O agronegócio brasileiro registrou aumento significativo nos pedidos de recuperação judicial no segundo trimestre de 2025, com 565 solicitações da medida, representando alta de 31,7% em comparação ao mesmo período do ano anterior (429) e crescimento de 45,2% frente ao primeiro trimestre (389). Os dados foram divulgados pelo indicador Datatech da Serasa Experian.
Mudança de perfil surpreende especialistas
O segundo trimestre trouxe uma mudança relevante no perfil dos solicitantes. Pela primeira vez desde o último trimestre de 2023, produtores que atuam como pessoa jurídica (PJ) superaram em quantidade os pedidos de produtores pessoa física (PF).
Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian, explica que a surpresa está no fato de produtores PJ – que possuem maior porte e são mais organizados em sua maioria – apresentarem quantidade superior de recuperações judiciais. “É a primeira vez que isso acontece desde o último trimestre de 2023, quando as RJs de produtores PF experimentaram um rápido crescimento. Ainda estamos avaliando se houve um represamento de pedidos ou alguma mudança no perfil”, afirma.
Produtores PJ registram crescimento expressivo
Conforme o levantamento, foram 243 requisições de recuperação judicial de produtores rurais que trabalham com perfil de pessoa jurídica no período. Na comparação com o mesmo trimestre de 2024, houve alta de 100,8% nos pedidos desta categoria.
Este crescimento de mais de 100% entre produtores PJ indica pressões financeiras significativas em empresas rurais de maior porte, tradicionalmente consideradas mais estáveis financeiramente.
Soja lidera pedidos de recuperação
Entre os produtores pessoa jurídica, o maior número de pedidos foi realizado pelos que atuam com cultivo de soja, totalizando 192 solicitações. Este número representa a maior concentração por atividade e reflete as dificuldades enfrentadas pelo principal grão de exportação do país.
A pecuária também teve destaque, com criadores de bovinos registrando 26 pedidos de recuperação judicial, evidenciando pressões em outro setor fundamental do agronegócio nacional.
Concentração geográfica
Embora não detalhados na fonte principal, historicamente Goiás e Mato Grosso concentram o maior número de solicitações de recuperação judicial no agronegócio, reflexo de serem os principais estados produtores de grãos e gado do país.
Fatores contribuintes
O aumento nas recuperações judiciais pode estar relacionado a diversos fatores que pressionam a rentabilidade dos produtores:
- Volatilidade nos preços das commodities
- Custos elevados de insumos e maquinário
- Pressões climáticas que afetam a produtividade
- Taxa de juros elevada que encarece o custeio
- Endividamento acumulado de safras anteriores
Impacto no setor
O crescimento de 31,7% nos pedidos de recuperação judicial sinaliza momento de dificuldades financeiras no agronegócio. Para um setor que representa parcela significativa do PIB brasileiro e das exportações, este indicador merece atenção especial.
Recuperação judicial como instrumento
A recuperação judicial permite que empresas em dificuldades financeiras negociem suas dívidas e mantenham suas atividades operacionais, evitando falências que poderiam ter impacto mais severo na cadeia produtiva.
Perspectivas e monitoramento
A Serasa Experian continua monitorando se o fenômeno representa mudança estrutural no perfil dos solicitantes ou movimento temporário. A análise dos próximos trimestres será crucial para determinar se há uma tendência de longo prazo ou situação pontual.
Necessidade de políticas de apoio
Os números evidenciam a necessidade de políticas públicas e privadas que apoiem a sustentabilidade financeira do agronegócio, especialmente para produtores de maior porte que tradicionalmente eram considerados mais estáveis.
O aumento nos pedidos de recuperação judicial no agronegócio reflete desafios financeiros significativos no setor, exigindo atenção de órgãos reguladores e formuladores de políticas públicas.








