14/09/2026 15:23

Inpasa inclui MS na rota de alcoolduto que custará R$ 22 bilhões

Com duas usinas para produção de etanol de milho em Mato Grosso do Sul (Dourados e Sidrolândia), a Inpasa pretende investir R$ 22 bilhões para construir dois dutos para transporte de combustíveis entre Sinop (MT) e Paulínia (SP), numa extensão de 2,1 mil quilômetros, passando por Campo Grande e outros nove municípios de Mato Grosso do Sul.

Batizado de Projeto Pascal, o empreendimento permitirá transportar 13,3 milhões de metros cúbicos de etanol do Centro-Oeste a Paulínia, principal polo de distribuição de combustíveis do país e, posteriormente, ao Porto de Santos.

No sentido inverso, um segundo duto levará 6,6 milhões de metros cúbicos de derivados de petróleo de Paulínia rumo a Mato Grosso do Sul e Mato Grosso.

De acordo com o site Eixos, no trecho inicial os dutos devem acompanhar o traçado da BR-163, entre Sinop e Campo Grande, uma distância da ordem 1,1 mil quilômetros. 

Depois disso, a pretensão é acompanhar o traçado do Gasbol, saindo de Campo Grande e passando por Ribas do Rio Pardo, Água Clara e Três Lagoas.

Documentos obtidos pela agência Eixos mostram que o projeto já foi inclusive apresentado ao Ibama para o início do licenciamento ambiental federal. O empreendimento está formalmente sob responsabilidade da IPA Participações Ltda.

O investimento representaria um salto na infraestrutura de escoamento do etanol de milho, cuja produção cresceu rapidamente nos últimos anos no Centro-Oeste.

Segundo dados apresentados pela empresa, 15 usinas de etanol de milho foram construídas na região Centro-Oeste nos últimos cinco anos.

A produção regional aumentou de 11,3 milhões para 16,2 milhões de metros cúbicos e já representa quase a metade da produção brasileira de etanol.

Os dois dutos planejados pela Inpasa serão instalados paralelamente e compartilharão uma única faixa de passagem. O Projeto Pascal foi dividido em quatro trechos:

O primeiro liga a usina da Inpasa em Sinop (MT) à unidade de Nova Mutum (MT). O traçado passa por uma estação de bombeamento em Primavera, no município de Sorriso.  

Na sequência, os dutos avançam de Nova Mutum a Rondonópolis, onde a Inpasa tem um projeto de usina em construção, passando por Rosário Oeste, Cuiabá e São Vicente da Serra, no Mato Grosso. 

O terceiro trecho conecta Rondonópolis a Campo Grande (MS), ainda pelo corredor da BR-163, com passagem por cidades como Sonora (onde existe uma usina de etanol produzido a partir da cana-de-açúcar), Coxim, Rio Verde de Mato Grosso, São Gabriel do Oeste, Bandeirantes, Jaraguari e chegando a Campo Grande, onde os dutos receberiam o etanol produzido pela Inpasa em Dourados e Sidrolândia.  
      
A última etapa vai de Campo Grande a Paulínia (SP) e compartilha a faixa do Gasbol. O percurso inclui estações em Ribas do Rio Pardo (MS), Três Lagoas (MS), Bilac, no município de Araçatuba (SP), Lins (SP) e Boa Esperança do Sul (SP).

Os documentos apresentam números distintos sobre a quantidade de municípios atravessados. Uma descrição da Ficha de Caracterização da Atividade (FCA) menciona 72 municípios 21 em Mato Grosso, 11 em Mato Grosso do Sul e 40 em São Paulo. Outro trecho da documentação contabiliza 69 municípios, sendo 19 em Mato Grosso, dez em Mato Grosso do Sul e 40 em São Paulo, possivelmente em razão de ajustes posteriores no traçado.

Licenciamento
O desenho reapresentado ao Ibama também ajustou o percurso para coincidir com as localizações previstas para os terminais de Sinop e Paulínia.

Uma vistoria aérea realizada no âmbito da análise ambiental constatou que a faixa de servidão do Gasbol se encontra, em geral, conservada e claramente delimitada.

A utilização de um corredor de infraestrutura já existente é apresentada como uma maneira de evitar a abertura de novas faixas e reduzir a supressão e a fragmentação da vegetação nativa.

O Ibama identificou, entretanto, áreas de sensibilidade ambiental e social ao longo do percurso. O corredor atravessa áreas agrícolas e de pastagem, remanescentes de vegetação nativa, áreas de preservação permanente, zonas úmidas e diversos cursos d’água.

Também foram verificadas edificações residenciais dentro ou imediatamente ao lado da faixa de servidão do Gasbol em pontos onde a expansão urbana avançou sobre o corredor.

Segundo a análise técnica, a situação exigirá atenção especial para segurança operacional, gerenciamento de riscos e restrições ao uso e à ocupação da faixa.

O órgão ambiental concluiu que a adoção de corredores já antropizados reduz novas intervenções, mas não elimina os impactos.

Áreas urbanizadas, travessias de grandes rios, zonas úmidas e segmentos de relevo acidentado precisarão ser aprofundados nos estudos ambientais.

A recomendação é que o futuro termo de referência cobre a avaliação de alternativas locacionais e a identificação do traçado de menor impacto. O documento servirá de base para a elaboração do Estudo e do Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima).

Menos caminhão
A Inpasa estima que a operação dos dutos poderá retirar das rodovias aproximadamente 225 mil viagens de caminhão por ano, equivalentes à utilização de cerca de 5,4 mil veículos e motoristas.

Parte dessa estrutura poderia ser direcionada às operações de primeira e última milha entre usinas, terminais e bases de distribuição ou ao transporte da crescente safra de grãos do Centro-Oeste.

De acordo com a apresentação do projeto, o transporte dutoviário emite até 80 vezes menos carbono por tonelada-quilômetro do que o modal rodoviário.

 Em sua capacidade nominal, os dois dutos evitariam aproximadamente 500 mil toneladas de emissões de carbono por ano. Os números são projeções da própria companhia e ainda dependerão da configuração definitiva e do nível de utilização da infraestrutura.

A empresa projeta uma média de quatro mil postos de trabalho durante os cinco anos de construção, com pico de oito mil trabalhadores. Para a fase operacional, os documentos consultados apresentam estimativas de 185 a 407 empregos.

Além da redução de emissões e do tráfego rodoviário, a Inpasa aponta como benefícios uma maior estabilidade no abastecimento, menor exposição à volatilidade dos fretes e mais controle sobre a qualidade, a origem e a tributação dos combustíveis transportados.

O projeto também ajudaria a solucionar uma assimetria logística do Centro-Oeste.  A região ampliou rapidamente sua produção de etanol, mas está distante dos grandes centros consumidores e dos portos de exportação. Ao mesmo tempo, depende do transporte rodoviário de derivados produzidos ou recebidos no Sudeste.

A distância entre as novas usinas de etanol de milho e os principais mercados consumidores pode chegar a 1,7 mil quilômetros.

A Inpasa se apresenta como a maior biorrefinaria de grãos da América Latina e a segunda maior do mundo. A empresa possui unidades em Sinop e Nova Mutum, em Mato Grosso; Dourados e Sidrolândia, em Mato Grosso do Sul; Balsas, no Maranhão; e Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, além de projetos em construção em Rondonópolis (MT) e Rio Verde (GO).

A companhia também prepara um novo terminal em Paulínia, com capacidade de armazenamento de 122 mil metros cúbicos. A estrutura faz parte de uma estratégia logística que inclui presença em portos, transporte por cabotagem, ativos ferroviários e operações em dutos já existentes.

NERI KASPARY – CORREIO DO ESTADO/FOTO: DIVULGAÇÃO