A economia brasileira entrou em uma trajetória de desaceleração mais acentuada, mas Mato Grosso do Sul ainda aparece em uma posição distinta no cenário nacional.
Enquanto o Banco Central reduziu de 2% para 1,8% a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro neste ano e prevê avanço de apenas 1,4% em 2027, uma estimativa regional do Banco do Brasil aponta expansão de 3,4% para Mato Grosso do Sul neste ano.
Ainda conforme a análise econômica do Banco do Brasil, divulgada na Resenha Regional deste mês, a diferença é explicada pela composição da economia estadual. A agropecuária e a indústria, setores que têm peso relevante em Mato Grosso do Sul, apresentam desempenho mais forte do que a média brasileira.
O documento estima crescimento de 7% para a agropecuária, 3,2% para a indústria e 2,2% para os serviços no Estado neste ano. Enquanto para o cenário nacional, o boletim do BB aponta alta 2,4% no agro, de 1,7% para a indústria e de 1,8% para os serviços.
O Banco Central informou que o PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre, após alta de 1,1% nos três primeiros meses do ano, e que os primeiros indicadores do terceiro trimestre sugerem continuidade da perda de ritmo.
A desaceleração significa uma redução expressiva em relação ao crescimento de 2,3% registrado pelo País em 2025.
Para o economista Antônio Patrus, CEO da Bossa Invest, a redução do crescimento pode limitar a capacidade de geração de empregos, de renda e de novos negócios, mas também tende a acelerar a busca das empresas por produtividade.
“Quando a economia perde dinamismo, empresas passam a buscar soluções para aumentar a produtividade, reduzir custos e conquistar novos mercados”.
Na avaliação dele, esse ambiente pode favorecer investimentos em tecnologia, automação e inovação, especialmente em empresas capazes de aumentar a eficiência de setores tradicionais.
Agro
No campo está uma das principais diferenças entre o cenário nacional e o sul-mato-grossense. A produção agrícola estadual passa por um ciclo de expansão, com destaque para o milho.
Conforme reportagem publicada pelo Correio do Estado, a segunda safra 2025/2026 está estimada em 16,253 milhões de toneladas, 14,3% acima do recorde anterior. A colheita alcançou 99,5% da área monitorada no dia 18.
O Valor Bruto da Produção agropecuária de MS também foi estimado em R$ 83,47 bilhões para este ano, crescimento de 1,4% sobre os R$ 82,32 bilhões registrados em 2025. O Estado mantém a sétima posição nacional e responde por aproximadamente 6% da riqueza gerada pela agropecuária brasileira.
A força do campo transborda para outros segmentos da economia. A produção demanda transporte, armazenagem, máquinas, combustíveis, comércio e serviços, além de fornecer matéria-prima para a indústria.
Essa característica ajuda a explicar por que o desempenho estadual pode permanecer acima da média brasileira mesmo diante da perda de ritmo da economia nacional.
Outro elemento que diferencia o Estado é a transformação do perfil econômico de Mato Grosso do Sul.
Depois de anos em que o agronegócio foi o principal vetor de expansão, a indústria passou a ganhar protagonismo com investimentos em celulose, alimentos, biocombustíveis e outras cadeias ligadas aos recursos naturais.
Estudo do Santander obtido pelo Correio do Estado já apontava, em julho, uma nova fase da economia estadual, com projeção de crescimento médio anual de 4,5% para a indústria entre 2025 e 2027.
A análise identificava os investimentos bilionários e a consolidação do parque industrial como fatores capazes de sustentar a atividade mesmo após o ciclo excepcional das supersafras.
A Resenha Regional aponta que os investimentos em celulose devem manter aquecida a economia sul-mato-grossense, com efeitos sobre construção civil, fornecedores, serviços, infraestrutura, emprego e renda.
O estudo também cita investimentos em indústria alimentícia, fertilizantes e logística como fatores capazes de compensar parte da acomodação das cadeias agropecuárias.

Empregos
A resistência da economia estadual, entretanto, não significa ausência de sinais de perda de ritmo. Conforme já divulgou o Correio do Estado, Mato Grosso do Sul registrou saldo de 19.258 empregos formais entre janeiro e julho deste ano, segundo dados do Novo Caged, do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
O desempenho dos sete meses deste ano representa uma desaceleração importante na geração de postos de trabalho no Estado.
No mesmo período de 2025, MS havia criado 26.988 vagas com carteira assinada. A diferença é de 7.730 empregos, uma retração de 28,6% no saldo acumulado.
O movimento ocorre justamente no momento em que o BC identifica uma economia brasileira ainda com mercado de trabalho aquecido, mas com geração de empregos em ritmo menor.
Para Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, os efeitos da desaceleração tendem a aparecer primeiro na contratação e nos salários. “No emprego, o efeito tende a aparecer com defasagem, primeiro na redução de novas contratações e dos ganhos salariais, antes de uma piora mais evidente da ocupação”.
Em MS, portanto, os dados ainda não apontam uma retração generalizada do mercado de trabalho, mas já mostram comportamentos diferentes entre setores e municípios.
Desempenho de MS será equivalente ao do País
No próximo ano, a diferença entre a média nacional e a média estadual pode diminuir. A Resenha Regional prevê forte desaceleração do Centro-Oeste em 2027 e projeta para Mato Grosso do Sul crescimento de apenas 0,3%, resultado de uma queda de 6,7% na agropecuária, avanço de 1,7% na indústria e crescimento de 2,9% nos serviços.
O estudo do BB relaciona a queda da agropecuária aos efeitos do super-El Niño, com possíveis impactos sobre soja, milho e cadeias relacionadas. Ao mesmo tempo, aponta que a indústria de celulose e outros investimentos industriais devem funcionar como contrapeso.
O Banco Central também passou a incorporar esse risco ao cenário nacional. Para 2027, a autoridade monetária projeta crescimento de apenas 0,5% para a agropecuária brasileira.
Para Valdir Piran Jr., CEO do Grupo Intra, o cenário não representa necessariamente recessão, mas exige atenção à capacidade de empresas e famílias de absorverem juros ainda elevados.
“A preocupação maior é isso virar uma tendência, porque crescimento baixo acaba limitando investimento, produtividade e aumento de renda”.
SÚZAN BENITES – CORREIO DO ESTADO/FOTO: AGRO AGÊNCIA







