03/02/2026 03:55

Operação Alquimia | Ofensiva nacional mira rede de bebidas adulteradas com metanol em MS; Caarapó é alvo

Em uma ação que mistura ciência forense e urgência sanitária, a Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (16) a Operação Alquimia, uma ofensiva nacional contra a adulteração de bebidas alcoólicas com metanol, substância altamente tóxica e potencialmente letal. A investigação se concentra em três cidades de Mato Grosso do Sul, Campo Grande, Dourados e Caarapó, expondo um esquema complexo de fabricação e distribuição clandestina que atravessa fronteiras e ramifica-se por pelo menos outros sete estados brasileiros.

As ações miram fábricas e usinas suspeitas de integrar uma cadeia criminosa que envolve importadores, distribuidoras químicas e destilarias. O objetivo, segundo a PF, é rastrear a rota do metanol utilizado na falsificação de bebidas e verificar se o produto encontrado nos alvos de hoje tem relação com amostras periciadas em investigações anteriores.

A operação conta com apoio da Receita Federal, da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), em uma tentativa de desmontar o circuito ilegal que converte um insumo industrial em um veneno de consumo.

O alerta vem do Ministério da Saúde: o Brasil já soma 36 casos confirmados de intoxicação por metanol, com sete mortes oficialmente registradas, cinco em São Paulo e duas em Pernambuco. Outros 156 casos seguem em investigação, além de 11 mortes sob análise. “Estamos atentos. O cenário ainda é grave, e seguimos em alerta máximo”, afirmou Edenilo Baltazar Barreira Filho, diretor do Departamento de Emergências em Saúde Pública, durante audiência no Senado.

De Mato Grosso do Sul para o país: uma rede invisível

A escolha de Mato Grosso do Sul como ponto focal da operação não é coincidência. O estado investiga quatro casos recentes de intoxicação por bebidas possivelmente adulteradas. Em paralelo, autoridades fiscalizam fábricas clandestinas e usinas de etanol suspeitas de desviar metanol para a produção ilegal de bebidas.

No total, amostras estão sendo coletadas em 24 empresas localizadas em 21 municípios brasileiros, incluindo cidades estratégicas para transporte e refino do produto. Em algumas delas, foram identificadas notas fiscais falsas, com rotas fictícias e motoristas inexistentes, uma teia de dissimulações que revela o grau de sofisticação da fraude.

Do combustível à taça: a nova face do crime químico

A Operação Alquimia é um desdobramento das operações Boyle e Carbono Oculto, ambas centradas no uso irregular de metanol em combustíveis. A Carbono Oculto revelou como empresas químicas compravam metanol legalmente, mas o revendiam a empresas de fachada, que desviavam a substância para postos de gasolina. Agora, as mesmas rotas ilícitas parecem abastecer destilarias e fábricas clandestinas de bebidas.

O metanol, que deveria ter uso restrito a processos industriais, é inserido de forma criminosa em bebidas alcoólicas, causando intoxicações graves e, muitas vezes, fatais. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o limite aceitável de metanol em bebidas é de apenas 0,1%. Acima disso, o risco é extremo: o consumo pode causar cegueira, falência renal e morte.

Um mercado que mata e movimenta bilhões

O mercado clandestino de bebidas no Brasil é um gigante invisível. De acordo com o Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP), as perdas econômicas causadas pela falsificação, contrabando e produção ilegal de bebidas chegam a R$ 85,2 bilhões por ano, número que soma sonegação de impostos e prejuízos à indústria.

Mas o impacto mais grave não é econômico, e sim humano. O metanol, incolor e de odor suave, é facilmente confundido com o etanol e seus efeitos tóxicos podem demorar horas para se manifestar, o que dificulta o diagnóstico precoce. Quando os sintomas aparecem, muitas vezes já é tarde demais.

Fiscalização tardia, crime precoce

A sucessão de operações envolvendo o metanol, agora migrando dos combustíveis para as bebidas — expõe um problema crônico de fiscalização. O controle sobre produtos químicos perigosos é fragmentado, disperso entre órgãos e reativo às tragédias, e não preventivo.

“A ausência de um sistema integrado de controle químico no Brasil é uma porta aberta para o crime organizado sofisticado”, alerta o jurista e especialista em segurança regulatória Walter Maierovitch.

A coordenação entre Polícia Federal, Receita, ANP e Mapa é um passo necessário, mas tardio. Falta ao país um mecanismo permanente de rastreabilidade para substâncias de alto risco, capaz de impedir o desvio antes que o produto se transforme em ameaça à saúde pública.

O que vem a seguir

Os materiais apreendidos nesta quinta-feira seguem para análise no Instituto Nacional de Criminalística, em Brasília. Os laudos técnicos deverão indicar se o metanol encontrado nos alvos integra o mesmo lote de substâncias identificadas em casos anteriores de intoxicação.

Os resultados podem consolidar provas contra empresas envolvidas no desvio e abrir caminho para responsabilização penal e cível dos responsáveis. Até lá, as autoridades de saúde reforçam um alerta que pode salvar vidas: evitar bebidas de origem duvidosa e denunciar práticas suspeitas às vigilâncias sanitárias locais.

Angela Schafer, de Campo Grande