Embora estejam entre os grupos mais vulneráveis quando o assunto são os eventos climáticos extremos no Brasil, os pequenos negócios ainda ocupam pouco espaço nas discussões sobre adaptação. Com menor capacidade financeira para absorver perdas de estoque e aumento das despesas, por exemplo, esses empreendedores podem ter a continuidade das atividades comprometida por impactos que empresas maiores conseguem administrar com mais facilidade.
O alerta foi feito pelo diretor técnico do Sebrae, André Schelini, durante o evento ‘Riscos Climáticos e o Setor Segurador: como ampliar a resiliência do Brasil?’, realizado na última quinta-feira (6), em São Paulo.
Segundo pesquisa apresentada pelo especialista, 70% dos pequenos negócios demonstram preocupação com as mudanças climáticas, enquanto 63% já relatam ter enfrentado algum tipo de impacto.
Entre os problemas mencionados por André, estão escassez ou racionamento de água e energia, perda de produtos e aumento dos custos de operação. Em muitos casos, os empresários não conseguem transferir esses custos para os preços finais e não contam com proteção financeira suficiente para compensar as perdas.
Encontro discutiu incerteza climáticas e proteção financeira
O encontro reuniu especialistas para tratar dos desafios gerados pelo avanço dos eventos climáticos extremos e das medidas que podem ser adotadas para reduzir seus efeitos sobre a economia.
Apesar da dificuldade de prever exatamente quando, onde e com que intensidade ocorrerá o próximo evento, os palestrantes defenderam que o nível de conhecimento disponível já permite ampliar ações de prevenção e fortalecer medidas de proteção financeira para municípios, empresas e produtores rurais.
O encontro foi promovido pelo iCS (Instituto Clima e Sociedade) e pela CNseg (Confederação Nacional das Seguradoras), no Masp (Museu de Arte de São Paulo), como parte da programação do World Climate Summit São Paulo, organizado pela World Climate Foundation.
Na abertura, a diretora executiva do iCS, Maria Netto, chamou atenção para o aumento dos impactos econômicos, fiscais e sociais associados às mudanças climáticas. Segundo ela, a intensificação e a maior frequência dos eventos extremos ampliam os custos da falta de preparação.
“O custo dos impactos climáticos e da inação vem crescendo e ele não é só econômico: afeta políticas públicas, agricultura, segurança alimentar e a continuidade de serviços essenciais, como energia, água, saneamento e logística. Precisamos olhar para o futuro de uma forma diferente de como olhávamos para o passado, identificar esses riscos e ter resiliência no planejamento”, afirmou.
Maria Netto também destacou que o setor segurador pode desempenhar uma função que vai além da compensação financeira após a ocorrência de um desastre. Para ela, os seguros podem ajudar a identificar riscos, estimular medidas preventivas e contribuir para a construção de uma economia mais preparada para os efeitos das mudanças climáticas.
A diretora executiva acrescentou, ainda, que transformar dados climáticos complexos em informações acessíveis é fundamental para que governos, empresas e comunidades consigam considerar esses riscos às suas decisões.
Informação disponível já permite agir
A primeira mesa do evento foi conduzida pela diretora de Sustentabilidade da MAPFRE Seguros, Fátima Lima, e abordou os efeitos do El Niño, os mecanismos de proteção financeira e os impactos sobre pequenos negócios. O debate também tratou da utilização de dados, seguros e políticas públicas como mecanismos para antecipar os riscos e reduzir as perdas.
Presidente do Comitê Diretor do Sistema Global de Observação do Clima, da Organização Meteorológica Mundial, Thelma Krug pontuou que a ausência de previsões climáticas precisas sobre cada ocorrência não deve impedir que medidas de adaptação sejam adotadas. Para ela, as projeções disponíveis já são suficientes para orientar essas decisões.
“Eu não sei dizer exatamente o que vai acontecer, mas sei que vai acontecer. Não precisamos esperar para agir. Já sabemos o que precisa ser feito, as cidades sabem que precisam se preparar e as soluções existem. As decisões precisam ser tomadas antes que todas as certezas estejam disponíveis. Diferentes regiões do Brasil enfrentarão riscos, exigindo respostas territorializadas e maior atenção às populações vulneráveis.”
Incorporação dos riscos climáticos
A segunda mesa concentrou-se na incorporação dos riscos climáticos aos projetos de infraestrutura e às concessões públicas. A discussão foi moderada por Cláudia Prates, diretora de Sustentabilidade da CNseg.
Viviane Torinelli, gerente de Sustentabilidade do Banco Central, explicou que os impactos climáticos não permanecem restritos ao meio ambiente, já que eles também se convertem em riscos econômicos e financeiros, com efeitos especialmente relevantes sobre o mercado de crédito.
Segundo ela, essa preocupação integra a agenda de mais de 130 bancos centrais que participam de uma rede internacional dedicada a avaliar os impactos ambientais sobre o sistema financeiro.
No BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), a avaliação dos riscos climáticos também tem ganhado espaço nos processos de financiamento. Luciene Machado, superintendente de Estruturação de Projetos do banco, afirmou que essa análise deixou de ser exclusivamente qualitativa. Ao mesmo tempo, estados e municípios ainda precisam avançar na identificação de suas vulnerabilidades e na incorporação dessas informações aos orçamentos e às matrizes de risco dos projetos.
O desafio, segundo ela, é fazer com que os novos projetos considerem as condições climáticas que poderão existir durante sua vida útil, e não apenas o histórico recente de ocorrências.
Já para a especialista em riscos climáticos Melina Amoni, as empresas estão avançando na tentativa de transformar informações sobre o clima em parâmetros concretos para decisões de investimento e negócios. Assim, os estudos precisam ir além da estimativa dos prejuízos provocados pelos eventos extremos e também mensurar o retorno econômico das medidas de adaptação.
Seguro rural precisa acompanhar a nova realidade climática
A terceira mesa do encontro, moderada por Guilherme Bastos, da FGV Agro, debateu os impactos no campo. Os participantes defenderam mudanças na forma como o seguro rural e o crédito são estruturados diante da maior frequência de eventos climáticos extremos.
João José Prieto Flávio, gerente técnico e econômico do Sistema OCB, destacou a atuação das cooperativas na oferta de assistência técnica, na disseminação de práticas agrícolas adaptadas às condições de cada região, no acesso ao crédito e na orientação dos produtores sobre seguros.
Daniel Nascimento, presidente da Comissão Rural da FenSeg e gerente executivo de Seguros Rurais da BrasilSeg, afirmou que informações relacionadas ao manejo, à qualidade do solo, à irrigação, à rotação de culturas e a outras práticas sustentáveis podem ser utilizadas para diferenciar as condições oferecidas a produtores que adotam medidas capazes de reduzir sua exposição aos riscos.
A pressão sobre o mercado segurador ficou evidente nas safras de 2021 e 2022, quando o setor registrou sua maior perda histórica e pagou mais de R$ 10 bilhões em indenizações.
Por fim, para Gláucio Toyama, diretor de Soluções Agro do IRB(Re), a resposta passa pela criação de produtos capazes de refletir a diversidade da produção agropecuária brasileira e pela recuperação da capacidade do mercado de absorver grandes eventos climáticos.
Jennifer Ribeiro – Midiamax/Foto: Clayton Neves, Jornal Midiamax







