13/08/2026 13:58

Mesmo com o Desenrola 2.0, inadimplência dispara em MS

Mais de 60% da população de Mato Grosso do Sul está inadimplente, colocando o Estado entre os cinco do País com maior proporção de consumidores com o nome restrito.

Os dados, enviados com exclusividade ao Correio do Estado, mostram que o número de inadimplentes chegou a 1.313.053 em julho, enquanto o volume de dívidas alcançou 6,2 milhões, totalizando R$ 11,16 bilhões em débitos, mesmo com programas de renegociação de dívidas em vigência.

O porcentual de 60,29% foi registrado no levantamento de julho da Serasa, quando MS apareceu na quarta posição entre os estados com maior parcela da população inadimplente. O índice fica atrás apenas de Amapá (64,86%), Distrito Federal (63,02%) e Amazonas (60,77%).

Em janeiro deste ano, eram 1.266.599 pessoas inadimplentes no Estado. Em julho, o número chegou a 1.313.053, o que representa 46.454 novos inadimplentes em apenas sete meses, uma alta de 3,7%.

Considerando os 148 dias úteis nos sete meses, são 313 pessoas diariamente entrando para a lista do nome sujo.

Na comparação com julho de 2025, quando MS tinha 1.201.898 pessoas com o nome restrito, o aumento é de 9,2%, com 111.155 novos inadimplentes em 12 meses.

A evolução perdeu força entre junho e julho, foram apenas 137 novos negativados, uma alta de 0,01%. Em Mato Grosso do Sul, cada inadimplente deve, em média, R$ 8.500,27, enquanto o valor médio de cada dívida é de R$ 1.799,44. O total de débitos passou de R$ 11,07 bilhões em junho para R$ 11,16 bilhões em julho.

CRÉDITO
Para o mestre em Economia Eugênio Pavão, a perda de poder de compra e o aumento do custo de vida ajudam a explicar o avanço da inadimplência. Segundo ele, as famílias têm recorrido ao crédito para complementar a renda e manter o consumo e as despesas básicas.

“Estamos diante de um endividamento estrutural, que não é mais apenas fruto de consumo, mas de sobrevivência”, avalia.

O cartão de crédito aparece como uma das principais ferramentas utilizadas para administrar o orçamento.

No Estado, bancos e cartões concentram 28,26% das dívidas, mantendo a liderança entre os segmentos. Na sequência aparecem financeiras, com 18,24%, utilities (contas de água, luz, etc), com 17,58%, serviços, com 14,04%, e varejo, com 9,39%.

“Esse comportamento indica que, para muitos brasileiros, o cartão deixou de ser apenas uma alternativa para compras parceladas e passou a integrar o planejamento financeiro cotidiano”, afirma Camila Martins, gerente de Crédito da Serasa.

RENEGOCIAÇÃO
Apesar de haver um aumento da procura dos consumidores por alternativas para colocar as contas em dia, com programas para limpar o nome, como o Desenrola do governo federal, a inadimplência segue em disparada.

“Mesmo diante desse cenário de inadimplência ainda elevado, os consumidores estão sim aproveitando as oportunidades para renegociar suas dívidas, especialmente quando vem acompanhado de maiores e melhores condições, como é o caso desses programas e mutirões de renegociação de dívidas como o descontaço da Serasa e o Desenrola”, afirma Soraia Domingos, especialista da Serasa em Educação Financeira.

Pesquisa da Serasa em parceria com o Instituto Opinion Box aponta que 50% dos entrevistados afirma ter gastado mais do que planejava no primeiro semestre deste ano.

Ao mesmo tempo, 54% dos brasileiros dizem revisar o planejamento financeiro no meio do ano e definir os próximos passos. Entre os objetivos para o segundo semestre, 49% pretendem quitar dívidas, 32% querem limpar o nome e 29% planejam formar uma reserva.

“O meio do ano é um momento importante para refletir sobre o planejamento financeiro e ajustar a rota quando necessário. Percebemos que os consumidores estão mais conscientes sobre a importância de reorganizar o orçamento e estabelecer metas compatíveis com sua realidade financeira”, conclui Soraia.

CIDADES
Campo Grande concentra a maior quantidade de consumidores negativados. Em julho, eram 500.375 inadimplentes, com 2,66 milhões de dívidas que somavam R$ 4,96 bilhões. O ticket médio por inadimplente chegou a R$ 9.917,56.

Dourados tinha 108.839 inadimplentes e R$ 983,8 milhões em dívidas. Três Lagoas registrava 59.426 pessoas negativadas e R$ 480,7 milhões em débitos. Corumbá tinha 49.364 inadimplentes e R$ 366,9 milhões, enquanto Ponta Porã registrava 40.285 pessoas com o nome restrito e R$ 307,3 milhões em dívidas.

SÚZAN BENITES – CORREIO DO ESTADO/FOTO: GERSON OLIVEIRA