Uma força-tarefa envolvendo autoridades bolivianas do governo federal, do Departamento de Santa Cruz, do Ministério Público e da Polícia Boliviana traçou estratégias de ação contra o crime organizado e definiu a fronteira com Mato Grosso do Sul uma região de alerta.
Durante a segunda versão do Plano Fronteira Segura, lançado no fim de outubro, em Santa Cruz de la Sierra, policiais treinados por meio de uma cooperação com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e os Crimes (Unodc), vinculado à Organização das Nações Unidas (ONU), vão atuar na fronteira entre Corumbá e Puerto Quijarro e Puerto Suárez.
Contudo, para o governo boliviano, as áreas mais críticas ficam ao norte do Brasil e enquanto na fronteira com Mato Grosso do Sul haverá policiais novos treinados em cooperação com as Nações Unidas, em regiões na divisa com Mato Grosso vai ser instalada uma unidade considerada “superelite”, com a presença de instrutores dos Estados Unidos atuando.
Policiais que já estavam em Puerto Suárez, município que é capital da Província de German Busch – que envolve Carmen Rivero Torres, a própria cidade e Puerto Quijarro –, realizaram o treinamento com o braço das Nações Unidas. Policiais novatos estão também nesse grupo. A capacitação dessas equipes alcançou, ainda, Cobija, Riberalta, San Matías, Guayaramerín, San Ignácio de Velasco, Yacuiba, Bermejo, Villazón e Desaguadero.
No total, são 230 policiais que estão destacados para atuação contra o crime organizado e o narcoterrorismo nas regiões de fronteira com o Brasil. Conforme as autoridades policiais do país vizinho, essas equipes envolvem efetivo jovem.
De acordo com o Plano Frontera Segura, a atuação desses policiais está concentrada para aumentar o controle territorial de regiões onde já existe o fluxo do transporte de cocaína, como é o caso de Puerto Suárez e Puerto Quijarro, que ficam na fronteira com Corumbá.
No caso de Santa Cruz de la Sierra, a presença do Primeiro Comando da Capital (PCC) é reconhecida, tanto por autoridades brasileiras como bolivianas.
Além disso, na Bolívia as investigações seguem a mesma classificação dada pelos Estados Unidos, que identificou o PCC, além do Comando Vermelho (CV), como organizações terroristas.
“Vamos implementar um processo de nova estratégia em matéria de luta contra o crime organizado, que tem a ver com a luta frontal contra delitos de narcoterroristas. Os agentes jovens têm sido treinados e capacitados e estão dispostos a exercer o seu serviço pela pátria”, afirmou o general da Polícia Boliviana em Santa Cruz, Adrián Álvarez, em coletiva concedida no dia 21 de outubro, na Plaza 24 de Septiembre.

SEM POLÍCIA DE ELITE
Apesar das iniciativas divulgadas pelo governo da Bolívia para ter policiamento especializado na região de Puerto Suárez, essa fronteira não foi selecionada pelo país vizinho para a implantação de unidades policiais de elite.
As fronteiras classificadas como situação mais crítica ficam na divisa com Mato Grosso (Cáceres), nas cidades de San Ignácio de Velasco e San Matías; além de Santa Ana del Yacuma, no departamento de Beni, fronteira com Rondônia.
Nessas outras áreas mais ao norte, os policiais bolivianos que vão atuar passaram por instrução e também vão contar com apoio dos Estados Unidos. Conforme o ministro de Governo, Marco Antonio Oviedo, essas duas estruturas novas da Polícia Boliviana terão equipamentos modernos, além de policiais.
“Com a cooperação norte-americana, vamos implantar estas duas unidades que chamamos de ‘superelite’. Essas são áreas que identificamos maior presença de narcotraficantes. Essas unidades estarão muito bem equipadas”, informou Oviedo anteriormente.
Conforme apurado, nessas regiões mais ao norte do Brasil, na fronteira com a Bolívia, há maior infiltração do Comando Vermelho para movimentar o tráfico de cocaína.
A Chancelaria boliviana já divulgou neste ano que a cooperação com os Estados Unidos envolve recursos de US$ 20 milhões para realizar cooperação técnica, capacitação e implantação de equipamentos a serem usados na segurança pública e combate ao crime organizado. Esse acordo foi assinado pela encarregada de negócios dos EUA em La Paz, Debra Hevia, e o chanceler da Bolívia, Fernando Aramayo.
EM ANDAMENTO
Para justificar as medidas anunciadas, o Ministério de Governo da Bolívia e a Polícia Boliviana anunciaram no dia 26 de outubro a prisão de Andy Junior de Almeida, conhecido como Pablo Escobar de Goiás. Ele estava em Concepción, município distante quase 300 quilômetros de Santa Cruz e a mais de 600 km de Corumbá.
A operação para prendê-lo envolveu coordenação da DEA (Administração de Controle de Drogas, em português), dos Estados Unidos, e da Polícia Federal. O investigado escondia-se na Bolívia desde 2021.
Andy não faz parte do PCC ou do CV diretamente, mas comandava uma organização criminosa conhecida como Amigos do Estado, que depois passou a se chamar Terceiro Comando Puro de Goiás.
“Eram estruturas dedicadas ao tráfico internacional de cocaína com uso de aeronaves. Atribuem a ele o envolvimento em 40 assassinatos cometidos no Brasil, e entre 12 e 15 na Bolívia. Atuava em uma organização, conforme o Brasil nos informou, maior que do uruguaio Sebastián Marset comandava”, afirmou o ministro Oviedo. Hoje, Marset está preso nos EUA, depois de ter sido capturado em Santa Cruz.
Na Bolívia, Andy Junior usava o nome de Julio Javier Maya Zampaia e foi apontado que ele mantinha relação com o PCC. Além dele, também foi presa a companheira, Larissa Ribeiro de Oliveira; além das prisões, houve a apreensão de um fuzil 7.62, veículos, joias, celulares e computadores.
RODOLFO CÉSAR, DE CORUMBÁ/FOTO: RODOLFO CÉSAR







