30/09/2026 16:54

Bioenergia já responde por quase 20% do PIB da indústria de MS

A bioenergia responde por 18,9% do Produto Interno Bruto (PIB) industrial de Mato Grosso do Sul, alcançando uma escala que vai além da produção de etanol e açúcar. Na safra 2025/2026, o Estado processou 52 milhões de toneladas de cana e produziu 5 bilhões de litros de etanol, alta de 16,2% em relação ao ciclo anterior.

O próximo passo é transformar parte dessa estrutura em novas fontes de receita, como biometano, combustível sustentável de aviação e outros produtos de maior valor agregado.

Com 22 usinas em operação, MS responde por 13,5% da produção nacional de etanol. O milho já representa 44% do combustível produzido no Estado, mudando o perfil da indústria e ampliando o aproveitamento de uma cultura tradicionalmente forte nas exportações.

O avanço do etanol de milho também aumentou a agregação de valor dentro do Estado.

Segundo o diretor técnico da Associação dos Produtores de Bioenergia de Mato Grosso do Sul (Biosul), Érico Paredes, dados da União Nacional do Etanol de Milho (Unem) apontam que para cada dólar de etanol de milho que deixa de ser exportado são gerados três dólares internamente por meio da transformação do grão.

“Esse cenário revela um potencial expressivo para a diversificação e o fortalecimento da economia regional”, afirmou.

O peso da atividade também aparece no mercado de trabalho. Dados da Biosul apontam cerca de 34,5 mil empregos diretos e terceirizados no setor em 2023, com massa salarial de R$ 1,4 bilhão.

Municípios como Nova Alvorada do Sul, Angélica, Ivinhema, Rio Brilhante, Nova Andradina e Chapadão do Sul tiveram avanço da atividade industrial e agropecuária e da arrecadação associado à expansão da cadeia.

MILHO
O crescimento do etanol de milho ocorre principalmente com o aproveitamento da segunda safra, cultivada depois da soja e sem necessidade de ampliar a área agrícola exclusivamente para a produção do combustível.

Para Paredes, esse modelo também representa uma vantagem competitiva diante de outros mercados produtores.

“Nossa lógica produtiva é distinta da europeia e da norte-americana, apresentando maior eficiência e uma pegada de carbono significativamente reduzida. Esse diferencial tem despertado o interesse internacional, consolidando o etanol de milho brasileiro como um ativo estratégico no mercado global”, afirmou.

A expansão da produção pressiona pela ampliação da infraestrutura de transporte, aquecendo projetos.

Em discussão está um alcoolduto de R$ 22 bilhões, com 2,1 mil quilômetros de extensão e capacidade para transportar 13,3 milhões de metros cúbicos de etanol do Centro-Oeste até Paulínia (SP), com conexão posterior com o Porto de Santos.

A escala alcançada também amplia a discussão sobre o que pode ser produzido a partir da estrutura já instalada. Para o titular da Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), Artur Falcette, a bioenergia passou a incorporar uma cadeia mais ampla.

“A bioenergia deixou de ser apenas energia. Hoje temos uma cadeia muito mais ampla, que envolve combustíveis, produtos químicos, biogás, biometano e outras possibilidades de agregação de valor”, explicou o secretário.

Ainda segundo Falcette, o papel do poder público é de criar condições para que novas tecnologias avancem. “O papel do Estado não é liderar cada escolha tecnológica, é reduzir as barreiras que impedem boas soluções de chegar ao mercado”.

POTENCIAL
O tamanho atual da indústria, porém, contrasta com o baixo aproveitamento de alguns subprodutos. Levantamento publicado recentemente pelo Correio do Estado mostra que as usinas sucroenergéticas de MS aproveitam apenas 6,5% do potencial de produção de biometano a partir da vinhaça.

O resíduo poderia gerar 126 milhões de m³ de biometano por safra, mas apenas 8,16 milhões de m³ são aproveitados atualmente. Mais de 60% desse potencial ainda não têm projeto associado.

Três unidades já produzem biometano no Estado e dois novos projetos podem elevar a capacidade anual de 8,16 milhões de m³ para 44,71 milhões de m³. Entre eles está uma planta da Atvos, em Nova Alvorada do Sul, com investimento superior a R$ 350 milhões e capacidade estimada de 28 milhões de m³ de biometano por safra.

O cenário mostra que o próximo salto da bioenergia não depende apenas de produzir mais cana, milho, etanol ou açúcar. Parte do crescimento pode vir do aproveitamento de resíduos e subprodutos que já são gerados pelas próprias usinas.

Para Mato Grosso do Sul, que já tem quase um quinto da indústria ligada à bioenergia, a questão passa a ser quanto desse volume pode ser transformado em novos produtos, investimentos e receita dentro do Estado.

EVELYN THAMARIS – CORREIO DO ESTADO/FOTO: SAUL SCHRAMM