13/10/2026 18:12

Da lavoura aos rios, estudo da Embrapa aponta risco de poluição da água em MS

A chuva que ajuda a produzir uma safra também pode carregar para os rios parte dos insumos utilizados no campo. Esse caminho, muitas vezes pouco visível, está no centro de um estudo da Embrapa que coloca Mato Grosso do Sul entre os estados com áreas prioritárias para acompanhar os riscos de poluição da água associados à agropecuária.

No recorte sul-mato-grossense, Dourados, Rio Brilhante e Sidrolândia aparecem entre os municípios destacados pelos pesquisadores quando se combinam indicadores de potenciais fontes de poluição e de vulnerabilidade às mudanças climáticas. O levantamento também chama atenção para as áreas de fertirrigação da cana-de-açúcar no sul do Estado.

O resultado indica onde investigar com mais atenção. Não é um diagnóstico de que a água desses municípios esteja contaminada, nem uma classificação das propriedades que adotam melhores ou piores práticas. O trabalho cruzou bases de dados nacionais para identificar potenciais fontes de poluição; o manejo efetivamente empregado nas propriedades não foi avaliado.

Desenvolvida por pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente e da Embrapa Solos, a pesquisa busca orientar governos e órgãos responsáveis pela agricultura e pelo meio ambiente sobre onde concentrar o monitoramento. O foco está principalmente no nitrogênio e no fósforo, nutrientes presentes em fertilizantes e resíduos da criação animal.

A chamada poluição difusa não sai de um único cano, como ocorre com uma descarga de esgoto. Ela pode se formar pela contribuição de diferentes áreas: a água da chuva escoa pelo terreno e transporta sedimentos, nutrientes e outros resíduos até córregos, rios e reservatórios. Essa dispersão torna mais difícil identificar a origem e controlar o problema.

Na cana-de-açúcar, o estudo alerta que aplicações excessivas de vinhaça podem favorecer o deslocamento de nutrientes para camadas profundas do solo, com risco para o lençol freático. O excesso de nitrogênio e fósforo nos corpos d’água também favorece a eutrofização, processo que compromete a qualidade da água e seus usos.

Para construir os mapas, os pesquisadores reuniram informações sobre fertilizantes, rebanhos, fertirrigação, disponibilidade e demanda de água, além da suscetibilidade dos solos à erosão. Segundo a Embrapa, o monitoramento brasileiro historicamente dedica maior atenção às áreas urbanas e ao esgoto; a pesquisa propõe ampliar esse olhar para o campo.

As recomendações incluem conservar o solo, ajustar o uso de fertilizantes, manejar adequadamente os resíduos da pecuária e preservar a vegetação nas margens dos cursos d’água. A proposta é reduzir as fontes de poluição e proteger a água utilizada no abastecimento humano e nas atividades produtivas.

Para Mato Grosso do Sul, o mapa abre uma agenda concreta: verificar o que chega aos rios nas regiões apontadas e usar os resultados para orientar a prevenção. A força da produção rural torna essa tarefa ainda mais relevante. A água que atravessa uma propriedade segue adiante — e sua qualidade interessa também a quem vive depois da cerca.

José Cândido – Campo Grande News/Foto: Banco de iimagens da Embrapa