27/04/2026 09:48

Venda de ativos do BRB envolve consignados de Campo Grande e dívida de frigorífico de MS

O capítulo mais recente do escândalo do Banco Master foi a venda de ativos herdados da instituição de Daniel Vorcaro pelo BRB (Banco de Brasília) à Quadra Capital. Entre esses créditos estão a carteira do Credcesta, que possui vínculos com servidores municipais de Campo Grande, e uma CCB (Cédula de Crédito Bancário) do grupo RKO, com frigorífico e fábrica de sabão na Capital.

As duas operações foram originalmente administradas pelo Banco Master e adquiridas pelo BRB. A venda desses ativos faz parte de reforço de caixa que a instituição financeira de Brasília precisa após crise desencadeada por prejuízos com o banco de Vorcaro.

O Credcesta chegou a ser alvo de ação na Justiça pela Feserp/MS (Federação Sindical dos Servidores Públicos Estaduais e Municipais do Estado de Mato Grosso do Sul), que cobrou a suspensão imediata dos descontos automáticos em servidores municipais de Campo Grande.

A contratação era feita diretamente entre o servidor e o Credcesta. Porém, o Jornal Midiamax relatou denúncia de motorista aposentado que alegou não ter solicitado empréstimo e, mesmo assim, o Master estava descontando valores mensais.

Já no caso da RKO, o Midiamax também revelou detalhes do negócio. O dono do grupo, Rodrigo Kalinovski, alega ser vítima. O empresário acusa o BRB de cobrar R$ 600 milhões de uma CCB referente a um empréstimo tomado pela empresa junto ao Banco Master.

Assim, a RKO tenta provar na Justiça que já quitou empréstimo de R$ 407.664.083,93 tomado com o Master em dezembro de 2023. A empresa entrou com ação em 20 de março, alegando que a dívida já quitada foi vendida para o BRB como um “ativo podre”.

O empréstimo foi feito por intermédio da Reag — que foi parceira em diversos negócios de Kalinovski. Aliás, o empréstimo é tido como suspeito pela Polícia Federal. O empresário já acionou advogados e enviou documentação para a investigação.

Tanto o Master quanto a Reag foram liquidados pelo Banco Central após escândalo de fraude financeira comandada por Daniel Vorcaro vir à tona.

Documentos apresentados pela RKO à reportagem mostram uma notificação de quitação da dívida assinada por um dos sócios do Master, Ângelo Antônio Ribeiro da Silva — preso pela PF com Vorcaro.

Ao Jornal Midiamax, Kalinovski explicou que buscava ampliar seus negócios. A RKO tem sede em Barueri, na Grande São Paulo, mas possui um frigorífico em Coxim, outro em Campo Grande e, também, uma fábrica de sabão na capital sul-mato-grossense.

Para adquirir novas plantas frigoríficas, o empresário tomou o empréstimo. A operação foi estruturada de forma a contar com garantia fiduciária lastreada em cotas de fundo de investimento Titânia, administrado pela Reag.

No entanto, o empresário alegou que enfrentou empecilhos para conseguir aprovação do conselho do fundo para comprar plantas frigoríficas. “Sempre apontavam algum problema e não aprovavam a compra”, disse.

Assim, no dia 30 de junho de 2025 — um ano e seis meses depois —, a RKO encaminhou documento ao Banco Master com sua manifestação de vontade de quitar antecipadamente o referido débito, por meio da transferência das cotas necessárias à operação de dação em pagamento.

BRB comprou ‘ativos podres’ do Master

O BRB (Banco de Brasília) comprou carteiras de crédito do Banco Master com indícios de irregularidades, incluindo dívidas já quitadas ou inexistentes. A operação envolveu cerca de R$ 30,4 bilhões em ativos desde julho de 2024, com relatos de clientes cujos débitos foram indevidamente registrados no Banco Central (Registrato).

Na semana passada, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa foi preso durante a quarta fase da Operação Compliance Zero. Ele já havia sido afastado do cargo no início das investigações, sob suspeitas que envolvem as relações entre a estatal e o Banco Master.

As investigações envolvem a aquisição de ativos do Master pelo BRB sem valor real, que passaram a ser chamados de “ativos podres”. O que se busca entender é se os dirigentes da estatal sabiam que o banco tentava mascarar uma crise de liquidez, beneficiando a empresa mesmo assim. O prejuízo pelo envolvimento com a companhia de Vorcaro é estimado em R$ 8 bilhões.

A negociação de ativos se soma à ideia de compra do próprio Master, também sob suspeita. 

Gabriel Maymone, Midiamax – Foto: Reprodução