflitos com populações tradicionais e indígenas
Não estamos dizendo que todo agronegócio é predatório. Há produtores responsáveis, práticas sustentáveis, avanços importantes. Mas a escala e a velocidade da expansão, especialmente em novas fronteiras agrícolas, levantam preocupações ambientais legítimas que não podem ser minimizadas.
O protagonismo do Centro-Oeste: concentração de poder
O protagonismo do Centro-Oeste se confirma com folga. Além da liderança sul-mato-grossense, Mato Grosso registrou avanço de 15,1% e Goiás, de 10,7%, reforçando a região como o principal polo do agronegócio brasileiro, impulsionado por grandes safras, pecuária em escala e uso intensivo de tecnologia no campo.
O Centro-Oeste é de fato o coração do agronegócio brasileiro. Mas é importante contextualizar o que isso significa.
Concentração fundiária extrema: No Centro-Oeste, especialmente em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, a concentração de terra é brutal. Propriedades de milhares de hectares controladas por poucos grupos econômicos dominam a paisagem.
Monocultura em escala industrial: Soja, milho, algodão, gado — produzidos em escala gigantesca, com tecnologia de ponta, para exportação. Isso gera riqueza, sim, mas de forma extremamente concentrada.
Dependência de commodities: A economia regional fica vulnerável a oscilações de preços internacionais. Quando China diminui compras, quando dólar cai, quando há supersafra global, os preços desabam e toda a região sofre.
Esvaziamento de pequenas cidades: Com mecanização intensiva, menos gente é necessária no campo. Pequenas cidades que dependiam de agricultura familiar minguam. População migra para periferias de cidades maiores ou para outros estados.
“Uso intensivo de tecnologia no campo” — essa frase, que aparece frequentemente em reportagens celebratórias, esconde uma realidade: tecnologia no agronegócio brasileiro está acessível principalmente para grandes produtores.
Pequeno agricultor familiar raramente tem acesso a:
- Tratores e colheitadeiras modernas (custam centenas de milhares de reais)
- Sistemas de irrigação automatizada
- Drones para pulverização e monitoramento
- Softwares de gestão agrícola
- Análise de solo de precisão
- Sementes geneticamente modificadas de última geração
Resultado: a distância entre grandes e pequenos produtores aumenta exponencialmente. Quem tem tecnologia produz mais, com menos custo, e domina mercado. Quem não tem fica para trás.
Outras regiões: desigualdade disfarçada de crescimento
Outras regiões também apresentam desempenho expressivo. Estados do Sul e Sudeste, como Paraná, Santa Catarina e Espírito Santo, mantêm relevância no cenário nacional, enquanto Tocantins, Roraima e Rondônia destacam a força da expansão agrícola no Norte do país, combinando novas oportunidades produtivas com desafios ambientais.
Vamos olhar mais de perto para essas “novas oportunidades produtivas” no Norte.
Tocantins, Roraima, Rondônia: Estados onde a fronteira agrícola avança rapidamente. O que isso significa na prática?
- Grilagem de terras públicas: Frequentemente, áreas públicas são ilegalmente apropriadas, documentação é falsificada, e depois “regularizada” através de pressão política.
- Expulsão de populações tradicionais: Comunidades ribeirinhas, quilombolas, indígenas que vivem há gerações em determinadas áreas são pressionadas, ameaçadas, ou simplesmente expulsas para dar lugar a grandes fazendas.
- Desmatamento acelerado: A expansão agrícola nessas regiões frequentemente se dá através de derrubada de florestas. O Cerrado, em particular, está sendo devastado em ritmo alarmante — e recebe muito menos atenção internacional que a Amazônia.
- Conflitos violentos: Disputas por terra resultam em violência. Brasil é um dos países mais perigosos do mundo para defensores ambientais e lideranças rurais. Assassinatos são comuns e raramente punidos.
Quando a reportagem fala suavemente em “desafios ambientais”, está escamoteando uma realidade muito mais dura.
Sul e Sudeste: agricultura familiar resistindo
Paraná, Santa Catarina, Espírito Santo — estados mencionados como mantendo “relevância no cenário nacional” — têm características diferentes do Centro-Oeste.
Nessas regiões, especialmente no Sul, a agricultura familiar ainda tem presença significativa. Propriedades menores, produção diversificada, cooperativas fortes, tradição de pequenos produtores.
Mas mesmo aí, a pressão é enorme:
- Grandes grupos comprando terras de pequenos produtores que não conseguem competir
- Monocultura de soja e milho avançando sobre áreas antes diversificadas
- Jovens abandonando campo porque vida rural não oferece perspectivas atraentes
- Envelhecimento da população rural
O crescimento de 16,1% no Paraná, por exemplo, é positivo. Mas esconde uma transição em curso: de agricultura familiar diversificada para agronegócio de escala com concentração crescente.
Todos crescem, mas nem todos prosperam
Todos os estados que compõem o ranking registraram crescimento em dois dígitos, o que indica que 2025 tende a ser um ano excepcional para o agro brasileiro. O desempenho é sustentado pelo aumento da produtividade, pela inovação tecnológica e pela competitividade do país no mercado internacional.
Sim, 2025 pode ser um ano excepcional para o agronegócio. Safras recordes, exportações em alta, preços internacionais favoráveis (ou não, dependendo de oscilações imprevisíveis).
Mas é excepcional para quem?
Para os acionistas da Cargill, Bunge, ADM — tradings gigantes que controlam exportação de commodities? Certamente.
Para grandes produtores com milhares de hectares, acesso a crédito subsidiado, tecnologia de ponta? Sem dúvida.
Para o pequeno agricultor familiar em assentamento no interior de Rondônia, tentando produzir em 20 hectares sem assistência técnica adequada, vendendo para atravessador que paga preço vil? Duvidoso.
Para o trabalhador rural temporário contratado na safra e dispensado depois, sem direitos garantidos? Improvável.
Para comunidades indígenas e tradicionais vendo suas terras serem invadidas por grandes fazendas? Com certeza não.
O que está faltando nessa narrativa
Reportagens sobre recordes do agronegócio raramente incluem:
1. Dados sobre distribuição de renda: Quanto do valor gerado fica com grandes produtores/corporações vs. pequenos agricultores/trabalhadores rurais?
2. Impactos ambientais concretos: Quantos hectares de Cerrado foram desmatados para viabilizar esse crescimento? Qual o aumento nas emissões de CO2? Quantos rios foram contaminados?
3. Situação da agricultura familiar: Quantos pequenos produtores faliram ou venderam suas terras no mesmo período em que o agronegócio bateu recordes?
4. Conflitos fundiários: Quantas famílias foram expulsas de suas terras? Quantos líderes comunitários foram ameaçados ou assassinados?
5. Dependência externa: Quanto da tecnologia, insumos, sementes usadas são importados? Quanto do lucro vaza para multinacionais estrangeiras?
6. Segurança alimentar interna: Estamos produzindo recordes para exportação, mas o brasileiro consegue comprar comida? Ou estamos numa situação absurda de produzir toneladas de soja para China enquanto brasileiro passa fome?
Propostas para um agronegócio mais justo
Não somos contra o agronegócio. Somos contra um modelo de agronegócio que:
- Concentra riqueza nas mãos de poucos
- Destrói meio ambiente
- Expulsa pequenos produtores
- Explora trabalhadores rurais
- Ignora segurança alimentar da população
É possível ter agronegócio forte E agricultura familiar próspera. É possível produzir em escala E respeitar meio ambiente. É possível exportar commodities E garantir comida acessível para brasileiros.
Para isso seria necessário:
Reforma agrária real: Distribuir terra ociosa ou improdutiva, assentar famílias, dar suporte técnico e financeiro para que produzam.
Crédito diferenciado: Linhas de crédito específicas para agricultura familiar com juros subsidiados, prazos adequados, burocracia reduzida.
Assistência técnica pública massiva: Embrapa, universidades, institutos estaduais levando conhecimento técnico gratuitamente para pequenos produtores.
Políticas de preços mínimos: Garantir que pequeno produtor não seja esmagado por oscilações violentas de preços.
Fortalecimento de cooperativas: Apoiar organização coletiva de pequenos produtores para ganhar escala, poder de negociação, acesso a tecnologia.
Fiscalização ambiental rigorosa: Punir desmatamento ilegal, contaminação de rios, uso inadequado de agrotóxicos — independente do tamanho do produtor.
Defesa de terras indígenas e tradicionais: Demarcação, proteção efetiva, respeito a direitos constitucionais dessas populações.
Incentivos para produção diversificada: Não apoiar apenas monocultura de exportação, mas também produção de alimentos para mercado interno.
Tributação progressiva: Grandes propriedades e corporações agrícolas devem pagar impostos proporcionais ao seu poder econômico. Pequenos produtores familiares merecem tratamento tributário diferenciado.
Combate à concentração fundiária: Limites para tamanho de propriedades, taxação de latifúndios improdutivos, dificultação de acumulação ilimitada de terras por corporações.
Crescer não basta: é preciso distribuir
Mato Grosso do Sul cresceu 17,9% no setor primário. Tocantins 16,4%. Paraná 16,1%. Todos os estados tiveram crescimento de dois dígitos.
Ótimo.
Mas crescimento econômico sem distribuição equitativa dos benefícios não é desenvolvimento — é apenas enriquecimento de poucos às custas de muitos.
2025 pode ser ano excepcional para o agronegócio brasileiro. A pergunta que não quer calar é: excepcional para quem? Se a resposta não incluir pequenos agricultores familiares, trabalhadores rurais, comunidades tradicionais e meio ambiente preservado, então esses recordes são apenas números vazios que mascaram concentração de riqueza, exploração e destruição ambiental.







