Empresas de Mato Grosso do Sul já tiveram R$ 244,1 milhões em financiamentos aprovados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) por meio do Plano Brasil Soberano, criado pelo governo federal para enfrentar os efeitos das tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos e das instabilidades no mercado internacional.
O montante foi autorizado desde setembro de 2025, quando o programa entrou em funcionamento, e poderá crescer diante de uma nova rodada de solicitações de crédito apresentada pelo setor produtivo estadual.
Segundo balanço divulgado pelo banco, a terceira etapa do programa, lançada em julho deste ano, já recebeu R$ 300 milhões em propostas de financiamento de empresas sul-mato-grossenses, todas destinadas à modalidade de capital de giro para exportação.
Os recursos são voltados ao financiamento das atividades de empresas que comercializam seus produtos no exterior, em um cenário de incertezas econômicas e mudanças nas relações comerciais entre países.
Os valores, entretanto, representam situações distintas. Enquanto os R$ 244,1 milhões correspondem a operações aprovadas desde a criação do Brasil Soberano, os R$ 300 milhões representam pedidos apresentados na nova fase, que ainda dependem da análise do BNDES. Portanto, não se trata de R$ 544,1 milhões já autorizados ao Estado.
Em todo o Brasil, os financiamentos aprovados desde setembro de 2025 somam R$ 32,6 bilhões. Desse total, R$ 1,63 bilhão corresponde à região Centro-Oeste, sendo aproximadamente 15% direcionados a empresas de Mato Grosso do Sul.
O levantamento não informa quantas empresas sul-mato-grossenses tiveram pedidos aprovados, quais municípios concentram as operações nem os setores responsáveis pela maior parte dos financiamentos.
Também não detalha quanto dos recursos autorizados já foi efetivamente desembolsado.
Tarifaço levou empresas de MS a buscar novos mercados
A concessão de crédito ocorre em meio aos desdobramentos de uma disputa comercial que provocou mudanças nas estratégias de exportação de empresas brasileiras, especialmente de setores ligados à indústria e ao agronegócio.
Em Mato Grosso do Sul, os efeitos das medidas comerciais norte-americanas começaram a mobilizar o setor produtivo ainda em 2025, quando o governo dos Estados Unidos anunciou a aplicação de tarifas adicionais sobre mercadorias brasileiras.
Naquele período, conforme revelou o Correio do Estado, frigoríficos de Mato Grosso do Sul passaram a buscar novos mercados para a carne bovina que seria exportada aos Estados Unidos.
Empresas do setor redirecionaram parte da produção para destinos como China, Chile, países do Oriente Médio e Filipinas, como alternativa para manter as operações comerciais diante das restrições impostas pelo governo norte-americano.
A movimentação evidenciou a dependência de determinados segmentos em relação aos compradores internacionais e a necessidade de diversificar mercados para reduzir riscos econômicos.
O cenário voltou a chamar atenção em 2026. Em julho, levantamento publicado pelo Correio do Estado mostrou que as exportações de Mato Grosso do Sul aos Estados Unidos perderam força nos meses de maio e junho, apesar do crescimento registrado no acumulado do primeiro semestre.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) apontaram que o Estado exportou US$ 371 milhões ao mercado norte-americano entre janeiro e junho, resultado 14% superior ao registrado no mesmo período de 2025.
Entretanto, após movimentarem US$ 73,39 milhões em abril, as vendas recuaram para US$ 36,53 milhões em maio e fecharam junho em US$ 44,81 milhões. A oscilação ocorreu em meio às incertezas comerciais, embora os números isolados não permitam atribuir toda a retração às tarifas.
Posteriormente, uma nova decisão do governo norte-americano reduziu parte da preocupação dos exportadores estaduais.
Em reportagem publicada no dia 17 de julho, o Correio do Estado mostrou que produtos importantes para a economia sul-mato-grossense ficaram fora da nova sobretaxa de 25% anunciada pelos Estados Unidos, incluindo carne bovina, celulose e ferro-gusa.
Apesar das exceções, as empresas brasileiras continuam expostas às mudanças nas políticas comerciais internacionais e aos efeitos de conflitos geopolíticos, fatores que motivaram a ampliação do Plano Brasil Soberano.
Exportações de MS movimentaram US$ 9,2 bilhões em 2026
A ampliação dos financiamentos também ocorre em um momento de crescimento das vendas internacionais de Mato Grosso do Sul, impulsionadas principalmente pelo agronegócio e pela indústria de transformação.
Conforme levantamento publicado pelo Correio do Estado em 8 de outubro, a soja voltou a liderar as exportações sul-mato-grossenses, superando a celulose, após apresentar crescimento expressivo na receita e no volume comercializado.
Entre janeiro e setembro deste ano, Mato Grosso do Sul exportou US$ 9,2 bilhões, avanço de 12,5% em comparação com os US$ 8,17 bilhões registrados no mesmo período de 2025.
A soja respondeu por US$ 2,87 bilhões das vendas externas, seguida pela celulose, com US$ 2,44 bilhões, e pela carne bovina, que movimentou US$ 1,64 bilhão. Juntos, os três produtos representaram aproximadamente 75% das exportações do Estado.
A China permaneceu como principal destino das mercadorias sul-mato-grossenses, concentrando 31,8% das vendas internacionais. Os Estados Unidos apareceram na segunda colocação, com participação de 9,9%, seguidos pelos Países Baixos, com 8,8%, e pelo Irã, com 6,6%.
A presença de países envolvidos em disputas comerciais ou tensões geopolíticas entre os principais parceiros do Estado demonstra a importância do cenário internacional para o desempenho da economia regional.
Nesse contexto, os financiamentos do BNDES buscam oferecer condições para que empresas mantenham suas operações, preservem a capacidade produtiva e encontrem alternativas para ampliar sua participação no comércio exterior.
O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, afirma que o Brasil Soberano representa uma resposta do governo federal aos desafios enfrentados pelo setor produtivo.
“O Brasil Soberano é uma resposta do Estado brasileiro à altura dos desafios impostos pelo tarifaço e pelas tensões geopolíticas. Ao garantir crédito e condições para que as empresas atravessem esse momento, o programa protege empregos, preserva cadeias produtivas e assegura que o país siga crescendo com autonomia”, declarou.
Nova fase tem orçamento de R$ 22,6 bilhões
Lançado inicialmente em setembro de 2025, o Plano Brasil Soberano passou por três etapas de implementação, acompanhando as mudanças no cenário econômico internacional.
A primeira fase foi estruturada para apoiar empresas atingidas pelas tarifas impostas pelo governo dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros.
Em março de 2026, o programa foi ampliado para contemplar exportadoras e empresas consideradas relevantes para a balança comercial nacional, incluindo aquelas afetadas pelas tensões no Oriente Médio e por outras situações de instabilidade internacional.
A terceira etapa, lançada em julho, ampliou novamente os setores com acesso aos financiamentos e recebeu um orçamento total de R$ 22,6 bilhões. Desse montante, R$ 13,5 bilhões são provenientes do Tesouro Nacional e R$ 9,1 bilhões correspondem a recursos próprios do BNDES.
Em todo o País, as propostas apresentadas nessa nova fase já somam R$ 14,1 bilhões, dos quais R$ 5,4 bilhões tiveram aprovação, conforme o balanço divulgado pela instituição financeira.
Entre os recursos aprovados nacionalmente, aproximadamente R$ 2 bilhões foram destinados a empresas afetadas pelas tarifas norte-americanas e seus fornecedores.
Outros R$ 1,5 bilhão contemplaram setores industriais considerados estratégicos, como os segmentos químico, farmacêutico, têxtil e de minerais críticos.
Já as empresas que exportam para países do Golfo Pérsico e seus fornecedores tiveram R$ 1,4 bilhão em financiamentos aprovados.
Os recursos podem ser utilizados para capital de giro, aquisição de máquinas e equipamentos, ampliação da capacidade produtiva, inovação tecnológica e adaptação de processos industriais.
Quem pode solicitar os financiamentos?
As regras do Brasil Soberano estabelecem três grupos de empresas que podem acessar as linhas de crédito, conforme critérios definidos pelos ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
O primeiro grupo reúne empresas exportadoras afetadas pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos e seus fornecedores.
Entre os requisitos para as exportadoras está a necessidade de comprovar que as vendas dos produtos atingidos ao mercado norte-americano representaram pelo menos 1% do faturamento bruto no período de julho de 2024 a junho de 2025.
O segundo grupo contempla indústrias consideradas estratégicas para o comércio exterior brasileiro, incluindo empresas dos segmentos químico, farmacêutico, automotivo, têxtil, de máquinas e equipamentos, fertilizantes e minerais críticos, desde que enquadradas nas atividades econômicas previstas nas normas federais.
O terceiro grupo abrange empresas que exportam para países do Golfo Pérsico, como Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Irã, Iraque, Kuwait e Omã, além de fornecedores que atendam aos critérios estabelecidos.
Para as exportadoras, uma das exigências é que as vendas externas elegíveis tenham representado pelo menos 1% do faturamento bruto em 2025.
As empresas interessadas dos primeiro e terceiro grupos devem verificar sua elegibilidade na plataforma oficial do Brasil Soberano, com autenticação pelo GOV.BR e utilização do certificado digital empresarial.
Para as indústrias enquadradas no segundo grupo, a verificação ocorre por meio dos códigos da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) registrados no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ).
Em Mato Grosso do Sul, o volume de solicitações apresentado na terceira fase indica demanda por recursos para financiar as exportações.
Entretanto, a liberação dos R$ 300 milhões solicitados ainda depende da análise das propostas, e o banco não informou quantas empresas poderão ser contempladas nessa nova etapa.
WELYSON LUCAS – CORREIO DO ESTADO/FOTO: AGÊNCIA BRASIL







