A política tarifária do governo Trump continua prejudicando trabalhadores brasileiros ligados ao agronegócio familiar e à produção de pequeno e médio porte. Apesar dos anúncios recentes que isentaram algumas mercadorias das sobretaxas impostas pelos Estados Unidos, produtos importantes como café solúvel, uva, mel e pescados continuam sofrendo taxação de 50% no mercado americano.
As decisões do governo dos EUA publicadas neste mês — uma no dia 14 e outra na última quinta-feira (20) — trouxeram alívio apenas parcial ao setor agropecuário brasileiro. Foram contemplados com isenção produtos de grande peso econômico, como café em grão e carne bovina, mas ficaram de fora itens que, embora representem menor volume no total das exportações, são fundamentais para a sobrevivência de comunidades inteiras.
O drama do café solúvel
A indústria brasileira de café solúvel vive um momento de incerteza. Segundo Aguinaldo Lima, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), ainda não há compreensão sobre por que o produto foi excluído das isenções, já que o café em grão foi beneficiado.
Em 2024, os Estados Unidos absorviam 38% de todo o café solúvel importado pelo país com origem no Brasil. As exportações brasileiras para o mercado americano começaram nos anos 1960 e, desde então, os norte-americanos se mantiveram como principal destino do produto nacional — até julho deste ano, quando Trump impôs a taxa adicional de 40%.
O impacto foi imediato e dramático. A Rússia, tradicionalmente o segundo maior comprador, passou a ocupar o primeiro lugar — algo inédito na história do setor. Entre agosto e outubro, as exportações para os EUA despencaram cerca de 50% em comparação com o mesmo período de 2024.
“O risco de perda de mercado nas gôndolas de supermercado nos EUA aumenta a cada dia”, alerta Lima. Segundo ele, parceiros americanos ainda estão consumindo estoques remanescentes na esperança de que a tarifa seja revogada, mas logo buscarão fornecedores alternativos como México, Colômbia, Vietnã e Europa.
Fruticultores no prejuízo
A uva brasileira, especialmente importante para agricultores familiares do Vale do São Francisco, também continua taxada. Em 2024, os Estados Unidos foram destino de 12% de todas as frutas frescas exportadas pelo Brasil, com a uva representando 23% do total vendido para o exterior.
Entre outubro e novembro, a comercialização de uvas para o mercado americano caiu 73% na comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo Eduardo Brandão, diretor-executivo da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas).
Embora os produtores tenham conseguido realocar parte da produção para países da Europa e América do Sul, o prejuízo veio na forma de menor poder de negociação. Com demanda reduzida, os preços caíram, afetando diretamente a renda de famílias que dependem da atividade.
Apicultores do semiárido ameaçados
Para os produtores de mel, especialmente no semiárido nordestino, a situação é ainda mais delicada. Além da sobretaxa de 50%, o mel brasileiro já enfrentava uma taxa de importação de 8,04% nos Estados Unidos.
“Era pra gente estar renovando os contratos, mas até agora nada. Eles dizem que vão continuar, mas ainda não temos confirmação”, relata Sitônio Dantas, diretor da Central de Cooperativas Apícolas do Semiárido Brasileiro (Casa Apis), em Picos, Piauí.
Os Estados Unidos representavam quase 80% de todas as exportações de mel natural do Brasil em 2024. Todos os contratos com compradores americanos estão garantidos apenas até dezembro de 2025, gerando enorme preocupação sobre o futuro da atividade.
“Provavelmente vão continuar comprando, mas terá uma queda no preço, isso é certeza, só não sabemos de quanto”, afirma Dantas, expressando a angústia de milhares de famílias de apicultores.
Pescadores e comunidades ribeirinhas esquecidos
A exclusão dos pescados das isenções representa um golpe para comunidades costeiras e ribeirinhas que dependem da atividade pesqueira. Eduardo Lobo, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca), foi direto ao criticar a situação.
“Não houve evolução alguma para o pescado, e isso mostra que essa pauta não tem recebido a priorização necessária por parte do governo brasileiro”, afirmou na sexta-feira (20).
As vendas de pescados para os Estados Unidos geram US$ 300 milhões por ano para o setor. Os norte-americanos representaram quase metade de todas as exportações do alimento em 2024. Segundo Lobo, a atividade tem peso fundamental no sustento de comunidades tradicionais, com forte impacto em pequenas e médias empresas, “justamente onde a sensibilidade às tarifas é maior”.
A necessidade de justiça comercial
O cenário expõe uma contradição das políticas tarifárias: enquanto grandes commodities e produtos de exportadores de maior porte recebem atenção nas negociações, trabalhadores de setores menores, mas socialmente vitais, ficam à margem.
As negociações entre os governos brasileiro e americano continuam, mas a cada dia que passa sem solução, famílias perdem renda, comunidades perdem perspectiva e o Brasil perde espaço para concorrentes internacionais.
“Precisamos de reciprocidade e de estratégia. A cada rodada de negociação em que o pescado é esquecido, perdemos espaço para concorrentes internacionais”, alertou Lobo, em palavras que se aplicam também aos demais setores prejudicados.
O momento exige que as autoridades brasileiras coloquem no centro das negociações não apenas os interesses de grandes exportadores, mas também — e especialmente — a defesa dos trabalhadores e produtores familiares que sustentam comunidades inteiras e preservam modos de vida tradicionais. É uma questão de justiça social e econômica.
Fonte: G1








