22/06/2026 12:31

Empresa do Banco Master ainda desconta dinheiro de servidores

O Governo de Mato Grosso do Sul autorizou uma empresa, do núcleo principal do escândalo do Banco Master, a acessar o sistema de folha de pagamento de seus servidores sem verificar que ela não constava na lista de instituições financeiras reguladas pelo Banco Central do Brasil (BC).

Três anos depois, há mais de 500 ações tramitando no Tribunal de Justiça  de Mato Grosso do Sul (TJMS) por contratação indevida e outros processos, a maioria de servidores aposentados e idosos, contra a PKL One Participações S.A., empresa ligada ao Master que gere o cartão Credcesta.

Até 2025, o Banco Master acumulou R$ 1,9 bilhão em operações na categoria Reserva de Cartão Consignado (RCC), conforme dados do Ministério da Previdência obtidos via Lei de Acesso à Informação.

Desde março de 2023, a PKL One Participações S.A. opera no eConsig, o sistema estadual de consignações, com base em convênio firmado pela Secretaria de Estado de Administração de Mato Grosso do Sul (SAD). 

Em setembro de 2025, foi um juiz da 2ª Vara Bancária de Campo Grande quem constatou que a empresa “não compõe a lista de instituições financeiras” do BCB. A SAD não havia verificado. 

Hoje, o Estado mantém um convênio com a operadora de um produto ligado a dois bancos que o próprio Banco Central liquidou.

O produto é o Credcesta, cartão de crédito rotativo com desconto automático em folha, emitido pelo Banco Master S.A..

O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master em 18 de novembro de 2025, após identificar “grave crise de liquidez” e “violações às normas” do sistema financeiro nacional. 

A operação migrou então para o Banco Pleno, controlado pelo empresário Augusto Lima, ex-sócio do Master. Em 18 de fevereiro deste ano, o Banco Central liquidou também o Pleno.

Com os dois bancos sob intervenção federal, os descontos em folha continuam. O convênio do Estado de MS com a PKL One Participações S.A., renovado em março de 2025, oito meses antes da primeira liquidação, segue em vigor.

Com os bancos liquidados, as execuções dos contratos de crédito seguem sob custódia do Banco Central, que é quem faz a gestão dos ativos do banco liquidado e do pagamento aos credores das instituições. 

A renovação que não deveria ter ocorrido
Quando a SAD assinou o Convênio nº 9/2023 com a PKL One Participações S.A., em 14 de março de 2023, identificou a empresa no documento como “Banco PKL One Participações S.A.”, denominação com a palavra “banco” que não corresponde a nenhuma autorização do BC.

As signatárias pelo Estado foram a então secretária de Administração, Ana Carolina Araujo Nardes, e a representante do PKL One Participações S.A., Ana Paula de Almeida Pithon.

Em março de 2025, quando o histórico de fraudes e assédio a servidores já estava documentado em ações judiciais por todo o País, a SAD firmou o Convênio nº 5/2025, renovando o credenciamento da PKL One Participações S.A. até o dia 10 de março de 2027.

O documento foi assinado por Frederico Felini secretário de Administração, Ana Paula de Almeida Pithon e Andrea Lima Novaes.

O Decreto Estadual nº 16.066/2022, que regula as consignações em folha do Poder Executivo de MS, prevê que consignatárias devem demonstrar regularidade para se credenciar.

Não há registro público de que a SAD tenha verificado, antes de assinar qualquer dos dois convênios, a situação da PKL One Participações S.A. perante o Banco Central.

Como o produto chegou aos servidores
O perfil majoritário é de servidores públicos idosos, com problemas de saúde, pouco conhecimento financeiro ou traquejo digital. Pessoas que contrataram o empréstimo por telefone, sem entender muito bem do que se tratava.

O problema em Mato Grosso do Sul é parte de um fenômeno documentado em todo o País. Somente no Tribunal de Justiça da Bahia, onde o produto nasceu com autorização exclusiva do governo estadual em 2018, existem mais de 10.200 ações envolvendo o Credcesta. 

A liquidação do Master expôs ainda outro problema: a instituição teria vendido R$ 12,2 bilhões em operações de crédito ao Banco de Brasília (BRB), com contratos do Credcesta entre os ativos negociados, segundo investigação da Polícia Federal (PF). 

O Master é alvo das Operações Overclean, Farol na Colina e Compliance Zero. Na quinta-feira, nova fase da Compliance Zero cumpriu mandados de busca e apreensão.

Para quem contratou o Credcesta até setembro de 2025, os descontos continuam atrelados ao Master, sem resposta do liquidante. Para quem contratou depois, o responsável passou a ser o Banco Pleno, também liquidado. 

Apenas o Governo do Paraná bloqueou os descontos do Credcesta em folha após a liquidação do Master. Em Mato Grosso do Sul, o Convênio nº 5/2025 segue vigente.

Limbo dos servidores
Os 500 processos no TJMS identificados em consulta ao portal e-SAJ registram, em seus autos, o resultado prático dessa omissão.

Os casos seguem um padrão: servidores e aposentados que acreditavam ter contratado empréstimo consignado com prazo definido e passaram anos com descontos que não amortizavam a dívida, sem contratos em mãos, sem respostas da empresa, sem saída.

Um dos casos mostra uma servidora aposentada e idosa que tem dois contratos simultâneos do Credcesta no eConsig, que geram descontos de R$ 441,31 e R$ 258,71 mensais, respectivamente.

Sobre uma renda líquida de R$ 1.404,91, os dois cartões consomem R$ 700,02, ou seja, quase metade do salário. 

A notificação extrajudicial enviada ao endereço atendimento@credcesta.com.br em dezembro de 2024 não obteve resposta.

O processo foi extinto em primeira instância por questão processual e restabelecido pelo TJMS em março deste ano.

Em outro caso, um servidor acumula R$ 1.670,10 descontados desde novembro de 2023. Em juízo, PKL One Participações S.A. afirmou não possuir documentos da contratação e alegou que “a responsabilidade seria do Banco Master”, mas é a PKL One Participações S.A. que consta como consignatária no eConsig do Estado.

Uma servidora da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), que pediu anonimato, apresentou à reportagem uma Autorização de Desconto com o campo de assinatura em branco. Afirma nunca ter recebido o cartão físico.

Outro militar aposentado da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul (PMMS), teve R$ 3.390,49 descontados nos últimos dois anos, encerrando fevereiro deste ano com líquido de R$ 1.203,39. 

CredCesta
A propaganda do produto chegou a MS com linguagem cuidadosamente construída: “sem taxa de anuidade, sem taxa de serviço, sem taxa de entrega”, “juros mais baixos que os demais cartões convencionais”, “desconto mínimo de apenas 5% na folha”. O material listava ainda descontos em farmácias, seguro de vida e assistência funeral.

O nome Cartão Benefício Consignado completava a impressão de um produto simples e seguro. Para o servidor público, “consignado” tem significado preciso: prazo definido, parcela fixa, fim certo. O Credcesta não funciona assim.

Trata-se de cartão de crédito rotativo na modalidade Reserva de Cartão Consignado (RCC) de Benefício. O desconto mensal em folha cobre apenas o pagamento mínimo da fatura, 5% da remuneração bruta. 

O saldo restante não é amortizado: acumula juros de até 2,46% ao mês, teto fixado pelo Conselho Nacional de Previdência Social (CNPS), superior ao limite de 1,85% ao mês do consignado tradicional. A taxa pode atingir 95,22% ao ano.

O banco dizia, por exemplo, que um servidor poderia pegar R$ 1 mil e pagar em 96 parcelas. Como essas parcelas vêm descontadas como “Credcesta” no contracheque, o servidor acreditava que estava pagando um consignado.

Correio do Estado – Foto: Gerson Oliveira / Correio do Estado