O setor brasileiro de mel vive um momento de crise iminente. A nova tarifa de 50% sobre produtos brasileiros imposta pelos Estados Unidos, sob ordem do presidente Donald Trump, pode causar um prejuízo de US$ 53 milhões até o fim de 2025 — o equivalente a aproximadamente R$ 289 milhões.
Mesmo antes da medida entrar em vigor, os reflexos já são sentidos. Segundo a Abemel (Associação Brasileira dos Exportadores de Mel), os embarques de mel para os EUA já caíram 50% em julho. Para agosto, a previsão é ainda mais drástica: queda de 80%.
“Essa tarifa pode quebrar o setor. O produtor não tem gordura para absorver esse impacto. Se o preço cair abaixo do custo, vira tragédia”, alerta Carlos Domingues, diretor da Minamel, uma das exportadoras já afetadas.
Queda de preço e colapso na cadeia produtiva
A estimativa da Abemel é que, além da redução de embarques, haja uma queda de até 30% no preço do produto. O problema se agrava porque a cadeia produtiva do mel é composta majoritariamente por agricultura familiar. Estados como Rio Grande do Sul, Paraná e Piauí são os maiores produtores.
No Piauí, por exemplo, a safra 2024/25 já foi impactada pela estiagem. Agora, com a tarifa, a situação dos pequenos produtores pode se tornar insustentável.
“Sem renda, não tem apicultura. Estamos falando de mais de mil famílias que vivem do mel”, afirma Janete Dias, gerente da Comapi, cooperativa de produtores no Piauí.
Setor se mobiliza e cobra reação do governo
Para tentar reverter a situação, empresas americanas que importam mel brasileiro estão redigindo cartas ao governo Trump, alegando que a produção local de mel orgânico é insignificante, tornando a compra do produto brasileiro essencial.
Essas cartas estão sendo entregues por parlamentares brasileiros a deputados norte-americanos em uma tentativa diplomática de inserir o mel na lista de exceções à tarifa.
Representantes do setor também participaram de uma reunião com o vice-presidente Geraldo Alckmin, onde pediram uma linha de crédito emergencial para evitar o colapso das operações.
“Temos estoque parado, queda de preço e nenhum canal viável de venda. O Brasil precisa abrir novos mercados com urgência ou proteger seus produtores”, conclui Renato Azevedo, presidente da Abemel.
Cenário preocupante
O mel brasileiro tem como principal destino os EUA, que receberam 79% das exportações em 2024. Em segundo lugar, vêm o Canadá (11%) e a Alemanha (6%). O mercado interno brasileiro absorve cerca de 30% da produção, mas ainda há baixa cultura de consumo no país, dificultando o escoamento.
A inclusão do mel em programas como a merenda escolar é uma alternativa estudada por cooperativas, mas ainda não há uma política nacional estruturada para isso.
Enquanto isso, milhares de pequenos produtores aguardam medidas concretas que evitem o pior: a destruição de um setor inteiro por falta de ação política.








