A aprovação da MP do Frete pelo Senado, com a retirada do piso de R$ 5 mil para caminhoneiros, repercutiu entre os profissionais em Mato Grosso do Sul. A mudança, votada nesta terça-feira (14), divide opiniões entre os motoristas. Uns defendem que a aprovação de um piso pode reduzir os ganhos com comissões, enquanto outros entendem a mudança como benéfica de modo geral à categoria.
O Jornal Midiamax ouviu motoristas em Campo Grande e, entre os diferentes posicionamentos, encontrou argumentos favoráveis ao pagamento da remuneração fixa à categoria, mas também aqueles que contrariam essa opinião e afirmam que a aprovação do piso pode prejudicar a negociação de comissões por fretes entre empregador e funcionário, reduzindo os ganhos mensais do caminhoneiro.
A favor do pagamento de um piso mínimo à categoria, Ademilson Cardoso, motorista há sete anos, explica que, na empresa onde trabalha, o salário de registro já é maior que o proposto ao Senado. O caminhoneiro acha essa regulamentação uma boa ideia que pode impactar outros colegas de profissão. “Particularmente, onde eu trabalho, eu já ganho acima desse piso, mas eu acho que é uma boa ideia para outros que trabalham também”, explica.
Ao Jornal Midiamax, Ademilson indicou um ponto em que a aprovação do piso poderia beneficiar a classe, que é o impacto desse novo valor no momento em que o motorista for buscar aposentadoria.
“Eu acredito que esse valor do piso também ajuda na hora de se aposentar, que daí é diferente, né? A maioria que ganha um salário abaixo do que os outros, quando estiver mais velha, é isso que ela vai receber. Motorista sofre muito nesse estradão”, relata.
Piso pode reduzir negociação de fretes
Mas essa discussão sobre o piso salarial de R$ 5 mil não é vista somente com bons olhos. Outros motoristas veem esse pedido de mudança como algo negativo, que poderia impactar até mesmo a queda dos valores dos fretes às transportadoras, que são as que ofertam os trabalhos aos profissionais.
Na opinião do motorista Fabrício Oliveira, o pagamento do piso mínimo de salário poderia prejudicar muitos motoristas que garantem um valor mensal muito acima do valor por meio de comissão com o frete.
“Na minha opinião, essa questão do piso mínimo do frete é muito boa; melhora o frete e todo mundo ganha. Mas o piso mínimo do salário é mais complicado, porque muitos patrões não vão querer pagar. Se pagar o valor mais alto de salário, muitos patrões não vão querer pagar comissão, daí prejudica o frete também, que pode cair o valor”, relata o motorista.
Além disso, o motorista destaca o valor das despesas mensais. Caso fosse aprovado o piso de R$ 5 mil, muitos não conseguiriam pagar todas as dívidas, já que muitos dos motoristas mais que dobram o valor proposto por meio das comissões.
“Por exemplo: a transportadora paga R$ 5 mil pro motorista, só que daí, na estrada, temos as despesas. Vamos colocar que tenha uns R$ 2 mil de gasto por mês com comida e outras coisas; acabam ficando elas por elas e os R$ 5 mil já não são suficientes.”
Senado aprova MP do Frete e derruba piso
Nesta terça-feira (14), o Senado aprovou a MP (Medida Provisória) nº 1.343/2026 — a MP do Frete. Os senadores aprovaram a derrubada do piso de R$ 5 mil para caminhoneiros, previsto no PLV (Projeto de Lei de Conversão). A impugnação foi protocolada pela senadora Tereza Cristina (PP).
“Entramos com esse requerimento, que é uma matéria que está fora do que nós estamos discutindo. Isso é uma matéria estranha à medida provisória em questão”, apontou Tereza antes da votação.
A MP estipula penalidades para transportadores que não respeitarem o piso mínimo do frete no Brasil. Além disso, o texto aprovado pelos senadores torna obrigatório o cadastro para operações de transporte terrestre de cargas.
“A gente chega hoje num texto que acho que vai atender aos dois lados”, disse Tereza ao defender a matéria. A senadora por Mato Grosso do Sul participou das reuniões para um acordo sobre a MP, que era alvo de pressão dos caminhoneiros. “Feito a muitas mãos, com muitas discussões”, lembrou Tereza.
Por fim, a parlamentar disse que os senadores sabem “das dificuldades que passam os autônomos, mas também os transportadores, num momento em que a economia do país tem problemas”.
Claudemir Candido, Midiamax – Foto: Léo de França







