02/02/2026 20:22

Preços da mandioca despencam 4,4% e expõem vulnerabilidade de pequenos produtores diante de indústrias que ditam o jogo

Maior queda semanal desde julho reflete desequilíbrio de poder: enquanto fecularias reduzem compras e fazem manutenção programada, agricultores familiares são forçados a antecipar colheita por necessidade de capital, aprofundando pressão sobre preços

Os preços da mandioca tiveram uma forte desvalorização na última semana, recuando 4,4% em relação ao período anterior — a maior queda semanal desde julho —, segundo levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP). Mas por trás desse número técnico existe uma realidade dolorosa que expõe a vulnerabilidade estrutural de milhares de pequenos produtores diante de um mercado controlado por indústrias que têm poder de ditar ritmo, preços e condições.

A queda reflete um desequilíbrio de forças: de um lado, produtores familiares pressionados pela necessidade urgente de capitalização, forçados a colher e vender mesmo diante de expectativas de preços baixos; do outro, indústrias que podem escolher reduzir compras, entrar em recesso programado, fazer manutenção, esperando momento mais favorável para adquirir a matéria-prima por valores ainda menores.

A pressão que força a colheita antecipada

De acordo com o Cepea, o avanço da colheita nas principais regiões produtoras foi estimulado por três fatores que, quando analisados em profundidade, revelam a fragilidade da posição dos agricultores:

Primeiro, condições climáticas mais favoráveis — fator positivo que naturalmente permite colheita.

Segundo, a necessidade desesperada de capitalização dos produtores — ou seja, agricultores precisando urgentemente de dinheiro para pagar contas, honrar compromissos, sustentar famílias, adquirir insumos.

Terceiro, expectativas baixistas para o início de 2026 — a percepção de que os preços podem cair ainda mais no futuro próximo.

Essa combinação é devastadora: produtores que precisam de dinheiro agora, sabendo que os preços provavelmente serão ainda piores daqui a alguns meses, são forçados a vender no momento menos favorável, aceitando valores que mal cobrem custos de produção.

Com a maior oferta de raiz no mercado resultante dessa colheita antecipada e pressionada, as indústrias conquistam ainda maior poder de negociação, aprofundando a retração dos preços pagos ao produtor. É um ciclo que sempre prejudica o elo mais fraco da cadeia.

Indústrias ditam o ritmo conforme conveniência

Por outro lado — e aqui está o contraste brutal de poder —, o levantamento mostra que a demanda industrial segue enfraquecida por escolha estratégica, não por incapacidade.

Diversas empresas de fécula e farinha reduziram deliberadamente suas atividades ou entraram em recesso e manutenção programada, o que diminuiu o volume de compra da matéria-prima neste início de dezembro.

Pense no que isso significa: enquanto pequenos produtores são forçados pelas circunstâncias a colher e vender urgentemente, indústrias podem escolher o momento de comprar, reduzir atividades quando convém, fazer pausas programadas, aguardar preços ainda mais baixos.

Essa assimetria de poder é estrutural no agronegócio brasileiro e raramente é discutida de forma honesta. Produtores familiares não têm capital de giro para segurar produto, não têm estrutura de armazenamento adequada, não têm margem financeira para esperar melhores condições. Indústrias têm tudo isso — e usam essa vantagem para pressionar preços para baixo.

Os números da desvalorização

Entre os dias 1º e 5 de dezembro, o preço médio nominal a prazo da tonelada de mandioca posta fecularia foi de R$ 530,81, o equivalente a R$ 0,9232 por grama de amido, representando queda de 4,4% frente à semana anterior.

Para dimensionar o impacto: um produtor que colheu 100 toneladas de mandioca recebeu aproximadamente R$ 2.300 a menos do que receberia uma semana antes pelo mesmo volume. Para uma família que depende exclusivamente dessa renda, R$ 2.300 representa diferença entre pagar contas ou ficar inadimplente, comprar insumos ou não conseguir plantar a próxima safra.

Retração anual brutal em termos reais

Na comparação com o mesmo período de 2024, a desvalorização é ainda mais dramática: 23,8% em termos reais, considerando a correção pelo IGP-DI (Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna).

Isso significa que, descontada a inflação do período, o poder de compra do produtor de mandioca caiu quase um quarto em apenas um ano. É perda brutal de renda que compromete não apenas a sobrevivência econômica das famílias agricultoras, mas sua capacidade de investir em melhorias, tecnologia, ou mesmo manter o padrão de vida básico.

Esse desempenho evidencia a pressão tremenda sobre o setor, que enfrenta um cenário de ajuste forçado de preços e rentabilidade cada vez menor diante da combinação perversa de oferta elevada (forçada pela necessidade) e consumo reduzido (escolha estratégica das indústrias).

Derivados também em queda

As pesquisas do Cepea também apontam queda nas cotações dos derivados da mandioca, como fécula e farinha, em grande parte das regiões acompanhadas.

O cenário de menor movimentação comercial nesses segmentos reforça o quadro de desaquecimento do mercado neste fim de ano, refletindo tanto a retração deliberada da demanda industrial quanto a antecipação das atividades sazonais nas empresas processadoras.

Mas observe: enquanto os preços da matéria-prima despencam 23,8% em termos reais, será que os produtos finais nas prateleiras dos supermercados — farinha de mandioca, fécula, polvilho — caíram na mesma proporção para o consumidor final?

A resposta quase certamente é não. A diferença entre a queda brutal no preço pago ao produtor e a variação muito menor (ou inexistente) no preço final ao consumidor fica retida em algum ponto da cadeia — e raramente é com quem efetivamente produz.

A mandioca e a agricultura familiar brasileira

A mandioca tem importância cultural, nutricional e econômica fundamental no Brasil. É alimento básico para milhões de famílias, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. É cultivada predominantemente por pequenos produtores familiares, muitas vezes em consórcio com outras culturas, representando segurança alimentar e renda para comunidades inteiras.

A raiz é extremamente versátil: além do consumo direto (mandioca cozida, frita), gera farinha, fécula (amido), polvilho, tapioca, diversos produtos industrializados. É cultura resistente, adaptada a diferentes climas e solos, que permite produção mesmo em condições adversas.

Justamente por essas características — cultura de pequenos produtores, dispersa geograficamente, sem grande organização coletiva —, os agricultores que dependem da mandioca têm poder de negociação extremamente limitado diante das indústrias compradoras.

O que falta para equilibrar a equação

Para enfrentar adequadamente a vulnerabilidade dos produtores de mandioca diante das oscilações de mercado e do poder desproporcional das indústrias, seriam necessárias políticas como:

Fortalecimento de cooperativas de produtores de mandioca, aumentando poder de negociação coletiva, permitindo venda organizada em melhores condições e evitando que cada agricultor negocie isoladamente em posição de fraqueza.

Estruturas públicas de armazenamento que permitam aos produtores segurar produto em momentos de preços muito baixos, evitando vendas forçadas em períodos desfavoráveis.

Preços mínimos garantidos que estabeleçam piso abaixo do qual os preços não podem cair, protegendo produtores de oscilações predatórias e garantindo renda mínima que cubra custos de produção.

Programas públicos de compra como PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar) priorizando agricultura familiar e garantindo mercado institucional com preços justos.

Políticas de agroindustrialização familiar que permitam aos próprios produtores agregarem valor, processando parte da produção em farinha, fécula, polvilho, capturando maior parcela da cadeia de valor.

Assistência técnica pública que ajude produtores a melhorarem produtividade, qualidade, manejo pós-colheita, reduzindo perdas e aumentando competitividade.

Transparência nos preços ao longo de toda a cadeia, permitindo que produtores e consumidores vejam claramente onde ficam retidas as margens de lucro e quem efetivamente se beneficia da diferença entre preço de origem e preço final.

A questão de fundo: quem captura o valor?

A situação da mandioca é sintoma de problema estrutural mais amplo do agronegócio brasileiro: a captura desproporcional de valor por intermediários e indústrias processadoras, enquanto quem efetivamente produz — geralmente agricultura familiar — fica com parcela cada vez menor da renda gerada pela cadeia.

Quando o preço pago ao produtor cai 23,8% em termos reais mas o preço final ao consumidor não cai proporcionalmente, alguém está capturando essa diferença. Não é o agricultor que acorda antes do sol para trabalhar na roça. Não é o consumidor final que compra farinha de mandioca no supermercado. É algum ponto intermediário da cadeia que tem poder de mercado suficiente para proteger suas margens mesmo quando pressiona preços de origem para baixo.

Recesso programado vs. necessidade urgente

A imagem do contraste é poderosa e reveladora: indústrias entrando em “recesso e manutenção programada”, escolhendo deliberadamente quando operar e quando pausar; produtores familiares forçados a colher e vender urgentemente por “necessidade de capitalização”, sem escolha, sem margem, sem poder.

Esse contraste não é acidente, não é falha de mercado, não é “lei da oferta e demanda” neutra operando naturalmente. É estrutura de poder desigual que sistematicamente favorece quem tem capital, estrutura, capacidade de esperar — e penaliza quem depende da venda imediata para sobreviver.

A queda de 4,4% nos preços da mandioca em uma semana não é apenas variação de mercado — é mais um capítulo de uma história de exploração estrutural que precisa ser confrontada com políticas públicas efetivas que protejam quem produz, garantam renda digna para agricultura familiar e redistribuam de forma mais justa o valor gerado por uma cadeia alimentar que sustenta milhões de brasileiros.