20/03/2026 20:34

Mensalidades de escolas particulares devem subir 9,8% em 2026, mais que o dobro da inflação

Reajuste considera salários de professores e custos operacionais; famílias devem ser informadas a partir de outubro

As mensalidades das escolas particulares devem registrar aumento médio de 9,8% na virada de 2025 para 2026, segundo levantamento da empresa de consultoria Grupo Rabbit. O percentual representa mais que o dobro da inflação esperada para o próximo ano, projetada em 4,81%.

Justificativa além da inflação

Amábile Pacios, vice-presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), explica que o reajuste não tem relação direta apenas com o índice inflacionário. “É necessário manter o funcionamento da escola, cobrindo gastos como salários de professores e tarifas de serviços públicos”, afirma.

“A lei estabelece que a correção pode ocorrer uma vez por ano e deve considerar tanto as despesas fixas — como aluguel, energia e água — quanto possíveis melhorias, como a inclusão de uma nova disciplina. São esses dois princípios que orientam qualquer planilha de custos”, complementa.

Marco legal e prazos

A declaração refere-se à Lei nº 9.870/1999, que regula as cobranças e obriga as instituições de ensino a informarem as novas taxas com, no mínimo, 45 dias de antecedência em relação ao prazo final de matrículas.

Segundo Pacios, os colégios privados tendem a divulgar as novas mensalidades já em outubro, permitindo que as famílias se planejem financeiramente para o próximo ano letivo.

Histórico de reajustes

Os aumentos recentes seguem padrão similar:

  • 9,3% em 2023/2024
  • 9,5% em 2024/2025
  • 9,8% previsto para 2025/2026

Esta consistência nos percentuais indica pressões estruturais de custos no setor educacional privado que vão além de variações inflacionárias pontuais.

Lucratividade em queda

Apesar dos reajustes sucessivos, a rentabilidade média do setor caiu para 14%, considerada muito baixa para empresas prestadoras de serviços, segundo o levantamento.

A educação infantil foi a etapa mais afetada, tendo concedido descontos próximos de 25% durante a pandemia e ainda não recuperado integralmente sua margem de lucro. As demais etapas de ensino conseguiram implementar aulas on-line durante a Covid-19 e tiveram impacto menor.

Evasão controlada

O estudo apresenta, contudo, sinal positivo para o setor: em abril de 2025, as rematrículas alcançaram recorde de 83%. A evasão para escolas mais baratas foi baixa, resultado atribuído à gestão mais eficiente e às estratégias de negociação com as famílias.

Amábile confirma a tendência, mas pondera que o avanço não é uniforme: “A lucratividade está muito difícil. Apenas os grandes grupos conseguem manter margens”, afirma.

Pressões de custos operacionais

Os principais fatores que pressionam os custos das instituições de ensino incluem:

Folha de pagamento: Professores representam parcela significativa dos custos, e reajustes salariais costumam superar a inflação devido a acordos coletivos e piso salarial.

Contas públicas: Energia elétrica e água têm sofrido reajustes acima da inflação nos últimos anos, impactando diretamente as despesas fixas.

Infraestrutura: Manutenção predial, equipamentos tecnológicos e materiais didáticos também apresentam encarecimento.

Impacto nas famílias

Para as famílias brasileiras, especialmente em contexto econômico desafiador, o reajuste de 9,8% representa pressão adicional no orçamento doméstico. A educação já consome parcela significativa da renda familiar, e aumentos acima da inflação exigem reorganização financeira.

Diferenças entre grandes grupos e escolas menores

A observação de que “apenas os grandes grupos conseguem manter margens” indica concentração de mercado e dificuldades para escolas menores manterem viabilidade financeira. Economias de escala beneficiam grandes redes, enquanto instituições independentes enfrentam desafios maiores.

Transparência necessária

A Lei nº 9.870/1999 exige que as escolas apresentem às famílias a planilha de custos detalhando os aumentos. Esta transparência permite que responsáveis compreendam a composição do reajuste e avaliem a justificativa apresentada.

O reajuste das mensalidades escolares reflete tensão entre necessidade de sustentabilidade financeira das instituições e capacidade de pagamento das famílias, tema que exige diálogo e transparência entre as partes.